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MÁSCARA DE PELE MORTA

  Das inúmeras obras da cultura pop (livros, filmes, músicas, etc.) que os repugnantes e inesquecíveis crimes cometidos por Edward Gein (1906-1984)---considerado o mais louco serial killer norte-americano de todos os tempos---inspiraram, a sem dúvida mais célebre, bizarra e realista de todas é O Massacre da Serra Elétrica ( The Texas Chainsaw Massacre/ EUA, 1974) produção exploitation perpetrada pelo diretor Tobe Hopper.
 Neste imortal clássico do cinema apelativo a imaginação degenerada de Hopper multiplica Ed Gein em quatro personagens que competem entre si para verem qual atinge os graus mais elevados de brutalidade, depravação e perversidade.
 Trocando o estado do Winsconsin---aonde Gein praticou as suas atrocidades---pelos sertões desolados do Texas, Hopper joga um grupo de jovens alegres e barulhentos---que parecem serem o prato principal dos maníacos do cinema americano---em um deserto de autoestradas abandonadas repletas de carcaças apodrecidas de animais atropelados e margeadas por espeluncas sinistras ocupadas por caipiras com cara de tarados.
 Usando como chamariz a falsa afirmação de que os sórdidos atos de malignidade absoluta exercidos pelos bizarros vilões do filme foram baseados em um caso verídico---uma tática que o cineasta italiano Ruggero Deodato levaria as últimas consequências seis anos depois em Canibal Holocaust (Itália, 1980)---aliada a um estilo de filmagem cru e documental, possibilitou aos realizadores de O Massacre da Serra Elétrica promoverem uma verdadeira orgia sádica de horror visceral e pisicológico comparável ao de Psicose (EUA,1960).
 A tortura---ou alegria---do espectador já começa nos primeiros minutos de filme com uma áspera demonstração de masoquismo insano.
 A partir de então os personagens vão arrastando os espectadores para um fosso cada vez mais profundo e negro de violência e loucura sem limites, explodindo em um clímax que é um verdadeiro Inferno na Terra.
 Até o mais ínfimo dos detalhes, neste filme de Hopper,  parece ter sido meticulosamente planejado para parecer e soar macabro até a raiz. Desde as locações, cenários, sonoplastia, diálogos, monólogos--- várias cenas são pontuadas pelas vozes de DJs narrando em rádios notícias e descrições explícitas de guerras, acidentes e massacres, sugerindo subliminarmente que todo o horror que presenciamos nas imagens do filme nada mais é do que um reflexo do turbulento mundo em que vivemos---e personagens asquerosamente doentios. De toda a galeria de psicopatas monstruosos do filme, sem dúvida, o mais animalesco, indigesto e célebre é o hórrido e desenfreadamente atroz Letherface.  Personagem mítico do cinema de horror, Cara de Couro --- com seu físico avantajado, modos sempre truculentos, avental de açougueiro perpetuamente ensanguentado e a face decorada por rostos humanos escalpelados --- é uma verdadeira fábrica de provocar  pesadelos e repulsa em espectadores mais sensíveis.
 Como era de se esperar, com O Massacre da Serra Elétrica, o diretor Tobe Hopper provocou um grande frenesi e uma revolução no cinema fantástico, e, como acontece com todos os diretores talentosos de filmes de horror, Hopper se tornou um cineasta maldito simultaneamente amado pelos fãs e odiado por seus detratores.
 No início dos anos 1980 o então já mega-famoso e poderoso Steven Spielberg resolveu fazer uma experiência radical e, a princípio, inconcebível, unir o estilo de filmar despudoradamente explotation e cru de Tobe Hopper com a sofisticação high-tech da empresa de efeitos visuais Industrial Light and Magic.
 O resultado, surpreendentemente, deu certíssimo e com Poltergeist (EUA, 1982) Tobe Hopper pode acrescentar mais um clássico a sua carreira e ao cinema de horror, embora neste caso, Hopper teve que dividir os louros meio-a-meio com o diretor de E.T. O problema foi que a partir daí, o "pai" de Letherface ficou com o seu estilo de filmar apartado entre o hardcore e o mainstream, ora pendendo mais para um lado, ora mais para o outro, o que deixou a carreira deste cineasta, que iniciou de forma tão espetacular e original, irritantemente dissonante.
