SlideShow

.
0

MÍDIA SPLATTER: INFORMAÇÃO, SANGUE E SADISMO

 Depois de eu (e todo o planeta Terra) ser massacrado de forma inclemente pelos meios de comunicação sobre o caso "Wellington Menezes De Oliveira", um psicopata (provavavelmente um esquizofrênico),  que perpetrou um genocídio contra um grupo de crianças e jovens no bairro de Realengo na cidade do Rio De Janeiro em 07 de abril deste ano, percebi como algumas obras (neste caso, um filme), são tão intrincadas e visionárias, que só conseguimos digerí-las e compreendê-las em sua totalidade somente muitos anos e muita experiência de vida depois de a termos visto pela primeira vez.
 Os assassinatos de Realento fez com que eu finalmente "acordasse" para as figadais e subversivas mensagens e ensinamentos do clássico maldito "Assassinos Por Natureza" ("Natural Born Killers"), dirigido pelo cineasta e ativista político Oliver Stone.
 "Compreender" não seria exatamente o termo adequado, pois eu havia entendido o recado proposto pela obra de Stone na hora.
 Só que eu havia apenas entendido, mas não experimentado as radicais e assustadoras teorias que o filme atirava na cara do espectador com tanta velocidade e violência quanto a própria narrativa do longa.
  Quando assisti "Assassinos Por Natureza" pela primeira vez, no hoje extinto vídeo-cassete em 1995, o que mais me chamou a atenção neste foi o seu visual agressivamente inovador, transgressivo e original. Tudo filmado com o máximo de rigor e perfeccionismo técnico. Enfim, o mínimo que eu esperaria de uma obra de Oliver Stone, que desde "Platoon" de 1986 é um de meus cineastas de cabeceira.
 Porém em 7 de abril de 2011 eu finalmente senti na pele o que a obra perpetrada por Stone 17 anos antes queria realmente me dizer: que o mundo em que vivemos é um total e completo caos, disfarçado por uma delgada e muito hipócrita camuflagem de "ordem" e "civilidade".
 Na verdade, eu acho que sempre entendi o que o filme realmente "gritava" para meus olhos e ouvidos. Só que era algo tão aterrador e macabro, que eu nunca quis, até bem poucos dias atrás, acreditar, relegando a assustadora veracidade sobre o mundo que me cerca para os cantos mal-iluminados de minha mente.
 É que é preciso ser muito macho e uma pessoa muito madura para saber, que a quase totalidade dos meios de comunicação e principalmente o jornalismo (algo que na teoria deveria ser usado para nos informar e educar) é usado na prática para nos alienar e nos manter nas trevas da ignorância.
 E o pior de tudo é saber que as ferramentas que a mídia usa para nos manipular desta forma é apelando para os nossos instintos mais baixos e animalescos.
 Sabem como as elites dominantes compostas pelos grandes conglomerados industriais,  religiões influentes e poderosas  e déspotas políticos desviam a atenção da plebe de assuntos e questões realmente importantes como um regime político verdadeiramente democrático, uma economia justa e inclusão social? Nos "alimentando" com banhos de sangue, práticas da mais absurda e profunda crueldade e desgraça alheia elevada a milésima potência.
 Isso nos leva a horripilante comprovação de que o filme de Stone estava certo: os milhões de anos de evolução, que separam o novo córtex do pré-histórico complexo-R, não bastaram para enterrar por completo a besta sanguinária que existe dentro de cada um de nós. O cérebro réptil do ser humano ainda nos domina...e muito.
 A maioria das pessoas abomina qualquer espécie de expressão cultural que contenha as palavras "horror", "terror" e "macabro". Taxam qualquer um que goste de filmes e livros de horror e de sonoridades mais agressivas como heavy  metal e rock de louco, psicopata, pervertido, etc.
 Mas essas mesmas pessoas esperam ansiosas para assistirem nos telejornais a noite mais notícias e detalhes bárbaros de crimes passionais repugnantes como o do jogador de futebol Bruno, que após assassinar sua amante Eliza Samudio, jogou os despojos dessa para serem devorados por rottweilers, respeitáveis pais de família, que nunca deixariam os filhos fazerem uma tatuagem ou colocarem um piercing, chafurdam na lama podre do apavorante parricídio da menina de cinco anos Isabela Nardoni, que a imprenssa joga para eles como tratadores jogam lavagem para os porcos, donas de casa que não perdem uma missa aos domingos e que fazem questão que seus filhos façam a primeira comunhão,  escutam religiosamente todos os  dias, programas de rádio apelativos comandados por radialistas demagogos, se deleitando com informações sobre viciados em drogas pesadas, assassinatos em massa, filhos trucidando pais e vice-versa.
 Noventa por cento da população jamais assistiria a um filme como "Canibal Holocausto" (Canibal Holocaust, Itália, 1980) de Ruggero Deodato (outra produção ultra-polêmica e taxada de "apelativa" e "amoralmente violenta", apenas porque também mostra, com as suas fortes imagens, que o homem é o maior lobo do homem), mas discutem com gosto e com um indisfarçável tesão perverso, em qualquer bar de esquina, sobre assassinos seriais e estupradores que aparecem no Jornal Nacional como se estivessem dialogando sobre o mais corriqueiro dos assuntos.
 O resultado de tudo isso é desastroso: como já foi amplamente comprovado por psiquiatras, psicólogos e criminologistas, o que um maníaco assassino mais deseja (além de satisfazer seus desejos mórbidos) é a exposição ao público, escancarar o seu sadismo doentio para o maior número de pessoas possíveis, para que estes possam se chocar ou se deliciar com os seus atos de barbárie macabra.
