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LUZ & SOMBRA

"Aquele que de entre vós está sem pecado, seja o primeiro que atire pedra contra ela".
-Evangelho de São João, cap. 8 (vs. 1.11)

"Eu vejo um homem adquirindo uma mulher a venda, sim a venda
 Tento achar a resposta , porque ele compra a mulher  e não conquista
Oh mulheres imundas vocês nunca ficam sozinhas".
 Este trecho da celerada e sexista, porém desoladamente realista canção "Dirty Women" da ancestral banda de heavy metal "Black Sabbath", resume dos pés a cabeça tanto as vidas das garotas de programa em geral, quanto a da protagonista (baseada em uma pessoa real) do filme "Bruna Surfistinha" (Brasil, 2011).
 O resumo de uma vida feita de  ambiguidades radicais, aonde amor, ódio, prazer, repulsa, riqueza e miséria andam de mãos dadas, se misturam, escamoteiam-se uns aos outros. Uma vida e um mundo em que se é ao mesmo tempo esfuziantemente popular e devastadoramente solitário, uma pessoa que se divide entre o oito e o oitenta o tudo e o nada.
 A uma primeira vista o filme "Bruna Surfistinha" parece ser apenas um filme sensual e provocante (que é como ele foi vendido), unicamente destinado a excitar o público masculino e servir como instrumento para um dos maiores símbolos sexuais brasileiros (a atriz Déborah Secco) destilar ainda mais o seu poderoso sex-appel.
 Porém, basta um olhar um pouco mais aguçado (no caso dos homens, isso quer dizer assisitir ao filme com a "cabeça de cima" e não com "a de baixo") e o espectador se verá cara-a-cara com um drama extremamente pesado e pungente, que tem pouco de sensual e excitante e muito de triste e amargo.
  O diretor Marcus Baldine (mais um cineasta nacional para se ficar de olho) construiu no filme uma falsa narrativa luminosa e sexy, que serve apenas como camuflagem para uma história soturna.

 
  Livre dos grilhões da teledramturgia brasileira (uma verdadeira usina de preguiça mental, aonde os atores parecem sempre representar a mesma caricatura), Deborah Secco dá o sangue para interpretar o verdadeiro turbilhão de emoções pelo qual passa o seu personagem, dominando com igual desenvoltura todos os aspectos da personalidade da figura dramática, que vão se alterando bruscamente durante o desnrolar do filme: de adolesente tímida a filha rebelde, de prostituta iniciante a piranha devoradora de homens.
  Essa alteração alucinante de nuances dramáticas  pelo qual passa a protagonista é também imitado pela própria estrutura do longa que vai do singelo ao brutal, do drama ao cômico e do bizarro as lágrimas mais veloz do que uma ejaculação precoce.
 As caracterizações dos demais personagens (a maioria também prostitutas e outras categorias de outsiders) correm cabeça-a-cabeça com a complexa interpretação de Déborah Secco, principalmente a da comediante Drica Moraes no papel de uma virulenta e ríspida cafetina, que comanda o seu bordel com mão de ferro. Todas os trejeitos, modos, gírias e dramas particulares típicos das garotas de programa também são retratados e revelados no filme   com desconcertante realismo, o que evidencia a apurada pesquisa que os realizadores  do longa devem ter feito no mundo (e no submundo) da prostituição.
 O desenho de produção também  mostra com extrema fidelidade e detalhamento, todos os ambientes barra-pesada que servem de cenário para o filme desde o prostíbulo vagabundo aonde a protagonista inicia a sua carreira de "vida fácil", passando pelo suntuoso apartamento em sua fase de acompanhante de luxo sedenta por fama e riqueza, chegando até ao repugnante inferninho, aonde Bruna despenca em sua decadência quando se torna uma cocainômana inveterada.
 Resumindo: "Bruna Surfistinha" é um filme que segue o  mesmo padrão de qualidade da maioria das produções nacionais desde a retomada: direção criativa, elenco afiado, texto bem escrito e uma ousadia visual digna de cinema de primeiro mundo.
 Outro aspecto legal desta obra é a sua trilha sonora,  ao invés de, como na maioria dos filmes brasileiros recentes com temática urbana agressiva, ter uma trilha sonora entupida com hip-hops enjoativos e insuportáveis funks, "Bruna Surfistinha" apresenta uma trilha quase que predominantemente "rocker", aonde  bandas clássicas do gênero como "The Zombies" e "Rolling Stones" se alternam com outras mais recentes: (Holger, Radiohead, etc).
  O filme também parece querer subliminarmente ( ou talvez até inconscientemente) comentar o impacto radical que as novas tecnologias de informação podem provocar nas vidas de pessoas comuns nestes tempos de "Wikileaks" e de quando "simples" sites de relacionamentos provocam insurreições e derrubam governos por todo o oriente médio, tempos em que um simples toque em um teclado de computador pode transformar radicalmente uma vida, tanto para o bem, quanto para o mal.
 A personagem principal de "Bruna Surfistinha" é baseado no livro autobiográfico "O Doce Veneno Do Escorpião" escrito pela ex-garota de programa e ex-atriz pornô Raquel Pacheco, que se tornou uma celebridade nacional, digna de atrizes globais, ao começar a postar em seu blog as suas experiências sexuais com seus clientes.
  E são os desbafos da protagonista em seu cyberdiário (aonde escancara todas as parafilias e hipocrisias de seus clientes, compostos em sua grande maioria, por respeitáveis homens de negócios) que costuram, de forma inventiva, praticamente todas as cenas do filme.
   A sequência  final de "Bruna Surfistinha" é de uma interatividade impressionante com o espectador, que se assistiu ao filme com um mínimo de atenção perceberá que acabou de ver não uma história sexy sobre uma mulher vulgar, mas sim uma saga sobre amizade, tristeza, amor e superação, protagonizada por uma mulher decidida que teve a coragem de penetrar na entrada do túnel abissal do lado escuro da alma humana (a sua própria e a de  alheios) e emergir do outro lado viva e ainda mais forte do que antes.
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The Machine Girl + Tóquio Gore Police=Escatologia Pouca É Bobagem