 Contudo, de qualquer forma, mesmo décadas após a sua estréia, dezenas de imitações e remakes dispensáveis, "O Massacre da Serra Elétrica" original continua firme e forte conquistando corações e mentes, revirando estômagos e gelando o sangue de muita gente pelo mundo afora.
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METAL DE CARNE E SANGUE

 Se você é um daqueles que já está de saco cheio  desse suposto "heavy metal moderno", chamado new metal e de seus abomináveis vocais limpos e saudáveis de boy bands; se você já não aguenta mais ver um dos gêneros musicais mais arrojados, subversivos e chocantes de todos os tempos afundar na lama da mediocridade e da burocracia musical, por meio de bandas de pseudo-heavy metal como Korn e Limp Bizkit; ou se você tem vontade de dar uma saraivada de .50 mm em um aparelho de som, toda vez que escuta emanar desse sonoridades insanamente legais, como trash metal e, até mesmo, a brutalidade sanguinária do death metal misturados com gêneros absolutamente antagônicos ao peso musical, tais como o hip-hop melódico e o techno pop, então, cara, continue a ler esta matéria e a banda sobre a qual essa discorre.
 Em 1984, é parido, na Suíça, o Celtic Frost, uma das bandas precursoras do black metal, que, por sua vez, é um dos sub-gêneros de metal extremo mais truculento, macabro e imune ao "politicamente correto" que já existiu.
 Diretamente influenciado pelas raízes mais primitivas e puras do heavy metal, como Black Sabbath, Judas Priest e Venon, o Celtic Frost, fazendo jus a estes seus antepassados macabros e satânicos, estréia com o disco Morbid Tales, que alguns críticos qualificaram como "o disco perfeito para você usar se quiser aterrorizar alguém".
 O Celtic Frost, em 1985, marca a ferro, a fogo e à sangue a sua marca na história do heavy metal com Emperors Return e To Mega Therion, trabalhos que imprimiram a banda o status de lenda da música extrema.
 Infelizmente, em 2008, o Celtic Frost foi para a sepultura, encerrando os seus trabalhos...contudo, um de seus pedaços originais, o demoníaco vocal/guitarrista Tom Warrior, ainda teimava em continuar respirando e vagando pela Terra para aterrorizar a nós, pobres mortais.
  Triptycon, a nova banda de Tom Warrior, formada por ele, também na Suíça, em 2008, e que lançou seu primeiro disco, intitulado Eparistera Daimones, em 2010, parece um Celtic Frost recém- ressussitado, um zumbi putrefato, porém transbordante de energia mórbida e faminto por carne e por medo humanos.
 Enquanto  bandas de metal moderninhas, como o Slipknot, parecem ter medo de irem até o fundo do poço do macabro e do lado escuro do ser humano, sempre aliviando o seu som através  da alternância de berros guturais com vocais limpos e, vez por outra, refreando a pegada death/black metal com ritmos mais pop e comerciais. o Triptykon, por sua vez, não tem medo de ser assustador, de ser um trem fantasma desgovernado de horror, que arrasta o ouvinte dos primeiros aos últimos segundos do disco, sem interrupções, as profundezas de um lamaçal de pavor gótico absoluto.
 Se a sonoridade do Slipknot, Korn, System of  a Down e outras da turminha do new metal trazem à lembrança do ouvinte cenas de recentes slashers holywdianos carentes de sangue e imaginação, que só assustam a filhinhos e filhinhas de papai, o Triptykon segue uma maré completamente oposta, indo buscar inpiração para as suas músicas nos realistas e perturbadores filmes de horror das décadas de 1980 e 1970, como O Exorcista, A Profecia, Hellraiser, Alien e as produções de cineastas como Dario Argento.
 Porém, são as imagens gélidas dos clássicos imortais da literatura fantástica gótica, como as obras de Poe, Stocker e Lovecraft que mais vão se entrelaçando como serpentes constritoras em nossos neurônios na medida em que vamos sendo empurrados pela compacta massa sonora (que parece uma parede de aço maçiço que despenca sobre nossas cabeças) das guitarras de Tom Warrior e V. Santura, em direção às entranhas dos mais genuínos black metal e doom funeral metal.