 Ao franquear para o grande público as atrocidades  de assassinos seriais, a imprensa age como alguém que joga carne fresca em uma savana africana abarrotada de predadores, atiçando outros serial killers e talvez, até mesmo,despertando assassinos latentes, como o adolescente de 14 anos que degolou o seu colega de 15 anos com um estilete na escola municipal de Corrente no estado do Piauí. O jovem matador confessou para a polícia local que havia acompanhado todo o caso dos "Crimes De Realengo" pela tv.
 E assim se forma um círculo vicioso: a violência alimenta a mídia e a mídia alimenta a violência.
 Para limpar a sua barra a imprensa, cínica que só ela, coloca a culpa dos crimes que ela própria ajuda a fomentar, em filmes violentos, games, livros, músicas, etc. Aquela velha baboseira de sempre, que só um junkie terminal de mídia vai acreditar.
 O problema é que existem muitos viciados em mídia por aí...
 Nos últimos anos, com o advento cada vez mais massivo da web e de outras novas e revolucionárias ferramentas de informação, o culto a violência proporcionado pelos meios de comunicação também se tornou globalizado.
 A partir do 11 de setembro, quando as redes de televisão de praticamente o mundo inteiro transmitiram em tempo real a destruição do World Trade Center, compartilhando o horror sentido pelos nova-iorquinos com o resto do planeta, a sede de sangue da população não teve mais fronteiras geográficas.
 Hoje, quando um bebê é devorado por porcos na Índia, as imagens da atrocidade são captadas ao vivo e na hora por telefones celulares "armados" com câmeras e gravadores digitais de alta capacidade e imediatamente postadas no You Tube, podendo então ser acessada por qualquer criança ao redor do globo.
 Dessa forma, a liberdade proporcionada pela convergência das mídias digitais, faz com que a responsabilidade do que deve ou não ir para o ar, não seja mais exclusiva de jornalistas e donos de grandes conglomerados de comunicação, mas sim responsabilidade de todos nós, até do mais comum dos cidadãos.
 E qual o motivo dos meios de comunicação e em especial da imprensa em mostrar tanta desgraça?
 Apenas um: dinheiro.
 No início desta postagem, mencionei que "Assassinos Por Natureza" é considerado um filme tão perturbador, porque nos revela sem nenhuma sutileza, que nosso mundo "civilizado" é na verdade um inferno selvagem, aonde os conceitos de "humanidade", "democracia" e "bondade" são apenas tolas abstrações para enganar os ingênuos e otários.
 A única coisa que evoluiu no ser humano até hoje, foi a sua sede cada vez mais implacável por riquezas e poder a qualquer custo. Toda a inovação tecnológica criada pelo homem que vai inexorávelmente se sofisticando com o passar dos anos é apenas uma consequência, um digamos assim, efeito colateral da ganância assassina cada vez maior do Homo sapiens. O resto como se diz, é resto.
 Ou você não sabia que a gênese da  internet, que muitos usam para escrever recadinhos românticos e colocar fotos de família em redes sociais, está ligado a um programa desenvolvido pelas forças armadas norte-americanas para ser utilizado como meio de comunicação para seus soldados nos campos de batalha? Ou que o próprio computador e a idéia de criar uma inteligência artificial, surgiu da necessidade dos aliados desenvolverm uma máquina capaz de decodificar os códigos secretos que os nazistas trocavam entre si? Também não sabia que os maiores avanços da medicina aconteceram graças as experiências bizarras e doentias que Josef Menguele e companhia realizavam em Auschwitz e em outros campos de concentração?
 O que? Não sabia também que a indústria mais lucrativa do mundo atual (ao lado da petrolífera e da farmacêutica) é a bélica? Afinal porque você acha que sempre existe algúm conflinto sagrento entre nações em algúm lugar do mundo? Que são lutas pela defesa da liberdade ou pelo amor a pátria?
 $$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Esta é e sempre foi a resposta que justifica qualquer ação, seja ela boa ou má ( na maioria das vezes má) perpetrada pela raça humana.
 E é por isso que a nossa própria evolução tecnológica em todoas as áreas, está na maioria das vezes, atrelada a guerras, massacres e maldades.
 No fundo tudo acaba envolvendo dinheiro. Tudo é negócio.
 E é óbvio que a mídia e a imprensa, por mais que seus defensores boçais digam que não, também não acabem passando disso: negócios.
 Porque a Rede Globo e a CNN e o You Tube continuam mostrando ou permitindo mostrar todos os dias , os atos de barbárie mais impensáveis que ocorrem ao redor do planeta?
 Pelo mesmo motivo que o conflito no oriente médio não acaba nunca: dinheiro, negócios. Por que sangue, guerras, mortes e massacres são negócios muito, mas muito lucrativos.
 E não se iluda, pensando que a evolução intelectual do homem vai resolver a coisa, o ser humano pode ter um computador de última geração inteiro implantado cirurgicamente dentro de seu cérebro, que no fundo vai continuar agindo como um animal predador. E muito provavelmente quando a raça humana (se não se auto-destruir antes) conseguir finalmente alcançar as estrelas, vai arrastar consigo todas as suas mazelas, escravizando e contaminando as civilizações de outros mundos, da mesma forma que os europeus fizeram com as américas na época dos grandes descobrimentos.
 Por que como disse Oliver Stone em uma entrevista: "A violência é uma indústria, o medo é uma indústria".
0