 Certa vez o maior gênio da sétima arte nipônica, Akira Kurosawa, reclamou que o cinema japonês era lento demais, parado demais.
 Bem, o falecido mestre Kurosawa não teira do que reclamar, pelo menos em termos de ritmo, de "The Machine Girl (Kataude Mashin Garu/Japão, 2008) de Noburu Iguchi e de "Tóquio Gore Police" (Japão, 2008) de Yoshihiro Nishimura.
 Exemplares máximos e recentes do cinema de horror japonês (considerado o mais arrojado, radical e inovador da atualidade), os filmes de Iguchi e de Nishimura respectivamente, são duas das obras mais delirantes, desenfreadas, criativas e intensas do cinema fantástico dos últimos anos. Tanto em termos de visual quanto de narrativa.
 "The Machine Girl" de Iguchi, conta a história de uma estudante adolescente meiga e pacata, mas que se transforma em uma máquina de guerra viva quando seu irmão é assassinado pelo filho de um chefão da yakuza.
  A partir daí o filme alucina completamente como se fosse uma locomotiva desgovernada, injetando litros de adrenalina nas veias do espectador e fazendo uma festa para os olhos de fãs de horror escatológico, filmes de artes marciais, humor dark e cenas de ação radicais.
 Falar mais estraga, basta dizer que o filme tem referências a "The Evil Dead" e a "Planet Terror", ao mesmo tempo em que supera a ousadia visual destes dois.
 "The Machine Girl" não deve ser assistido como a um filme convencional e sim como a um "desenho animado feito com atores de carne e osso" ou como a uma "história em quadrinhos viva". Igual aqueles animes e mangás estilizadíssimos, em que as tramas desrespeitam completamente as leis da lógica e da física em nome do impacto visual. Onde os personagens levitam em pleno ar enquanto se degladiam em lutas marciais de golpes precisos que se assemelham aos movimentos de um complexo balé ultracoreografado, das armas gigantescas de design barroco, das metralhadoras que disparam rios de balas e dos corpos desmembrados que jorram oceanos de sangue.
 Seguindo a mesma linha anime/HQ live-action de "The Machine Girl", está "Tóquio Gore Police". E se existe um filme capaz de superar "The Machine Girl"em todos os quesitos citados até agora, é este.
 Dirigido por Yoshihiro Nishimura, que havia trabalhado como técnico de efeitos especiais de "The Machine Girl", "Tóquio Gore Police" é paulada pura, que não deixa o espectador respirar do primeiro ao último minuto de exibição.
 Remake de "Anatomia Extinction" do próprio Nishimura e vencedor do prêmio de melhor filme asiático no "Fant-asia Film Festival", "Tóquio Gore..." é um híbrido de horror grand-guignol com ficção-científica hardcore (lembrando muito os primeiros filmes de David Cronenberg).
 O filme já começa a mil com um "Letherface turbinado" devorando as entranhas de um cadáver estripado e detonando um grupo de tiras em uma Tóquio futurista e decadente, que fervilha com uma violência incontrolável, onde soldados sanguinários e sádicos de uma polícia, que agora pertence a iniciativa privada, se dilaceram com mutantes homicidas e enlouquecidos alterados pela engenharia genética.
 O capitalismo e a mídia, cada vez mais oportunistas, sensacionalistas e famintos por lucro, se aproveitam da situação infernal, bombardeando os meios de comunicação com produtos de consumo de massa que incentivam as práticas da violência e do suicídio e com noticiários virulentos para saciar a sede de sangue cada vez maior da população.
 Nesse cenário caótico e desolador vaga Luca, uma policial-samurai exterminadora de mutantes, envolvida em uma investigação particular para exorcizar os demônios de seu passado.
 Entre as várias cenas inesquecíveis que devem entrar para a galeria das mais antológicas dos filmes fantásticos e do cinema maldito, destacam-se: a da carcaça humana feminina viva que urina nos rostos dos frequentadores de uma boate bizarra, o duelo entre Luca e uma mutante-ciborgue-sadomasô, que possui lâminas afiadas no lugar de pernas e braços, uma prostituta que leva o termo "vagina dentata" as últimas consequências e o sangue que esguicha sem parar dos cotos dos braços amputados de um incauto (que ousou tocar nas nádegas de Luca), formando uma chuva de hemoglobia ao redor de si mesmo.
 Tudo isso é mostrado com uma edição de imagens estilosa, dinâmica, clipada, tornando as cenas de terror, ação e violência ainda mais furiosas e pontuada por uma trilha sonora heavy metal, repleta de guitarras saturadas e beats pesados de bateria.
 Mas o mais legal em produções como "The Machine Girl" e "Tóquio Gore Police" é a total ausência de ética e de bom mocismo. Não há nem uma gota do moralismo babaca da maioria dos filmes ocidentais.
 Aqui não existe "o mocinho" e "o bandido", existe apenas o "menos cruel". É horror splatterpunk na veia:sujo, direto, mal-comportado, subversivo e perturbador, embrulhado com a estética de elementos da cultura pop (mangás, animes, vídeo-games, etc).
 Se você tem a mente aberta e o estômago forte vá fundo em "The Machine Girl" e em "Tóquio Gore Police". Caso contrário vá assistir ao Tom Cruise jogando vôlei sem camisa na praia em "Top Gun" na "Sessão da Tarde".
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Fúria de Titãs: O Remake (O Dia Em Que O Stop-Motion Venceu A Computação Gráfica)

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A Criatura Da Destruição (Um Conto De Fadas Noir)

"Quando ela terminou sua refeição, o lobisomem disse":
--Está cansada  da caminhada minha netinha? Então
tire as suas roupas, venha para a cama e eu a aquecerei.