 Outro ponto (muito) a favor de Eparistera Daimones foi o uso de computadores e da tecnologia digital para tornarem as canções do disco ainda mais pesadas, sombrias e perturbadoras, algo que também vai ao contrário das bandas de metal moderno que, muitas vezes, usam sintetizadores e teclados para purificarem as suas músicas, tornando-as, assim, mais audíveis aos ouvidos sensíveis.
 Já os samplers, programados por Tom Warrior, nos lembram as coisas e as criaturas inomináveis que existem nas profundezas cósmicas e nas fossas abissais do inferno que H.P. Lovecraft descrevia nas mitologias complexas e enlouquecedoras de seus livros. Criaturas com anatomias tão disformes e tão psicodélicas que poderiam nos levar a insanidade total apenas se lhes for lançado um rápido vislumbre.
 Embrulhando toda essa carga de morbidez sonora, estão as vozes perversas de Warrior e Santura, que interpolam momentos de vocais mais rasgados com outros mais guturais ( nestas ocasiões, lembram um pouco a voz de Peter Murphy, do Bauhaus), e a capa do disco, uma verdadeira obra-prima do lúgubre e da devassidão, assinada pelo "Hieronymus Bosch" de nossos tempos e conterrâneo do Triptykon, H.R. Giger.
 Com a sua nova banda, Tom Warrior e seus colaboradores provam que bandas de heavy metal ainda podem provocar tanto calafrio na espinha quanto o primeiro disco do Black Sabbath e  Reign in Blood do Slayer. Mandam as bandinhas falcatruas de new metal para os quintos dos infernos e demonstram que, muitas vezes, o mais arrojado e moderno não está no presente, mas, sim, nas entranhas soturnas do passado.
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NANOCRÍTICA: Eu Sou o Número Quatro

 Se "Eu Sou o Número Quatro" fosse composto apenas de seu início (que possui um dos planos-sequência digitais mais deslumbrantes e complexos desde "O Quarto Do Pânico") e da parte que começa pouco depois de sua metade, seria um dos filmes mais legais dos últimos tempos.
 O problema é que o filme é recheado por um romancezinho com conotações fantásticas (a la "Crepúsculo") dos mais bunda-mole e insuportável.
 Quando o desastre parecia iminente, "Eu Sou o Número Quatro" ganha uma boa aditivada com cenas de ação grandiosas, efeitos visuais insanos, monstros bacanas e uma efervescência criativa digna da melhores HQs de super-heróis.
 Como longa-metragem este filme (baseado em livro homônimo de Pittacus Lore) de D.J.Caruso ("Controle Absoluto") daria um ótimo curta.
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AMOR A SABEDORIA

 Quero iniciar esta postagem já me desculpando pela ousadia (e possíveis  incongruências que eu possa vir a cometer neste meu texto) em querer tratar de um assunto tão sério, intrincado e fundamental como a filosofia.
 Muitos podem achar este meu pedido de desculpas (e até mesmo todo este meu texto) exagerado, pueril e francamente inútil, por girar em torno de algo tão "abstrato","infrutuoso" e "afetado".Termos depreciativos comumentes usados por pessoas ignorantes, de mente fechada e imaginação fraca para designar a filosofia. Algo que, lamentávelmente, só vem se potencializando cada vez mais nestes fúteis e descartáveis dias em que vivemos.  Aonde as pessoas são condicionadas pela grande maioria da sociedade e dos meios de comunicação, a cada vez pensarem menos e a consumirem mais, votarem mais, a acreditarem demais e questionarem de menos...enfim, a viverem cada vez mais dentro das trevas do desconhecimento de uma caverna escura, ignorando completamente o mundo que existe além dos limites desta caverna.
 Outro idéia recorrente que as pessoas tem sobre a filosofia é de que esta é uma ciência anacrônica, ultrapassada. Uma coisa já fora de uso desde os tempos de Sócrates e Platão a cerca de mais ou menos 460 anos A.C.
 Poucos sabem (ou se interessam em saber) que existe uma filosofia moderna, que trata e estuda em profundidade assuntos pertinentes a nossa época, como o impacto das novas tecnologias digitais em nossas vidas, as revolucionárias narrativas transmídia que oferecem uma imersão em mundos fictícios sem precedentes para os seus consumidores, as complexidades de se viver em um mundo e uma sociedade globalizados, etc.