Um Rato Da Pixar Em Paris

 No início dos anos 80, George Lucas criou uma nova empresa especializada em tecnologia  cinematográfica de ponta, a "Graphics Group", criada inicialmente para trabalhar em conjunto com a então novata "Industrial Light And Magic" na elaboração de efeitos visuais, principalmente na área de computação gráfica, algo que na época estava a recém dando os seus primeiros passos.
 Em 1986 Lucas vende a "Graphics..." (agora rebatizada de "Pixar") para a " Apple Computers Inc" do mestre geek Steve Jobs, que viria a se tornar uma das maiores fabricantes mundiais de software e computadores pessoais do mundo (e uma das maiores dores de cabeça para a Microsoft e para o ex-parceiro de negócios de Jobs, Bill Gates).
 Final da história:se George Lucas soubesse no que a "Pixar" se tranformaria nos anos vindouros, preferiria ter arrancado um de seus rins com as próprias mãos do que te-lá vendido para Jobs.
 Atualmente uma das mais revolucionárias e lucrativas potências tecnológicas do cinema, ao lado da "IL&M", Weta Digital e Sony Pictures Imageworks, a "Pixar" entrou para a história quando assinou um contrato de distribuição com a "Walt Disney Pictures" e lançou nos cinemas em 1995 "Toy Story", o primeiro longa metragem de animação concebido 100% em computação gráfica.
 De lá para cá, a "Pixar" vem empurrando e levando a animação digital a novas fronteiras e patamares cada vez mais ousados e inacreditáveis, empilhando prêmio atrás de prêmio  e recebendo tantos elogios rasgados da crítica especializada que já daria para escrever uma enciclopédia só com eles.
 Um dos tiros mais certeiros da Pixar foi a contratação de Brad Bird, um ex-animador dos "Simpsons" para o seu cast de talentosos diretores de animação.
 No seu primeiro trabalho para o estúdio "Os Incríveis" (The Incredibles, 2004) (que é ao lado da trilogia "Toy Story" o longa mais espetacular da "Pixar"), Bird uniu de forma lacônica e absoluta o estilo familiar da Disney/Pixar com o cinismo e ironia inteligentes e influências pop que aprendeu em sua experiência como diretor do seriado de Matt Groening.
 Em 2006, temendo perder a Pixar, que estava querendo assinar contrato de distribuição com outro estúdio para poder ter uma maior autonomia sobre as suas obras, a Disney comprou a empresa da Apple por US$ 7,4 bilhões.
 Já respirando aliviada por não ter perdido a sua "galinha dos ovos de ouro", a  Disney resolveu comemorar chamando novamente o genial Brad Bird para inaugurar esta nova fase da Pixar.
 Bird, para não se repetir, troca o estilo "épico de ação montanha-russa" de "Os Íncriveis", por uma história e um clima mais intimistas e poéticos em "Ratatouille" (2007).
 Os ratos, geralmente assossiados a sujeira, podridão, doenças e ao macabro (até mesmo em filmes e desenhos animados infantis, este mamífero roedor , na melhor das hipóteses é retratado quase sempre como um personagem bagunceiro e malandro), encontram a sua redenção em "Ratatouille", que tem como protagonista um camundongo surpreendentemente culto, sofisticado e com um grande talento para as artes culinárias.
 "Ratatoille" é uma obra de animação belíssima tanto em termos visuais, quanto de roteiro e elaboração de personagens, com momentos de pura poesia visual que, como nos filmes de Charles Chaplin, nos encantam e nos fazem rir ao mesmo tempo.
 Posso estar errado, mas arrisco em dizer que esta é a produção da Pixar que possui os cenários e ambientes mais rebuscados e realistas dentre todos os outros longas do estúdio.
 A equipe de produção viajou até Paris (cenário permanente do filme) e pesquisou minuciosamente todos os aspectos arquitetônicos da Cidade Das Luzes para reproduzí-los a perfeição nos computadores da Pixar.
 O resultado é um perfeccionismo que chega a ser assombroso: várias vezes temos a impressão de estarmos vendo personagens digitais estilizados passeando por ruas, avenidas e atravessando pontes parisienses de verdade, como se houvessem mixado desenho animado com locações reais.
 Esta obsessão com o crível em "Ratatouille" se faz notar ainda mais nas "tomadas" noturnas e sinistras, pois a exemplo das produções infanto-juvenis do "doutor" dos animes Hayao Miyazaki, "Ratatouille" possui momentos sombrios e melancólicos. E como nos demais títulos da Pixar, este também trata de temas intrincados e de grande profundidade dramatica com leveza e bom humor, nunca deslizando para o piegas ou para o sentimentalóide. Esse é o principal motivo que faz com que as animações da Pixar tenha fãs igualmente fervorosos tanto entre o público infantil, quanto entre os adultos.
 O camundongo de "Ratatoille" (apelidado no filme de "Pequeno Mestre") pode entrar para a galeria de ratos famosos das telas grandes e pequenas como Jerry, Pepe Legal e Mickey Mouse . Aliás, Pequeno Mestre, é ao lado deste último, o  rato mais "humano" e cativante do cinema.
 Após Ratatouille a Disney/Pixar continuou dando a luz  a novos clássicos da animação digital ("Wall-E", "Up", "Toy Story 3"), agora com o poderoso aditivo da exibição em formato 3-D.
 Com o avanço e a sofisticação cada vez maior da computação gráfica,com mundos e personagens digitais cada vez mais inacreditavelmente realistas como foi visto recentemente em "Avatar", a Pixar pode vir a se tornar um dos estúdios cinematográficos  mais poderosos e influentes do mundo. A recente compra da Marvel pela Disney, fez com que alguns críticos especulassem o que aconteceria se a Pixar resolvesse produzir uma animação com os personagens da "Casa Das Idéias". Seria o passo decisivo para o ex-estúdio de George Lucas e Steve Jobs entrar de vez no terreno das animações adultas.
 Por enquanto tudo isso não passa de especulações e boatos, mas com certeza o futuro promete. Quem viver verá.
0

Longa Vida Aos Mortos...