Chapéuzinho Vermelho (Uma versão primitiva)


 A alguns anos atrás Stan Winston, um dos mais célebres e visionários criadores de seres fatásticos da história do cinema e um verdadeiro esteta da arte dos efeitos especiais/visuais, comprou os direitos de títulos de várias produções de horror e ficção-científica B de produtoras especalizadas em fitas do tipo. Entre elas estava "She Creature" um clássico de 1956, dirigido por Edward L. Cahn e bancado pela produtora AIP (Amerian International Picture). Um estúdio independente criado pelo ex-gerente comercial James H. Nicholson e por um advogado do ramo do entretenimento chamado Samuel Z. Arkoff. Entre os produtores da AIP estava o futuro megaprodutor de filmes B, Roger Corman.

  As décadas de 30, 40 e 50 foram importantíssimas para o cinema fantástico, pois foi nestas décadas que foram estabelecidos muitos dos principais cânones e raízes das produções de horror e ficção-científica, tais como: o monstro alienígena devorador de seres humanos, a lascividade dos vampiros, o licantropo torturado, o visual gótico, os primeiros passos do cinema trash/exploitation e do terrir, etc. Elementos estes que foram se reciclando e se modernizando através dos tempos.
 A sacada de Winston era clara: através de remakes dar um banho de tecnologia e realismo a estas  velhas produções que hoje, graças ao avanço cada vez mais gradual dos efeitos especiais, se tornaram ingênuas e até risíveis.
  Foram com estas intenções que foi parida a refilmagem de "She Creature".
  Esta versão moderna do longa de 1956 é muito interessante, pois o diretor contratado por Winston, Sebastian Gutierrez ( do suspense policial "O Beijo Da Traição"), conseguiu a proeza de atualizar o original para os novos tempos sem sacrificar o clima dos velhos filmes de monstros da década de 50, é quase como se dois filmes, um antigo e um moderno, convivessem na mesma película ao mesmo tempo.
 Para começar o diretor ambientou o remake no começo do século 20 (muitos dos filmes de horror e ficção-científica das décadas de 30, 40 e 50 se passam no começo do século 20 ou no século 19, como "Drácula" de Todd Browning e "Frankestein" de James Whale), a abertura do do filme foi rodada com uma "envelhecida" fotografia P&B e os cenários quase todos sombrios e mal iluminados (porém perturbadoramente reais, ao contrário dos sets de "papelão", dos antigos filmes de horror), com cantos e extremidades sempre ocultos pela mais profunda escuridão, passam uma impressão de que a qualquer momento algum ser infernal vai saltar  das sombras e dá ao filme um clima de "gótico até os ossos".
 "She..." se passa em 1905 e tem início em um circo de aberrações aonde o casal de charlatões Angus (Rufus Sewell) e Lily (Carla Gugino), enganam o público, cobrando para este poder assistir a monstros e  mutações fake (na verdade atores fantasiados). Mas a vida do casal (principalmente a de Lily), sai fora dos eixos quando, através de um marinheiro ancião, encontram uma inacreditável sereia de verdade.
  Apesar de homenagear as velhas produções góticas de Hollywood, o verdadeiro mundo explorado pelo remake de "She Creature" é o das lendas e dos contos de fadas. Mas não aqueles contos de fadas pop  imortalizados por escritores de literatura infantil e pelas animações da Disney. "A Criatura da Destruição" penetra nos mitos esquecidos, nos protótipos das lendas, que devido aos seus caráteres  bizarros, subversivos e depravados que utilizavam metáforas para discutir sobre o lado mais negro do ser humano foram sumariamente distorcidos  e pulverizados da cultura popular e enterrados nas profundezas de nossas psiquês.
  Só recentemente essas lendas originais e selvagens foram desenterradas das catacumbas por escritores como os ingleses Allan Moore e Neill Gaiman e por cineastas como o mexicano Guillermo Del Toro.
  Seguindo a linha destes ousados e geniais artistas citados acima, Stan Winston e Sebastian Gutierrez tranformam a sereia, popularmente conhecida como um personagem infantil, em uma besta sanguinária, animalesca e implacável, mesmo quando ainda se encontra em sua forma humana feminina e sedutora.
 O cenário em que a maior parte da trama se desenrola (um barco navegando em mar aberto) é tão sinistro quanto a própria sereia e ponto de parecer quase uma extensão do organismo do monstro. Temos  a certeza absoluta de que ninguém vai sair vivo dali, pois tem-se a impressão que o interior da embarcação é o interior das vísceras da criatura e de que todos ali já estão condenados, apenas aguardando o momento de serem digeridos pelo estômago do monstro.
 Essa mistura precisa de horror com suspense imbuída ao filme causa no espectador uma grande sensação de desconforto.
  Gutierrez mantém essa tensão carnívora até o final do longa, costurada por cenas de grande beleza plástica (quando eu cito a palavra "beleza", estou me referindo unicamente ao aspecto de esmero técnico do filme), como em uma tomada tipicamente "noir",   em que Lily acende um cigarro na mais completa escuridão, que vai provocando uma crescente "roda de luz" ao redor do rosto da personagem, emoldurado por trevas tão densas que são quase palpáveis, lembrando pinturas simbolistas como as de William Blake.
  É Justo também creditar o clima dark/gótico do filme a sua trilha sonora simultâneamente sinistra e sensual, lembrando a soundtrack que Jerry Goldsmith compôs para Instinto Selvagem (Basic Intinct, 1992) de Paul Verhoven.
  A sereia foi criada pela equipe de Winston através do que parece ser um mix de diferentes técnicas de efeitos especiais combinados entre si (animatrônicos, make-up e computação gráfica). Versão high-tech do lendário Ray Harryhausen, Stan Winston (como em todos os seus filmes ) imprime a criatura o seu padrão de qualidade característico em termos de verossímilhança e detalhamento obssessivos. Na fase  em que o monstro exibe a sua faceta mais crua e sevagem, a mente doentiamente imaginativa de Winston não perde em nada para, por exemplo, as obras mais insanas do artista plástico gótico-futurista H.R.Giger.
 Mas a maior parte do horror e da ação de "A Criatura Da Destruição", se passa dentro da cabeça do espectador. A exemplo do escritor H.P.Lovecraft (1890-1937), (outro que também devorava vários tipos de lendas primitivas assustadoras e depois as regurgitava na forma de uma mitologia inteiramente nova), os realizadores do filme lançam "apenas" as sementes do medo. Sementes saudáveis o suficiente para produzirem todo um novo e aterrorizante mundo, dependendo para isso apenas do solo em que forem plantadas (leia-se o grau de imaginação do espectador).
  Aventure-se pelas imagens sinistras de "A Criatura Da Destruição", para aqueles (independente da idade) que possuem um coração velho e uma mente burocrática, este irá parecer apenas "mais" um filme de horror mediano e chato. Mas para aqueles dotados de um coração juvenil e uma imaginação irrequieta, descobrirão uma pequeno diamante que tornará as suas noites e os seus sonhos mais aterrorizantes e mais emocionantes.