 E para quem  acha que filosofia é coisa para mentes e comportamentos afeminadas e frágeis, saibam que uma das principais influências do mais arrojado e perverso mestre do horror da atualidade, o inglês Clive Barker, (considerado um novo Marquês de Sade) foi uma filósofa que defendia a subversiva idéia de que no fundo, todo o ser humano é doentiamente atraído pelo macabro, pela desgraça e pelo bizarro.
 Um dos nomes mais expoentes da filosofia moderna é o francês Pierre Levy, um filósofo que estuda as influências recíprocas entre a internet e a sociedade. Levy já chegou até a desenvolver com o seu amigo matemático Michel Authier um software livre.
  Assim como a física moderna foi inaugurada por Max Planck e Albert Einstein no início do século XX, a filosofia moderna tem seu marco zero nos sábios pensamentos e nos pormenorizados estudos do francês René Descartes no século XVII. E é Descartes e a sua revolucionária obra "Discurso Do Método" (editora L&PM POCKET,123 pág.) o principal foco desta postagem.
 Descartes foi um filósofo singular e inovador ao abandonar os estudos convencionais e usar o próprio mundo ( e tudo o que este tem de melhor e pior) como sala de aula e laboratório de pesquisas. Assim Descartes não foi apenas um pensador acadêmico, mas antes e acima de tudo, um filósofo da própria vida.
 Correu mundo, conheceu de reis e soberanos aos mais simples dos mortais, foi soldado voluntário e participou de várias guerras e batalhas e descobriu que para conseguirmos sobreviver nas sociedades humanas, devemos ter um amplo conhecimento sobre todos os tipos e gêneros de pessoas, conhecer toda a cadeia de engrenagens que movimentam o mundo dos homens.
 Ao se atirar de cabeça em um mundo de aventuras, perigos, violência e adrenalina para atingir o cerne do conhecimento e decifrar os maiores mistérios e enigmas que atormentam o homem, Descartes desvincula a filosofia de sua esfera unicamente contemplativa e passiva. 
 Depois de anos de preozas e façanhas, período em que fez "doutorado" sobre todos os aspectos da natureza humana, Descartes publica "Discurso Do Método", que abre as portas para a filosofia moderna e para o controvertido raciocínio cartesiano.
 Nesta obra o filosofo escancara a sua máxima de que todas as coisas devem ser sempre analisadas sobre a fria e infalível ótica da razão e do bom senso. Nada pode ser desacreditado, tampouco em nada também devemos acreditar, antes de esmiuçarmos tudo até chegarmos ao núcleo da verdade, uma verdade que sempre deve ser tão exata, irreversível e precisa quanto uma equação matemática.
 Em "Discurso do Método" nada (seja físico ou metafísico) escapa do crivo da lógica inexorável de Descartes: Deus, a alma, o funcionamento do corpo humano, a realidade e a crença em nossa própria existência (afinal como você pode ter a certeza absoluta de que realmente existe de verdade? Já parou para se perguntar isso)?
 Acredito que este eterno questionamento  acerca de tudo e todos de Descartes tenha, direta ou indiretamente, influenciado em maior ou menor grau vários tipos de movimentos contraculturais que vem ajudando a revolucionar a nossa sociedade através dos tempos: beatniks, hippies, punks, hackers, etc. Todos eles devem alguma coisa para a mente irrequietamente questionadora de René Descartes.
  E permeando toda esta obra estão os quatro ensinamentos fundamentais do filósofo francês para se conseguir levar uma vida guiada pela razão e pela sabedoria. Mas não se engane pensando se tratar de algo típico de livros de auto-ajuda. As doutrinas de Descartes requerem de quem quiser seguí-las um grande esforço físico, desafio intelectual e personalidade forte.
 "Discurso Do Método" é a prova de que nem todas as grandes obras da literatura precisam ser calhamaços rebuscados e caríssimos.
  Este é um pequeno e insignificante livro (que provavelmente passa despercebido pela maioria dos frequentadores de livrarias e sebos), mas que esconde dentro de suas páginas conhecimentos avassaladores capazes de tranformar tanto um único indivíduo, quanto uma sociedade inteira.