 Quantas pessoas você conhece que gostam, ou melhor, que são fãs apaixonados por filmes de horror? Poucos com certeza, muito provavelmente você mesmo que está lendo esta matéria e tentando responder a esta minha pergunta deteste filmes de horror. Beleza, sem problemas, afinal você é como a maioria das outras pessoas que curtem as coisas belas da vida: dias ensolarados, praias paradísicas, baladas cheias de gente bonita, felicidade, reuniões em família, etc e não degradações humanas, montruosidades, sangue, cemitérios, dark side, essas coisas. Claro, você se considera um cara normal, que quer se integrar a sociedade, casar, ter filhos, etc. Você não é um sádico maluco que quer que o povo pense que você curte sair por aí retalhando os outros ok? Confere?
  Se você, caro leitor, se enquadra na descrição que eu citei acima (e as chances disso acontecer são enormes) não precisa pensar que eu estou sendo cínico ou debochando de você. Você está certo em pensar e agir desta forma, você é como a maioria das pessoas. Eu e os outros fanáticos por sangue e horror é que estamos errados, pois somos a minoria. Você não concorda comigo?
 De qualquer forma eu não estou aqui para discutir gostos e aptidões, apenas redigi este texto acima para que você tivesse uma idéia de como é alto o grau de marginalidade e polêmica que envolve os filmes de horror.
 Agora imagine  o quão grande é a situação de pária dos filmes sobre mortos-vivos, um sub-gênero que é considerado radical demais até mesmo para alguns fãs de horror e que estão associados a alguns dos momentos mais nauseantes, depravados e ultrajantes do cinema mundial de todos os tempos.
 E  este é justamente o cerne, o coração moribundo do livro "Zumbis, O Livro Dos Mortos" de Jamie Russel editado no Brasil pela Barba Negra/Leya.
 Mostrar que o zumbi é o monstro mais punk, marginalizado e subestimado da cultura pop e que justamente por isso as várias qualidades intrínsecas que estão presentes em muitos filmes sobre mortos-vivos são ignoradas e desconhecidas pela maioria do público e da crítica.
 Usando uma linguagem e um conhecimento eruditos, Jamie Russel retrocede no tempo até o século XIX, para explicar a origem do mito zumbi/morto-vivo no mundo ocidental que se deu por meio de um antropólogo e jornalista grego  radicalizado nos Estados Unidos  chamado Lafcádio Hearn, que, fascinado pelas pesquisas sobre folclore que realizou na ilha da Martinica, resolveu passar os seus conhecimentos para o grande público através de um artigo publicado na "Harper Magazine" em 1889.
 Entre os vários personagens e aspectos da mitologia da região caribenha destacados no artigo por Hearn estava o dos corps cadavres (corpos que andam), um mito que apavorava os moradores da ilha.
  A partir daí os zumbis ficaram cravados para sempre no coração e nos pesadelos da moderna sociedade ocidental  como uma estaca no coração de um vampiro.
 O autor prossegue a sua apaixonante narrativa discutindo sobre a gênese do primeiro filme de zumbi da história, "Zumbi Branco" (White Zombie), lançado em 1932 e baseado em uma peça de teatro.
 Conforme se vai avançando nas entranhas do "Livro dos Mortos", o leitor mergulha cada vez mais fundo no mar sem fim de sangue e carne putrefata que é a história dos filmes de zumbis que Russel vai narrando nos mínimos detalhes e em ordem cronológica, sempre ressaltando os saltos evolutivos mais relevantes do "cinema morto-vivo", como os filmes de George Romero ( o pai dos zumbis modernos), cujos filmes misturam de maneira única fantasia negra e gore/splatter com inquietações políticas, filosóficas e históricas.
 O autor também (como não poderia deixar de ser), dedica um capítulo inteiro do livro aos revolucionários filmes de zumbis italianos (com destaque para a obra do genial cineasta Lúcio Fúlci).   Fortemente influenciados pelo ciclo (também italiano) de filmes sobre canibalismo, os zumbis giallos se tornaram muito mais violentos, grotescos e famintos por carne humana do que os seus "vizinhos de sepultura" do cinema americano e influenciando explicitamente grandes diretores de cinema fantástico como o canadense David Cronenberg.