 "Sinistro é tudo aquilo que deveria permanecer oculto, mas vem a luz."
  Shelling

                                                                                                              
   Agradecimentos:
   Estou muito grato aos membros da
  comunidade do "Facebook" "Os Vivos Serão Devorados",
  que me fornecaram informações vitais para a elaboração desta
  postagem.
 

                                                                                                   
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Dissecando Tarantino

 Finalmente, o retrógado mercado editorial brasileiro publica a primeira (e creio eu única até agora) obra teórica sobre Quentin Tarantino.
 O cara dispensa apresentações para qualquer um que curta e tenha um mínimo conhecimento sobre a sétima arte.
 "O Cinema de Quentin Tarantino" (Papirus Editora) redigido em alto nível pelo doutor em cinema (pela prestigiosa USP), cineasta e professor de direção em especialização em cinema  da Unisinos Mauro Baptista, apesar de curto (143 páginas) é bastante denso em informações e curiosidades sobre este singular cineasta americano, que consegue acasalar, sem nenhum conflito, cinema hollywwdiano blockbuster com as mais profundas raízes do cinema underground guerrilheiro. Qual outro diretor de cinema que você conhece que consegue arrastar astros milionários (como Brad Pitt e John Travolta), para filmes com repugnantes censa de violência explotation editadas dentro de complexíssimas e sofisticadas narrativas de cinema nouvelle vague?
   E Baptista consegue decodificar eloquentemente toda a emaranhada teia de influências e técnicas cinematográficas dos mais diversos estilos e nacionalidades que compõem os filmes de Tarantino e que graças a essas carcterísticas formam um das filmografias visualmente mais arrojadas e originais do cinema moderno.
  "O Cinema de Quentin Tarantino" não é uma biografia , tampouco um livro sobre fofocas de celebridades.
   Baptista se concentra unicamente no aspecto profissional deste grande cineasta, principalmente no âmbito técnico de sua obra, esmiuçando e se debruçando sobre cada aspecto do processo de filmagem de todos os filmes de Quentin Tarantino, de "Cães de Aluguel" (1992) a "Bastardos Inglórios" (2009) . Revelando curiosidades fascinantes para aqueles que querem penetrar a fundo tanto na mente apaixonadamente cinemática de Tarantino, quanto nas fascinantes técnicas cinematográficas. Um exemplo disto é quando Baptista revela que Quentin elaborou um visual tão rico e diversificado para "Kill Bill" (2003/2004), que o cineasta pensou primeiramente em contratar três iluminadores para fotografar a saga da "Noiva".
  O único porém do livro (creio eu que devido a problemas editoriais) é que, a partir de "Kill Bill", o autor aborda muito rapidamente o restante da obra do cineasta. Mesmo assim, consegue dar o seu recado a contento. No entanto fica no livro aquele velho sabor de "quero mais"
  Mesmo com este deslize, "O Cinema de Quentin Tarantino" é fundamental e imperdível não apenas para aquele  público que vê cinema  como um passatempo ou hobby, mas principalmente para os cinéfilos, aqueles que estão sempre ávidos por novas curiosidades e informações sobre todos os aspectos fílmicos em geral, como estudantes de cinema e pesquisadores da sétima arte.
  Basta agora torcer, para que as editoras brasileira invistam em mais obras teóricas não apenas sobre Tarantino, mas também sobre vários outros mestres do cinema mundial.
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Piranha (Sexo, Suor, Sangue E Um Breve Comentário Sobre Medo E Nojo)