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Homo Vampiricus

 Um dos mais antigos registros do mito do vampiro de que se tem notícia vem da Grécia antiga do ano de 405 A.C. Mas sabe-se lá o quão mais profundo é o abismo do passado remoto de onde tenha realmente surgido esta aterradora lenda.
 Pessoalmente, acredito que este monstro esteja conosco desde o alvorecer das primeiras mitologias que assombraram os antepassados do homem com seus deuses e demônios primitivos e selvagens. Um arquétipo sinistro que está entranhado em nosso sistema nervoso desde os tempos pré-Homo-sapiens de Pitecantropos e Plesiantropos e que vem, desde então, servindo de metáfora para os nossos mais violentos e proibidos estímulos carnais.
  O sadomasoquismo e o sexo sangrento (uma parafilia que muitos tem ou que gostariam de experimentar mas tem medo e vergonha de admitir), talvez esteja ligado ao mito do vampiro e as práticas canibalísticas (que por sua vez é a raíz do vampirismo) que eram rituais comuns em sociedades pré-históricas.
 Práticas e rituais estes que muito provavelmente ficaram gravados até hoje naquilo que Carl Gustav Jung denomina de nosso inconsciente coletivo e que mesmo atualmente em nossa sociedade moderna alguns de nós ainda possuem um desejo doentio de exercê-los de formas disfarçadas, como o prazer  de provocar e sentir dor do sadomasoquismo.
 Infelizmente, como eu já havia comentado em uma postagen anterior neste blog, o medo, os monstros e o horror são coisas que tendem a irem definhando com o tempo (da mesma forma, como sugerem alguns escritores de livros de horror, que o sangue vampírico vai afinando ao passar de uma geração para outra no decorrer dos séculos), se diluindo no interior das entranhas das ramificações mais banais da cultura pop como um lindo pedaço de carne fresca e crua que vai se manufaturando progressivamente até se transformar em um inocente e insípido hambúrguer do McDonalds.
 Contudo se no (infelizmente) quase onipresente cinema hollywoodiano o sangue do cinema fantástico vem se tornando cada vez mais anêmico o mesmo não se pode dizer das hemáceas que correm no interior das veias dos filmes de horror e ficção científica asiáticos.
  E é da Coréia do Sul (país que vem gerando alguns dos filmes mais potentes e turbinados do cinema recente) que veio "Sede de Sangue" (Thirst), produção que devolve o vampiro as suas origens monstruosas e profundamente perturbadoras.
 Comandado com pulso de aço por Park Chan-Wook (um cineasta que a tempos já dispensa apresentações para os cinéfilos mais exigentes), "Thirst" é um verdadeiro banho de sangue tanto físico quanto psíquico.
 Wook já começa a acertar quando manda para o inferno quase todos os clichês habituais que vem poluindo e as vezes até ridicularizando a figura do vampiro em todas as mídias através dos anos.
 De cara o diretor já demole os cânones mais ortodoxos do vampirismo ao transformar o protagonista do filme ,um padre, em um monstro sugador de sangue que mesmo após a sua bizarra mutação não abandona Deus nem as práticas do sacerdócio. A seguir Wook purifica ainda mais o tema enxugando o filme de todo e qualquer resquício de aspectos metafísicos, românticos e míticos, mostrando os vampiros por um prisma muito mais de ficção-científica hardcore (como "Alien" e os filmes de David Cronenberg) do que de horror sobrenatural. Dessa forma o cineasta sul-coreano atinge o coração e as raízes do vampirismo, que afinal de contas sempre serviu de tropo para o lado mais carnal e animalesco da personalidade humana, livre de quaisquer amarra mística, moral, religiosa, etc.
  "Sede De Sangue" faz o que todos os filmes de horror e fantasia deveriam fazer: usa os monstros fantásticos para comentar sobre os monstros reais de nosso cotidiano e nos fazerem pensar.
 Se analisado mais profundamente percebe-se que o vampirismo de "Thirst" também  serve  como pano de fundo para o diretor sul-coreano realizar um mix sublime de vários gêneros cinematográficos: drama, romance (aonde denota os aspectos mais sádicos e carnais do amor), film noir e um suspense hitchcockiano de absoluta destreza técnica e visual de tirar o fôlego.