 Mas o livro não fica só nos jumbies (zumbis em caribenho, uma das muitas palavras- raízes do termo) mais conhecidos como os americanos e os italianos, traçando um painel gigantesco do cinema morto-vivo ao redor do mundo: das obscuras e praticamente desconhecidas produções africanas aos elogiados e recentes filmes de zumbi alemães como o ultracelerado "Premutos" (considerado um dos filmes mais violentos e ofensivos de todos os tempos) e também abordando a mistura do gênero com outros estilos como o "o filme de zumbi kung-fu", comum em países asiáticos e que vem ocorrendo com frequência desde as assíduas fusões entre os estúdios Hammer e Shaw Brothers nas décadas de 1960/1970 e a criatividade delirante e selvagem dos "splatstick", produções que misturam horror extremo com humor, geralmente "estrelados" por zumbis e cujo pináculo são  os filmes da série "The Evil Dead" e o neo-zelandês "Fome Animal" (Brain Dead).
 Também não poderia ficar de fora deste livro a impressionte transposição, cada vez maior, dos mortos-vivos do cinema independente e underground para o mainstream hollywoodiano ( cujo estopim foi a recente popularização de games sobre zumbis como "Resident Evil" e suas inevitáveis adaptações cinematográficas) em produções cada vez mais sofisticadas e técnicamente apuradas.
 E como os filmes de zumbi estão fortemente conectados aos efeitos especiais, vários especialistas e "doutores" desta área também são esmiuçados no texto de Russel: dos pioneiros Carl Axcelle e Jack Pierce aos inovadores Tom Savini e Giannetto Di Rossi, do ultra-detalhista Greg Nicotero ( um dos maiores criadores de monstros do cinema da atualidade) aos zumbis de alta tecnologia da Industrial Light And Magic e Weta Digital, em "Piratas do Caribe" e "O Retorno Do Rei", respectivamente.
 Deve-se destacar também o capítulo do livro que aborda os zumbis do mundo real, que na verdade são pessoas que de alguma forma tiveram os seus corpos "infectados" por um veneno chamado tetrodoxina, oriundo de um peixe chamado baiacu ( que é um prato comum e muito apreciado na culinária japonesa). Quando administrado no organismo a tetrodoxina causa no indivíduo um estado de paralisia tão intenso, que até os batimentos cardíacos são muito difíceis de serem detectados mesmo por médicos experientes. A pessoa então é dada como morta, porém na realidade, está completamente desperta e plenamente consciente do que está acontecendo ao seu redor. Envenenar pessoas com a tetrodoxina é prática comum no Haiti (um dos países dos quais se originou a lenda dos mortos-vivos) e geralmente está ligada a questões de desavenças políticas e rixas familiares, (para se aprofundar mais neste fascinante assunto recomendo o fantástico romance "A Serpente E O Arco-Íris" escrito pelo antropólogo e botânico Wade Davis). Ao abordar esta questão, era inevitável que Russel também comentasse sobre os exploradores que tiveram o sangue-frio de desbravar o lado obscuro, místico e secreto da socieddade haitiana como o aventureiro depravado e empírico William Seabrook e o ultra-cético e científico Wade Davis.
 Para completar, o texto é enriquecido com várias e maravilhosas fotos (em cores e em P&B) de diversos filmes clássicos e cultuados do universo zumbi e no final há uma lista com nada menos do que 326 filmes do gênero, cuidadosamente divididos em "lançados e não lançados" no mercado de home-vídeo brasileiro e uma relação de 136 livros que abordam mortos-vivos (reais ou não), infelizmente pouquíssimas destas publicações foram editadas no Brasil.
 A lamentar, apenas o capítulo final deste livro. Como este foi lançado no exterior em 2005 e no Brasil somente em 2010, era inevitável que algumas produções cinematográficas do gênero maias recentes ficassem de fora. Para sanar este problema, os editores da versão brasileira resolveram deixar a obra mais atual por conta própria.
 A atualização foi feita e redigida por Antônio Tibau, que até fez um trabalho bem abrangente em termos de pesquisa. O problema é que Tibau não parece ter o mesmo tipo de amor incondicional de Russel, nem por zumbis, nem pelo gênero horror. E o pior de tudo: escreve muito mal.
 Como resultado disso temos, ao invés da escrita culta e fascinante de Russel, uma tosca imitação do estilo "pop subversivo" que André Barcinski, André Forrastieri e Alex Antunes costumam aplicar em seus textos, só que com menos de um terço da energia que esses três grandes e inovadores jornalistas brasileiros costumam empregar em suas prosas.
 Felizmente este pequeno lapso de qualidade é muito pouco para diminuir o brilho desta obra épica, que nos mostra que apesar de o morto-vivo ser o monstro mais subestimado, "pobre" e marginalizado do cinema de horror, paradoxalmente são os filmes protagonizados por zumbis que mais refletem os medos, turbulências e terrores que vem assolando a complexa sociedade humana através dos anos.
 OS MORTOS ESTÃO VIVOS! LONGA VIDA AOS MORTOS...
0