 Em primeiro lugar vamos deixar uma coisa bem clara: não existe qualquer tipo de obra de horror, seja ela na forma de livros, filmes, HQs, games ou seja que mídia for, que seja bonita e altruísta.
 Acreditar nisso é algo tão idiota e ingênuo quanto achar que se pode fazer uma guerra sem mortes ou de que existe honestidade e ética na política brasileira.
 E não adianta, por exemplo, vie crítico de cinema (por mais veterano e respeitado que seja este), dizer que tal diretor conseguiu unir "horror com beleza", por que este tipo de comentário é pura balela.
 Filme de horror de verdade não tem sentimentos, pudor ou moral, é algo tão frio e sem alma quanto o coração de um zumbi.
 E acima de tudo, a raíz de todo o tipo de horror, seja ele real ou fictício, é o medo. E o medo não tem absolutamente nada a ver com a beleza. pode apostar a sua vida nisso.
 O ser humano sempre conviveu com o medo e com o horror. Eles são um mal necessário para a nossa própria sobrevivência, tão necessário quanto nos é comer, beber e respirar. Se não fosse pelo pavor e a descarga de adrenalina que este descarrega em nosso sangue ao menor sinal de perigo para nos alertar e nos preparar para correr ou lutar, a nossa espécie já teria se extinguido da Terra a milhares de anos atrás.
 E aquele mesmo medo primitivo e crú que o Homo habilis sentia ao ouvir os berros das feras oriundas das profundezas das florestas trevosas e desconhecidas, nos foi transmitido através de nossos antepassados geração após geração, até infectar o nosso próprio DNA.
 Apenas trocamos as bestas pré-históricas por assassinos seriais, guerras apocalípticas, aliens carniceiros, aberrações genéticas mutantes e inteligências artificiais sanguinárias.
 O problema, é que através dos séculos, as sociedades humanas e os seus meios de comunicação, com suas sedes insanas por lucro fácil conduzidas por um capitalismo (um dos monstros mais implacáveis e ferozes que já existiu entre nós) progressivamente cada vez mais selvagem e descontrolado, estão sempre  tentando adocicar o horror e o medo.
 De Charles Perrault aos Irmãos Grimm, que nos séculos XVIII e XIX respectivamente, banalizaram e humilharam contos folclóricos ancestrais, aterrorizantes e sangrentos ao transformá-los em inocentes e bobocas contos de fadas infantis, até alguns cineastas da atualidade (que não gostam nem entendem nada do gênero "terror") que convertem psicopatas em verdadeiros bufões apatetados em slashers vagabundos e insípidos ou  colocando monstros seminais, que a séculos aterrorizam a escuridão de nossos pesadelos, como os licantropos e os vampiros como protagonistas de filmes românticos feitos para adolescentes acéfalas, tudo sempre com o intuito de conseguir oferecer (e vender) o medo e o horror para um público cada vez mais amplo.
 Contudo, os verdadeiros (e poucos) aficionados do macabro e da desgraça, aqueles que realmente gostam de encarar o abismo e de sentir a adrenalina correndo pelas suas espinhas não se deixam enganar, só saindo de suas catacumbas para apreciarem alguma nova obra do gênero quando esta realmente honra a palavra "horror".
 E o horror legítimo e excitante que nossos antepassados primevos sentiam, voltou a ferver nas células dos fãs do grotesco quando este penetraram na pretidão das salas de cinema (nada mais do que uma versão high-tech da velha caverna aonde os antigos narravam suas histórias de medo ao redor da fogueira) e assistiram "Piranha."
 "Piranha" pertence a um sub-gênero chamado "gore-splatter", também conhecido como "horror hardcore" ou "cinema extremo" e é tão radical que chega a assustar até mesmo os fãs de cinema de horror mais tradicional.
 Inaugurado em 1963 com o longa "Gorefleish", dirigido por Hershell Gordon Lewis (um médico que resolveu jogar nas telas dos cinemas toda a putrefação da carne humana e a bizarrice teratológica que via no dia-a-dia de sua profissão) e turbinado por George Romero em "A Noite dos Mortos-Vivos" (Night of the Living Dead) em 1968, o gore-splatter é conhecido, amado, odiado e perseguido por escancarar da forma mais pornográfica possível toda a violência, perversidade, torpeza e sadismo que se escondem nos recônditos escuros da alma humana.
 "Piranha" também abraça outro sub-gênero da fantasia negra, o "terrir", que surgiu por volta de 1985 com "A Hora do Espanto"(Fright Night) de Tom Holland, atingindo o seu ápice em 1992 com o  fantástico  "Fome Animal"(Brain Dead) de Peter Jackson . O terrir se caracteriza por misturar o humor anárquico, ácido e frenético típico dos filmes do trio ZAZ com banhos de sangue e entranhas e monstruosidades absurdas. Filmes para gargalharmos suando frio.
 Embora não alcance o mesmo patamar de escatologia épica de "Tóquio Gore Police" de Yoshihiro Nishimura ou de "Planeta Terror" (Planet Terror) de Robert Rodriguez, "Piranha" é criativamente intenso e perversamente divertido o suficiente para saciar a sede de sangue dos exigentes fãs de cinema gore-splatter.
 Livremente baseado em um clássico homônimo dos filmes B de 1978, dirigido por Joe Dante (um ex-diretor de "filmes de horror de verdade", que foi capturado, devorado e digerido pelo monstruoso capitalismo até se transformar em um cineastazinho de inocentes "filmes de fantasia para toda a família"),  "Piranha" segue a risca a tradição das antigas produções exploitations (que eram exibidas em drive-ins e cinemas baratos) ao usar apenas um fiapo de roteiro como linha narrativa (durante um spring break, que pode ser definido como uma espécie de "baile funk gringo", jovens tarados e ninfomaníacas seminuas servem de rango para horripilantes piranhas pré-históricas) como pretexto para esparramar na tela cenas de violência espetaculares e inverossímeis e grosseiras, que ultrapassam todos os limites do bom senso em uma orgia de membros decepados, vísceras expostas, mares de sangue e incorreção política a granel.