 Ao mostrar as mais bizarras e tresloucadas fantasias amalgamadas dentro de um contexto, cenários e situações absolutamente realistas e até mesmo banais, Wook aproxima os seus vampiros dos super-heróis do mundo real criados por Allan Moore em HQs como "Miraclemen" e "Watchmen". Tanto as obras de Moore quanto esta de Wook, mostram que nada é apenas um milagre, que até mesmo os dons e poderes mais espetaculares e infinitos podem levar aqueles que os possuem ao sofrimento, a dor, a loucura e a morte. Mostra ,em suma, que o paraíso e o inferno sempre andam de mãos dadas.
 Já as interpretações de todo o elenco são tão fortes e potentes quanto o restante do filme.
. O tormento interno sofrido pelo sacerdote interpretado por Song Hang-Ho ( "Simpathy Mr. Vegeance" "O Hospedeiro"),  dilacerado entre a pureza da alma e as tentações da carne e do sangue, não perde em nada em complexidade para os personagens de Martin  Scorsese, que também são quase sempre seres estilhaçados entre o divino e o profano. O paralelo entre esta obra de Wook e as de Scorsese também se estende ao turbulento e doentio romance entre o personagem de Ho e a vampira sádica interpretada por Kim Ok-Vin.
 Mas o melhor em "Sede De Sangue" é que ele nada violentamente contra a maré da  moda vampírica que vem entupindo os meios de comunicação atualmente. Tem-se a nítida impressão que Park Chan-Wook realizou este filme justamente para poder arrancar os vampiros da condição mainstream e fashion em que estes se encontram hoje e jogá-los novamente no inferno de sangue de onde o mito do nosferatu surgiu, transformando o vampiro outra vez em um personagem de obras que possam ser consumidas por pessoas adultas, inteligentes e de imaginação ousada.
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FOME ANIMAL: UM FILME PARA MATAR A SUA FOME POR CRIATIVIDADE

  "É quando o grito de pavor entalado na garganta explode em riso histérico"
   Paulo Capuzzo (revista Set, agosto de 1989)

 O filme do qual fiz a crítica nesta postagem considero tão essencial, espetacular e definitivo que demorei dias até conseguir imaginar uma forma realmente adequada e respeitosa o suficiente de iniciar a sua apreciação.
 Hoje finalmente eu consegui: "Fome Animal" (Brain Dead, Nova Zelândia, 1992) não é um filme. É uma força da natureza!                                                                                                                                      
 Assistir a esta verdadeira obra de arte barroca do gore, equivale a escutar o mais underground e radical dos grindcore no volume máximo: a sua adrenalina atinge picos inacreditáveis, você tem vontade de gritar, de rir, de explodir, de sair correndo por aí gritando para todo mundo ouvir: "Cara, esse filme é a coisa mais foda que eu já  assisti na minha vida"! Você tem vontade de mandar o mundo inteiro a puta que o pariu!
 Já lí várias críticas e comentários na rede sobre "Fome Animal" em que usam a palavra "trash" infinitas vezes para designar este prodigioso e memorável épico nauseabundo. Outra definição muito comum a "Brain Dead"  em várias resenhas é "o filme é tão ruim que chega a ser bom".
 Bem, a única coisa que eu posso dizer é que as pessoas que redigiram estas sinopses não entendem nada de filmes de horror em particular e de cinema em geral.
 Filmes trash, são produções mal realizadas de uma forma mais ampla: são filmes mal editados, com uma fotografia pobre, direção medíocre, roteiro ridículo, interpretações reles, etc. Ou seja, são filmes mal acabados de uma forma geral. E isso não tem nada a ver com questões orçamentárias. "Fúria de Titãs" e o segundo filme da série "Tomb Raider", tiveram orçamentos milionários e equipes técnicas de primeira, mas isso não impediu que estas produções tivessem sequências tão mal filmadas que se tornaram ridículas. Em comparação "The Evil Dead", um filme que custou míseros US$ 600.000, possui câmeras, edição, enquadramentos, sonoplastia e efeitos de make-up tão sofisticados que influenciaram não apenas o cinema independente e de horror, mas toda a poderosa indústria cinematográfica norte-americana e também o cinema de outros países.