O CINEMA INDOMÁVEL DE MARTIN SCORSESE

 CINEMA EM ESTADO PURO E BRUTO!
 Acredito que não exista outra forma de se iniciar qualquer crítica sobre o clássico veemente de Martin Scorsese, Touro Indomável (Raging Bull, EUA, 1980), do que a frase acima.
 Já disseram que os artistas desovam as suas melhores obras quando estão frustrados, desesperados, coléricos, no limite...
 Talvez seja por estes, ou por algum outro motivo ainda além da comprenssão humana, que Scorsese presenteou os cinéfilos com algo tão profundo, rico, belo e horripilante quanto a própria vida como Raging Bull.
 O cineasta havia decidido que Raging Bull seria o seu canto de cisne, por motivos que este que vos escreve ainda não conseguiu entender claramente. Scorsese nasceu no lado podre e selvagem da maior cidade do mundo, Nova Iorque, aonde a única forma de salvação dos menos favorecidos para escapar de um mundo dominado por assassinos, marginais e policiais corruptos era se entregando a um catolicismo fervoroso e a proteção das igrejas. Scorsese, porém, nunca se decidiu entre a adrenalina, o poder e os prazeres profanos oriundos do mundo do crime ou pela redenção, pureza espiritual, contemplação e, também, o poder proporcionado pela igreja católica.
 Talvez, para não sucumbir a nenhum destes dois lados, Marty acabou se tornando um diretor de cinema. Assim o seu corpo físico estaria livre do dilema entre escolher entre o céu e o inferno. Contudo a alma de Scorsese seguiu fascinada e dilacerada tanto pelo sagrado, quanto pelo profano.
 Como se isso ainda não bastasse, a juventude de Scorsese e a sua escolha profissional transcorreram durante um dos períodos mais sediciosos e ambíguos da história norte-americana, os anos 1960 e começo dos 1970, período marcado a ferro e fogo na alma do povo americano por guerras, contradições e revoluções de todos os tipos, uma época em que o próprio Estados Unidos viveram bifurcado entre o céu e o inferno. Para completar, Scorsese (como vários de sua geração) se tornou um adepto de drogas pesadas.
  Creio que tenha sido o caldeirão na mente de Scorsese aonde tudo isso ferveu que o fez querer implodir a sua carreira e que também tenha sido neste mesmo caldeirão que ele deu vida a Touro Indomável.
  Um dos grandes clássicos do cinema norte-americano de todos os tempos, Touro Indomável costuma se revezar com o seminal cult cyberpunk, Blade Runner, de Ridley Scott, nos topos das listas dos melhores filmes da década de 1980.
  Com base na fascinante e tempestuosa trajetória do boxeador nova-iorquino Jake La Motta narrada pelo próprio (em parceria com Joseph Carter e Peter Savage) em um romance autobiográfico, Scorsese transporta para o universo explosivo e sangrento dos ringues de boxe toda a complexidade dos dramas shakesperianos, dissecando sem nenhuma sutileza toda a paixão, força, violência e desgraça que são imanentes a todos nós, pobres seres humanos e que podem tanto nos levarem para o topo da glória, quanto para, no instante seguinte, nos jogarem nos abismos da degradação humana.
 A exemplo dos personagens de Hemingway --- homens fortes,  rudes e implacáveis, mas com as almas feitas em frangalhos pelas vicissitudes humanas ---, La Motta é um guerreiro frio e calculista, um bárbaro urbano cuja armadura de truculência esconde toda a sua carência afetiva e dificuldade em se relacionar com o mundo e as pessoas a sua volta. Um homem que espezinha sadicamente o irmão que o idolatra justamente porque não consegue demostrar de forma altruísta o quanto o ama e necessita deste. Um marido que de tão faminto pelo amor de sua esposa, desenvolve por esta um ciúme brutal e possessivo que beira a psicopatia, que esmurra a amada com a mesma força dos socos que desfere em seus adversários no ringue para, logo em seguida, se ajoelhar aos pés desta como uma criança desesperada implorando por perdão, por compreensão, demonstrando que no fundo o  mais ferido e vitimado pelas suas explosões de violência não são o seu irmão e a sua esposa, mas ele próprio. Desta forma La Motta explicita, não apenas a sua, mas a fragilidade de quase todos os homens (pois Ranging Bull é um filme essencialmente masculino, porém nunca machista) que se escamoteia por detrás  de quilos de músculos imbatíveis e ossos inquebráveis.
 São estas metáforas amargas e extremamente abrangentes que tornam Raging Bull um filme não sobre boxe e pugilistas, mas um filme sobre a própria vida, sobre pessoas comuns como eu e você.
 Como os mais célebres exemplos tanto do cinema quanto da literatura, Raging Bull é uma obra de caráter universal.
   Jake La Motta nos mostra que as nossas próprias vidas são ringues de boxe, arenas de gladiadores cuja  batalha é diária e incessante, aonde um único movimento em falso, um único golpe desferido ou sofrido podem afastar para sempre de nós as pessoas e aquilo que mais amamos e cobiçamos, nos marcando com cicatrizes profundas que carregaremos para o resto de nossa existência e fazendo a diferença entre a vida e a morte.
 Como de praxe, Martin Scorsese transforma este épico mundano em um espetáculo visual atordoante, uma explosão de som e fúria para deixar cinéfilo babando, se perguntando embasbacado: " Como foi que o Scorsese conseguiu fazer aquilo"?
 A começar pela própria abertura do filme, com o personagem de De Niro ensaiando movimentos de boxe que se assemelham a um balé em um ringue vazio e esfumaçado com flashes de máquinas fotográficas explodindo ao fundo através da lente de uma câmera ultra-lenta em uma película preto & branco e ao som da melancólica e belíssima trilha do ex-roqueiro Robbie Robertson. É realmente de provocar arrepios.
 Aliás, quase todo o longa foi rodado em P&B com uma fotografia que parece ter sido levemente envelhecida, talvez para passar a sensação de que o filme não apenas "se passasse" na década de 40, mas que houvesse realmente sido realizado nesta época.
 Apesar de não ser classificado como um filme noir ou neo-noir como outras duas produções de Scorsese, A Ilha do Medo e Táxi Driver, a película P&B, a ambientação nos anos 1940, os cenários esfumaçados e decadente, o forte contraste entre luz e sombra de algumas sequências e a ambiguidade radical dos personagens fazem de Raging Bull um legítimo produto hard-boiled.
 A direção de arte noir, aliás, com arquiteturas externas e internas de prédios, casas, boates, ringues de boxe e bares decadentes típicos da década de Phillip Marlowe é tão obsessivamente detalhada que as vezes parece que estamos olhando para uma pintura em um quadro e não para algo físico.
 Já as sequência de luta são um show a parte e somente elas já dariam um filmaço. As câmeras de Scorsese e do fotógrafo Michael Chapman acompanham todos os movimentos dos boxeadores dentro do ringue como se fossem suas próprias sombras com tomadas e cortes  exatos e pontos de vista que ficam mudando incessantemente de um lutador para o outro. A violência em câmera lenta, com close-ups extremos do sangue jorrando de feridas abertas, provocam incômodo até no mais durão dos espectadores.
 O filme recebeu oito indicações para o Oscar e venceu duas: uma de melhor ator para De Niro (em um  dos prêmios da categoria mais merecidos de todos os tempos) e outra para a edição (precisa como um relógio suíço) de Thema Shoonmaker (esposa do grande e falecido cineasta Michael Powell).
  Raging Bull é um daqueles filmes que mudam a vida da gente para sempre, nos maravilhando e nos fazendo refletir. E é principalmente um daqueles filmes que fazem com que o cinema seja realmente reconhecido como a sétima arte.
0

LUZ & SOMBRA

"Aquele que de entre vós está sem pecado, seja o primeiro que atire pedra contra ela".
-Evangelho de São João, cap. 8 (vs. 1.11)