 Quase todos os personagens do filme são clichs ambulantes imbecilizados, pois em produções gore-splatter os únicos personagens dignos de nota, os verdadeiros "heróis" são os monstros, os maníacos, a besta. Em filmes gore-splatter ou você não for o monstro, será apenas a comida para o monstro.
  Algumas pessoas (inclusive os fãs de cinema de horror mais convencional) podem argumentar que as produções gore-splatter não provocam sustos nos espectadores "apenas" nojo e repulsa, alegando que vísceras a mostra esguichos de sangue e carne putrefata não tem a ver com o medo em si.
 A primeira vista esta linha de raciocínio parece mesmo sensata, mas bastauma investigação mais apurada sobre o assunto, para percebermos que na realidade o que ocrre é justamente o oposto: o asco assusta sim e muito.
 Em "Dança Macabra", o clássico tratado de Stephen King sobre a incisiva influncia do macabro na sociedade norte americana, o escritor descreve que o horror e o medo possuem varios níveis, sendo que o último e mais abissal destes seria o nojo, o asco, a repulsa, a explosão de entranhas fétidas, o jorro obsceno de fluídos corpóreos gotejantes...enfim o paradoxo da violência apelativa, da degradação e da perversidade.
 Como exemplo deste nível de medo e horror , o escritor cita a extraordinária cena em que o filhote de alienígena emerge dos intestinos do personagem interpretado por John Hurt em "Alien o Oitavo Passageiro" (Alien) de Ridley Scott.
 É só pensarmos um pouco para percebermos que esta teoria do mestre King esta correta e precisa: quando nos deparamos com o cadáver em decomposição de algúm animal na rua e sentimos o fedor de sua morte nossa primeira reação é nos afastarmos dali o mais rápido possível. Isso nos é uma reação automática, instintiva, como se nossas pernas se movimentasssem sozinhas para longe do defunto.
 Isso ocorre, porque sabemos que ali não se encontra apenas os restos de algo que não vive mais, ali também espreita a infecção, a doença, o perigo, a morte.
 O frio na espinha que sentimos quando nos encontramos em situações assim é o mesmo que nos atravessa a coluna vertebral quando sentimos o aço frio do cano do revólver de em assaltante em nossa nuca, ou se vissemos caminhando na rua alguém que acreditássemos já estar morto a muito tempo.
 O que sentimos quando nos deparamos com algo muito nojento e repugnante é medo em seu estado mais puro.
 E Alexandre Aja, o diretor francês que dirigiu esta nova versão de "Piranha"é um cineasta que entende de medo e nojo como poucos. Neste filme, Aja faz exatamente aquilo que os fãs de cinema extremo querem ver: cenas asquerosa e repulsivas filmadas com o máximo de imaginação e grande domínio técnico.
 Auxiliado pelos fantásticos efeitos especiais da dupla Greg Nicotero e Howard Berger, os mais legítimos herdeiros de Rick Baker na criação de monstruosidades e deformidades físicas e os únicos americanos que se igualam aos mestres italianos e japoneses de efeitos visuais gore, Alexandre Aja transfere para um ambiente aquático os mais celerados clichês do gênero.
 É notável, por exemplo, a sequncia em que o plicial vivido por Ving Rhames tritura um bando de piranhas com as hélices do motor de uma lancha. Trata-se da versão marinha da clássica cena do personagem que, acuado por um bando de zumbis famintos por carne humana, surta e armado com uma truculenta motoserra despedaça os mortos-vivos em um enlouquecido banho de sangue.
 As piranhas, por sua vez, parecem sentir tanto ódio e desprezo pela humanidadequanto Jason Vorhees e Michael Myers e são tão sádicas e implacáveis quanto os índios antropófagos  dos giallos  sobre canibalismo.
 Vale ressaltar também o uso de imagens tridimensionais em "Piranha". Ao converterem, durante a pós-produção, as cenas de 2-D convencional para o 3-D digital, os realizadores do filme usaram os recursos deste novo formato da forma mais apelativa e vistosa possível, como bem cabe a uma produção maldita como esta: corpos nus de jovens devassas são "esfregados" na cara dos espectadores como se fossem hologramas eróticos, para logo em seguida serem triturados por presas assassinas, braços, pernas, cabeças e órgãos genitais humanos são "espirrados" para fora da tela fazendo quase sentirmos o cheiro do sangue que brota farto dos membros dilacerados.
 Absolutamente cool!
 Agora um conselho para quem pretende ou já assistiu "Piranha": ignore completamente as críticas feitas ao filme por veículos de comunicação ligados a mídia dominante e convenciona ( aqueles que fazem parte dos conglomerados comunicativos como "Globo" e "Abril") e procure informações sobre o filme através de críticos e jornalistas realmente especializados e que entendam a fundo o cinema fantástico e de horror como, por exemplo, os do site "Boca do Inferno" e de blogs e fanzines sobre cultura underground. pois a mídia dominante é extremamente conservadora, cínica e acadêmica não apenas em relação a doutrinas políticas e econômicas mas também com as artes e expressões culturais.
 De resto, respire fundo e mergulhe no mar de sangue e despojos humanos de "Piranha". E não precisa se impressionar tanto assim com as imagens do filme, pois elas não passam de um reflexo (ainda que um tanto distorcido, hiper-realista e metafórico) de nossa própria sociedade.
 afinal, basta olharmos um pouco ao nosso redor, para constatarmos que o mundo em que vivemos é tão ou mais gore-splatter do que os próprios filmes do gênero.
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A ORIGEM:SINAPSES ENTRE NEURÔNIOS E ADRENALINA