 E em "The Evil Dead" tudo foi feito de maneira artesanal, fortalecendo a idéia de que o que vale mesmo no cinema (e em qualquer outra forma de expressão artística) é mesmo a criatividade e o amor de seus realizadores pelo material que estão filmando.
 A palavra trash geralmente está associada a filmes de horror e de baixo orçamento, porque neste nicho cinematográfico é comum os diretores, roteiristas, técnicos, etc, não possuírem cursos de cinema ou alguma especialização na área, muito menos algum apoio financeiro ou patrocínio de alguma empresa, etc. Pois o horror é um gênero punk, rebelde e subversivo por natureza e "punk" e "subversão" são palavras pouco em voga na sociedade politicamente correta e ultra-consumista dos dias de hoje. Devido a esses fatores muitas vezes os filmes de horror acabam saindo mesmo de forma tosca e crua.
 Mas alegar que filmes mal-feitos são via de regra no cinema-B e de horror está longe de ser uma verdade.
 E "Fome Animal" é a prova viva (melhor seria dizer morta-viva) desta minha afirmação.
 Autêntica obra de arte da imaginação, este segundo filme do hoje respeitadíssimo cineasta Peter Jackson, "Brain Dead" brinda o espectador com um verdadeiro exército infernal de criaturas e monstros originalíssimos  , efeitos splatter que beiram a perfeição, um roteiro que surpreende (e choca) a cada instante, surrealismo, metáforas, inteligentes citações a outros clássicos do cinema fantástico e uma imaginação sem fronteiras...
 "Fome Animal" é o terrir em seu estado mais insano, depravado, divertido e sarcástico. Não existem limites para qualquer tipo de ataque a moral, aos bons costumes e principalmente ao estômago do espectador: mortos-vivos enlouquecidamente antropófagos, perfurações, decapitações e eviscerações orgânicas de todas as espécies, cadáveres ambulantes de todos os tipos que se possa imaginar (e em todos os graus de putrefação que se possa conceber), sexo além túmulo e muitas outras maravilhas que nem mesmo  os integrantes do "Canibal Corpse" conseguiriam inventar mesmo em seus surtos de inspiração mais delirantes. É fantasia negra destilada, um autêntico filme de zumbis: fétido até a raíz, carnívoro até a alma.
 Jackson ainda consegue inserir no meio de toda a orgia gore e criaturas fantásticas, uma subtrama de mariticídio, que apesar de ocupar poucos segundos na tela, possui importância vital para o desenvolvimento dos protagonistas e para todo o filme em si.
 A sequência do matricídio é de uma concisão admirável e denota a genialidade deste grande cineasta neozelândes para manipular imagens a maneira de Hitchcock, ao conseguir extrair um grande impacto visual e dramático com apenas um pequeno punhado de cenas (lembremos, por exemplo da picotada sequência do chuveiro de "Psicose", aonde não aparece nada de muito explícito, mas de tão bem filmada se tornou aterradora e imortal).
 Para fechar "Fome Animal" com chave de ouro, Jackson e sua equipe promovem um inacreditável e inimitável banho de sangue em tamanho família, aonde alegam terem usado dezenas de litros de sangue de porco para simular sangue humano. Demais!
 Outro ponto interessantísimo neste filme é que Jackson o usou como ponto de partida para uma mitologia que une "Fome Animal" com algumas de suas outras produções posteriores. A ilha em que um grupo de aventureiros captura o aterrorizante macaco-rato da Sumatra  é a "Ilha da Caveira", que é simplesmente o habitat de King Kong, protagonista de um dos maiores clássicos do cinema fantástico e de aventura e que foi refilmado pelo próprio Jackson em 2005, em uma versão respeitosamente fiel ao clássico original de 1933. Reparem no berro selvagem de alguma fera pré-histórica que explode na ilha apavorando os aventureiros logo no início de "Fome Animal". Seria algum exemplar de uma das várias raças de dinossauros que infestam a ilha ou então algum gorila gigante, remanescente da espécie do próprio Kong? E a tribo de selvagens nativos da ilha parecem uma versão cartunizada dos macabros autóctones da Ilha da Caveira que aparecem  no remake de Jackson.