"Eu vejo um homem adquirindo uma mulher a venda, sim a venda
 Tento achar a resposta , porque ele compra a mulher  e não conquista
Oh mulheres imundas vocês nunca ficam sozinhas".
 Este trecho da celerada e sexista, porém desoladamente realista canção "Dirty Women" da ancestral banda de heavy metal "Black Sabbath", resume dos pés a cabeça tanto as vidas das garotas de programa em geral, quanto a da protagonista (baseada em uma pessoa real) do filme "Bruna Surfistinha" (Brasil, 2011).
 O resumo de uma vida feita de  ambiguidades radicais, aonde amor, ódio, prazer, repulsa, riqueza e miséria andam de mãos dadas, se misturam, escamoteiam-se uns aos outros. Uma vida e um mundo em que se é ao mesmo tempo esfuziantemente popular e devastadoramente solitário, uma pessoa que se divide entre o oito e o oitenta o tudo e o nada.
 A uma primeira vista o filme "Bruna Surfistinha" parece ser apenas um filme sensual e provocante (que é como ele foi vendido), unicamente destinado a excitar o público masculino e servir como instrumento para um dos maiores símbolos sexuais brasileiros (a atriz Déborah Secco) destilar ainda mais o seu poderoso sex-appel.
 Porém, basta um olhar um pouco mais aguçado (no caso dos homens, isso quer dizer assisitir ao filme com a "cabeça de cima" e não com "a de baixo") e o espectador se verá cara-a-cara com um drama extremamente pesado e pungente, que tem pouco de sensual e excitante e muito de triste e amargo.
  O diretor Marcus Baldine (mais um cineasta nacional para se ficar de olho) construiu no filme uma falsa narrativa luminosa e sexy, que serve apenas como camuflagem para uma história soturna.

 
  Livre dos grilhões da teledramturgia brasileira (uma verdadeira usina de preguiça mental, aonde os atores parecem sempre representar a mesma caricatura), Deborah Secco dá o sangue para interpretar o verdadeiro turbilhão de emoções pelo qual passa o seu personagem, dominando com igual desenvoltura todos os aspectos da personalidade da figura dramática, que vão se alterando bruscamente durante o desnrolar do filme: de adolesente tímida a filha rebelde, de prostituta iniciante a piranha devoradora de homens.
  Essa alteração alucinante de nuances dramáticas  pelo qual passa a protagonista é também imitado pela própria estrutura do longa que vai do singelo ao brutal, do drama ao cômico e do bizarro as lágrimas mais veloz do que uma ejaculação precoce.
 As caracterizações dos demais personagens (a maioria também prostitutas e outras categorias de outsiders) correm cabeça-a-cabeça com a complexa interpretação de Déborah Secco, principalmente a da comediante Drica Moraes no papel de uma virulenta e ríspida cafetina, que comanda o seu bordel com mão de ferro. Todas os trejeitos, modos, gírias e dramas particulares típicos das garotas de programa também são retratados e revelados no filme   com desconcertante realismo, o que evidencia a apurada pesquisa que os realizadores  do longa devem ter feito no mundo (e no submundo) da prostituição.
 O desenho de produção também  mostra com extrema fidelidade e detalhamento, todos os ambientes barra-pesada que servem de cenário para o filme desde o prostíbulo vagabundo aonde a protagonista inicia a sua carreira de "vida fácil", passando pelo suntuoso apartamento em sua fase de acompanhante de luxo sedenta por fama e riqueza, chegando até ao repugnante inferninho, aonde Bruna despenca em sua decadência quando se torna uma cocainômana inveterada.
 Resumindo: "Bruna Surfistinha" é um filme que segue o  mesmo padrão de qualidade da maioria das produções nacionais desde a retomada: direção criativa, elenco afiado, texto bem escrito e uma ousadia visual digna de cinema de primeiro mundo.
 Outro aspecto legal desta obra é a sua trilha sonora,  ao invés de, como na maioria dos filmes brasileiros recentes com temática urbana agressiva, ter uma trilha sonora entupida com hip-hops enjoativos e insuportáveis funks, "Bruna Surfistinha" apresenta uma trilha quase que predominantemente "rocker", aonde  bandas clássicas do gênero como "The Zombies" e "Rolling Stones" se alternam com outras mais recentes: (Holger, Radiohead, etc).
  O filme também parece querer subliminarmente ( ou talvez até inconscientemente) comentar o impacto radical que as novas tecnologias de informação podem provocar nas vidas de pessoas comuns nestes tempos de "Wikileaks" e de quando "simples" sites de relacionamentos provocam insurreições e derrubam governos por todo o oriente médio, tempos em que um simples toque em um teclado de computador pode transformar radicalmente uma vida, tanto para o bem, quanto para o mal.
 A personagem principal de "Bruna Surfistinha" é baseado no livro autobiográfico "O Doce Veneno Do Escorpião" escrito pela ex-garota de programa e ex-atriz pornô Raquel Pacheco, que se tornou uma celebridade nacional, digna de atrizes globais, ao começar a postar em seu blog as suas experiências sexuais com seus clientes.
  E são os desbafos da protagonista em seu cyberdiário (aonde escancara todas as parafilias e hipocrisias de seus clientes, compostos em sua grande maioria, por respeitáveis homens de negócios) que costuram, de forma inventiva, praticamente todas as cenas do filme.
   A sequência  final de "Bruna Surfistinha" é de uma interatividade impressionante com o espectador, que se assistiu ao filme com um mínimo de atenção perceberá que acabou de ver não uma história sexy sobre uma mulher vulgar, mas sim uma saga sobre amizade, tristeza, amor e superação, protagonizada por uma mulher decidida que teve a coragem de penetrar na entrada do túnel abissal do lado escuro da alma humana (a sua própria e a de  alheios) e emergir do outro lado viva e ainda mais forte do que antes.
0