"Quando consigo aplacar minha sede,
 sonhando que estou bebendo, não preciso despertar-me para saciá-la"
-A Interpretação dos Sonhos
-Sigmund Freud
 
 "Total Recall", "O Exterminador do Futuro", "Akira", "Matrix", "Zona Verde"... Pode ter a certeza de que a lista de filmes de ação inteligentes, isto é, que possuam como pano de fundo para perseguições, lutas insanas, efeitos visuais deslumbrantes e jorros de de adrenalina e testosterona, roteiros que lidem em maior profundidade com temas relevantes como política, tecnologia, matemática, física, filosofia, etc, não se estende muito além dos citados acima.
  Pode-se dizer que surgem um ou dois a cada década, são como ouro e pedras preciosas achadas no garimpo após (as vezes dias) de garimpagem inútil, aonde a única coisa que se encontra é areia e terra áridas e descartáveis.
  Súbito, um novo metal suntuoso é descoberto pelo garimpeiro (leia-se o fã de cinema), para engrossar mais um pouco a esquálida lista de "filmes de ação intelectuais" e a nova aquisição deste catálogo se chama "A Origem" (Inception).
  "A Origem" é um turbilhão eletrizante de ação e aventura ambientado no mundo mais caótico, perigoso e sinistro que existe: as profundezas da mente humana e aborda uma das questões filosóficas mais ancestrais e perturbadoras que vem dilacerando o intelecto do homem desde que este "aprendeu" a raciocinar: o que é a realidade? Qual afinal, é a diferença (se é que existe alguma), entre o sonho e a vigília?
  Perguntas estas que já foram abordadas inúmeras vezes no cinema, literatura e outras formas de expressões artísticas.
 Ao contrário de "13°Andar" e "Matrix", que usavam a informática e a realidade virtual como metáfora para discutirem sobre o "Mito da Caverna" de Platão, "A Origem" ataca o problema mais de frente, dissecando este complexíssimo tema existencialista em uma configuração mais crua e primitiva.
 Como era de se esperar de uma obra que debate um assunto tão obscuro quanto este, "inception" possui um roteiro emaranhadíssimo, impossível de explanar em poucas linhas, ou até mesmo em poucas páginas.
  Basta dizer que o texto é tão bem elaborado, construído por meio de uma engenharia tão precisa e delicada quanto a de um relógio suíço, que se tem a impressão de que se for retirada uma única e misúscula peça  (ou se o espectador desviar a sua atenção do filme por um único segundo sequer), todo o magnificente maquinário que é o roteiro do longa vai desabar sobre si mesmo.
  A espinha dorsal do mirabolante e genial roteiro engendrado por Cristopher Nolan (também diretor do filme) é sobre um grupo de golpistas de alto nível liderados por Don Cobb (Leonardo di Caprio, que atuando nos filmes de Scorsese aprendeu definitivamente a arte da interpretação), que praticam espionagem industrial através de métodos psíquicos e metafísicos em que invadem os sonhos de indivíduos e lhes roubam seus segredos mais bem guardados no fundo de suas psiques.
  Desde as primeiras cenas o espectador é jogado no meio da desordem espetacular do universo onírico, aonde os herméticos tratados de Carl Gustav Jung, Freund e outros estudiosos da mente/cérebro do homem, são abordados, discutidos e explicados, não por meio de diálogos e palavras, mas sim por um caos de sequências de ação ininterruptas e gradualmente radicais, protagonizadas não por intelectuais sensíveis encerrados em ambientes acadêmicos, mas por homens brutos e implacáveis que parecem terem saído de um livro hard-boiled de Dashiell Hammet, indivíduos inteligentes sem dúvida, mas acima de tudo homens de ação, das ruas, junkies de adrenalina, caçadores da morte.
  Seguindo a tendência imposta pelos mestres contemporâneos do cinema de ficção imaginativa como Peter Jackson, Neill Blonkemp e Guillermo del Toro, Cristopher Nolan faz em "A Origem" o realismo sempre caminhar lado a lado com a fantasia, mesmo nos momentos mais tresloucados desta e sempre questionando implacavelmente o espectador até os últimos minutos de exibição sobre o torturante enigma (que perpassa todo o longa) da dualidade entre o "estar sonhando" e o "estar acordado" Seriam estes dois princípios realmente opostos, ou apenas as duas faces de uma mesma moeda?
  Encabeçado por Di Caprio, o filme possui um elenco tão homogêneo, que parece não existirem papéis coadjuvantes, pois até mesmo estes são personagens extremamente ricos, sempre possuindo importância fundamental para o desenvolvimento do ,enredo.
  Mesmo assim, se pode destacar Ellen Paige, (que interpreta uma interessante variação moderna da personagem da mitologia grega Ariadne), Joseph Gordon-Levitt (alternando momentos de interpretação contida e introspectiva com outros de ação extrema e explosiva)  e Cillian Murphy, que consegue transmitir toda a agonia e desorientação sofrida pelo seu personagem.
  Já o lado técnico do filme parece estar o tempo todo querendo disputar com o roteiro, para ver qual dos dois merece mais adjetivos superlativos como "brilhante", e "perfeito".