The Machine Girl + Tóquio Gore Police=Escatologia Pouca É Bobagem




 Certa vez o maior gênio da sétima arte nipônica, Akira Kurosawa, reclamou que o cinema japonês era lento demais, parado demais.
 Bem, o falecido mestre Kurosawa não teira do que reclamar, pelo menos em termos de ritmo, de "The Machine Girl (Kataude Mashin Garu/Japão, 2008) de Noburu Iguchi e de "Tóquio Gore Police" (Japão, 2008) de Yoshihiro Nishimura.
 Exemplares máximos e recentes do cinema de horror japonês (considerado o mais arrojado, radical e inovador da atualidade), os filmes de Iguchi e de Nishimura respectivamente, são duas das obras mais delirantes, desenfreadas, criativas e intensas do cinema fantástico dos últimos anos. Tanto em termos de visual quanto de narrativa.
 "The Machine Girl" de Iguchi, conta a história de uma estudante adolescente meiga e pacata, mas que se transforma em uma máquina de guerra viva quando seu irmão é assassinado pelo filho de um chefão da yakuza.
  A partir daí o filme alucina completamente como se fosse uma locomotiva desgovernada, injetando litros de adrenalina nas veias do espectador e fazendo uma festa para os olhos de fãs de horror escatológico, filmes de artes marciais, humor dark e cenas de ação radicais.
 Falar mais estraga, basta dizer que o filme tem referências a "The Evil Dead" e a "Planet Terror", ao mesmo tempo em que supera a ousadia visual destes dois.
 "The Machine Girl" não deve ser assistido como a um filme convencional e sim como a um "desenho animado feito com atores de carne e osso" ou como a uma "história em quadrinhos viva". Igual aqueles animes e mangás estilizadíssimos, em que as tramas desrespeitam completamente as leis da lógica e da física em nome do impacto visual. Onde os personagens levitam em pleno ar enquanto se degladiam em lutas marciais de golpes precisos que se assemelham aos movimentos de um complexo balé ultracoreografado, das armas gigantescas de design barroco, das metralhadoras que disparam rios de balas e dos corpos desmembrados que jorram oceanos de sangue.
 Seguindo a mesma linha anime/HQ live-action de "The Machine Girl", está "Tóquio Gore Police". E se existe um filme capaz de superar "The Machine Girl"em todos os quesitos citados até agora, é este.
 Dirigido por Yoshihiro Nishimura, que havia trabalhado como técnico de efeitos especiais de "The Machine Girl", "Tóquio Gore Police" é paulada pura, que não deixa o espectador respirar do primeiro ao último minuto de exibição.
 Remake de "Anatomia Extinction" do próprio Nishimura e vencedor do prêmio de melhor filme asiático no "Fant-asia Film Festival", "Tóquio Gore..." é um híbrido de horror grand-guignol com ficção-científica hardcore (lembrando muito os primeiros filmes de David Cronenberg).
 O filme já começa a mil com um "Letherface turbinado" devorando as entranhas de um cadáver estripado e detonando um grupo de tiras em uma Tóquio futurista e decadente, que fervilha com uma violência incontrolável, onde soldados sanguinários e sádicos de uma polícia, que agora pertence a iniciativa privada, se dilaceram com mutantes homicidas e enlouquecidos alterados pela engenharia genética.
 O capitalismo e a mídia, cada vez mais oportunistas, sensacionalistas e famintos por lucro, se aproveitam da situação infernal, bombardeando os meios de comunicação com produtos de consumo de massa que incentivam as práticas da violência e do suicídio e com noticiários virulentos para saciar a sede de sangue cada vez maior da população.
 Nesse cenário caótico e desolador vaga Luca, uma policial-samurai exterminadora de mutantes, envolvida em uma investigação particular para exorcizar os demônios de seu passado.
 Entre as várias cenas inesquecíveis que devem entrar para a galeria das mais antológicas dos filmes fantásticos e do cinema maldito, destacam-se: a da carcaça humana feminina viva que urina nos rostos dos frequentadores de uma boate bizarra, o duelo entre Luca e uma mutante-ciborgue-sadomasô, que possui lâminas afiadas no lugar de pernas e braços, uma prostituta que leva o termo "vagina dentata" as últimas consequências e o sangue que esguicha sem parar dos cotos dos braços amputados de um incauto (que ousou tocar nas nádegas de Luca), formando uma chuva de hemoglobia ao redor de si mesmo.
 Tudo isso é mostrado com uma edição de imagens estilosa, dinâmica, clipada, tornando as cenas de terror, ação e violência ainda mais furiosas e pontuada por uma trilha sonora heavy metal, repleta de guitarras saturadas e beats pesados de bateria.
 Mas o mais legal em produções como "The Machine Girl" e "Tóquio Gore Police" é a total ausência de ética e de bom mocismo. Não há nem uma gota do moralismo babaca da maioria dos filmes ocidentais.
 Aqui não existe "o mocinho" e "o bandido", existe apenas o "menos cruel". É horror splatterpunk na veia:sujo, direto, mal-comportado, subversivo e perturbador, embrulhado com a estética de elementos da cultura pop (mangás, animes, vídeo-games, etc).
 Se você tem a mente aberta e o estômago forte vá fundo em "The Machine Girl" e em "Tóquio Gore Police". Caso contrário vá assistir ao Tom Cruise jogando vôlei sem camisa na praia em "Top Gun" na "Sessão da Tarde".
0

Fúria de Titãs: O Remake (O Dia Em Que O Stop-Motion Venceu A Computação Gráfica)