  Efeitos digitais, efitos físicos, iluminação, cenografia, make-up...., tudo parece tão espetacularmente bem feito e de ter sido tão difícil de se fazer quanto o texto do longa.
  Algumas cenas de "A Origem" como a da cidade que se dobra sobre si mesma, lutas em gravidade zero e uma locomotiva desgovernada invadindo uma rua movimentada, possuem um impacto visual tão poderoso e inesquecível quanto o gigantesco destróier da sequência inicial de "Uma Nova Esperança", o arranha-céus em chamas no clímax de "Duro de Matar" ou as pancadarias marciais da trilogia "Matrix".
  Porém o que mais chama a atenção em "A Origem" é a sua montagem.
  A edição de imagens é exata e complexa como uma equação matemática, fazendo com que as infinitas seqências de ação (que se passam paralelamente em tempos e espaços distintos) se encaixem umas nas outras com tamanha precisão cirúrgica, que parecem estarem "falando", "explicando" para o espectador as difíceis questões sobre psicologia, neurologia, física, filosofia e química abordadas pelo filme.
  Isso se deve ao fato de o cineasta inglês Cristopher Nolan ser um adepto da "mesma escola" de montagem intrincada de Akira Kurosawa, Jean Luc-Godard e Quentin Tarantino. Diretores para quem a edição é uma arte , uma requintada forma de se contar uma história, devendo ser sempre tão surpreendente e tão bem trabalhada quanto o próprio roteiro do filme e não apenas um "canal"para irem se aglutinando imagem atrás de imagem em uma burocrática linha reta.
  Quase todos os longas de Nolam seguem esta tendência de narrativa embaralhada, fragmentada, de flash-backs no interior de flash-backs, formando um atordoante quebra-cabeças que fica martelando nos neurônios do espectador e que este, geralmente, só conseguirá montar horas após o filme ter acabado.
  Porém, esta não é a única qualidade de seus filmes.
  Seus roteiros são, na maioria das vezes, enigmáticos, thrillers desafiadoramente cerebrais, com personagens de natureza ambígua, perturbados, obcecados, dilacerados por traumas violentos e protagonizando cenas de ação eletrizantes e realistas.
  Vem sendo assim desde o obscuro cult "Following", a estréia de Cristopher nos cinemas em 1998 e que conta a ímpar história de um aspirante a escritor, que seguepessoas pelas ruas observando seus modos de vida, com o intuito de buscar inspiração para seus livros.
 Já em "Amnésia" (Memento) de 2001 (que tornou o cineasta internacionalmente famoso), Nolan constrói uma das narrativas cinematográficas mais audaciosas de todos os tempos, ao editar de marcha-a-ré literalmente e do início ao fim, uma trama noir de assassinato.
  Embora a sua obra seguinte "Insônia" (Insomnia), lançado em 2002 possua um formato mais convencional, ainda consegue arrebatar e perturbar o espectador com uma trama incômoda, além de oferecer interpretações viscerais de todo o cast.
  Com o sucesso estrondoso de "Batman Begins" em 2005, Nolan começou a ganhar carta branca das majors americanas para desenvolver os projetos que quisesse, graças a visão ultraverossímil que imprimiu ao mítico homem-morcego, que neste longa, após inúmeras tentativas fracassadas, conseguiu finalmente levar para as telas toda a insanidade, truculência e realismo das clássicas HQs que Frank Miller e Allan Moore perpetraram nos anos 80.
  Contrariando as expectativas de quem esperava que o cineasta usasse o seu recém-adquirido prestígio em Hollywood, para realizar apenas super-produções milionárias de ação e aventura com retorno financeiro garantido, Cristopher Nolan surpreende mais uma vez com o complicadíssimo "O Grande Truque" (The Prestige), um supense de época sombrio com um roteiro tão intrincado e salpicado com tantas reviravoltas inacreditáveis, que é praticamente impossível digerirn por completo a sua trama assistindo-o apenas uma única vez.  Dois anos depois , com  "O Cavaleiro das Trevas" (The Dark Knight), continuação de "Batman Begins", o cineasta supera mais um desafio, demonstrando que uma continuação pode sim, ser superior (no caso específico de "O Cavaleiro das Tevas", muito superior) que o original. Outra coisa tão rara de se ver no mundo do cinema quanto um "filme de ação inteligente".
  Agora, com "A Origem", Cristopher Nolan atinge o pináculo de sua carreira, com uma obra arrebatadora em praticamente todos os sentidos e que o consaagra definitivamente como um novo mestre da linguagem cinematográfica. Inserindo-o dentro do distinto grupo de cineastas que ainda mantém viva a centelha de criatividade, inteligência e ousadia em Hollywood, que de resto é uma mera indústria de produtos pasteurizados para consumo de massa.
  Agora só nos resta torcer para que nas décadas vindouras, o cinema continue tendo a sorte de ver surgirem cineastas como Cristopher Nolan, Darren Aranofski, David Fincher, etc.
  Em último caso, nem que seja apenas em nossos sonhos.

"Até que um dia conheceu, pela primeira vez,
o verdadeiro dono de um sonho que ele, o Pirata, tinha sonhado."

- O Arco-Íris da Gravidade
- Thomas Pynchon
  
 









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