 Em contrapartida, uma caixa aonde está escrito "macaco-rato da sumatra", aparece no interior do navio dos traficantes de animais do "King Kong de 2005. E o cemitério aonde o protagonista de "Brain Dead" enfrenta um grupo de bizarros zumbis é o mesmo em que Michael J.Fox descobre a verdadeira identidade do fantasma assassino de "Os Espíritos" (The Frighteners"), a estréia de Peter Jackson em Hollywood.
 Como todo o cinéfilo sabe, por mais autoral que seja um diretor, o cinema nunca deixa de ser uma atividade conjunta, que depende do resultado da soma de vários profissionais trabalhando juntos.
 Portanto, apesar de sua inegável genialidade e tenacidade, Peter Jackson deve uma boa parcela da qualidade e do sucesso de sua filmografia a um talentoso grupo de colaboradores, como a sua esposa Frances Walsh (produtora e roteirista de todos os filmes de Jackson), o iluminador Andrew Lesnie (responsável pelas imagens da trilogia "O Senhor dos Anéis", "King Kong", "Um Olhar do Paraíso") e o compositor Howard Shore ("O Senhor dos Anéis").
 Porém, o maior responsável pelas insanas e magníficas visualizações de Jackson no cinema é sem dúvida, o grande técnico de efeitos visuais Richard Taylor.
 Taylor esteve diretamente envolvido nos efeitos visuais e arte conceitual de todos os longas de Jackson, (através da empresa de ambos a "Weta Ltda") e também em produções de outros cineastas.
 Confesso que considero Richard Taylor, um dos especialistas em efeitos visuais mais talentosos e subestimados de todos os tempos.
 Todo mundo baba ao falar de Rick Baker, Tom Savini, Rob Bottin, Giannetto di Rossi, Greg Nicotero,etc.
 Mas vejo pouquíssimos comentários sobre Taylor, um verdadeiro mestre na criação e designer de monstros e criaturas fantásticas e que não  perde em nada e muitas vezes até supera os nomes citados acima.
 A exemplo de Stan Winston, Richard Taylor é um esteta do bizarro, que não se restringe a apenas um aspecto dos efeitos visuais, como por exemplo os efeitos de maquiagem. Taylor e sua equipe da Weta Workshop ( a divisão de efeitos visuais físicos da Weta) criam e elaboram de tudo: maquiagem, animatrônicos, maquetes, designer de veículos, armamentos, figurinos, etc. Dos zumbis genialmente apodrecidos de "Brain Dead" aos aliens high-tech de "Distrito 9" e "Avatar", todos tiveram a colaboração da soberba criatividade de Richard Taylor.
 Portanto um dentre os vários motivos para se assistir "Fome Animal", é podermos apreciar os primórdios das carreiras de Peter Jackson e Richard Taylor, dois verdadeiros magos da imaginação humana, cujos filmes de horror lhes ensinaram a como ganhar o oscar e o respeito de críticos e fãs do mundo inteiro.
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LITERATURA PARA MACHO...E PARA MULHERES FORTES

 Algum tempo atrás, singrando pelos oceanos digitais do ciberespaço me deparei com o blog de  André Barcinski, um jornalista especializado em cultura pop cujos textos eu curto pra caralho já a um bom tempo.
 Naquela ocasião, uma das últimas postagens do Barcinski eram sobre os dois únicos livros que o haviam deixado realmente perturbado a ponto deste comentar que havia ficado com medo de lê-los até o final.
 Logo imaginei que algo capaz de deixar assustado um cara que já havia se trancado em um estúdio com os integrantes do Ministry no auge da detonação junkie da banda ( na gravação do cáustico Psalm 69 ) e que havia escrito uma biografia do José Mojica Marins, merecia a minha atenção...
 Os tais livros eram Meridiano de Sangue de Cormac McCarthy e Meus Lugares Escuros de James Ellroy.
 Não perdi tempo e na primeira oportunidade que tive adquiri as duas obras.
 De Ellroy eu já era fã a um bom tempo, tendo devorado cinco de seus noirs hardcore: L.A. Confidential, Dália Negra, O Morro do Suicídio, 6 Mil em Espécie e Jazz Branco.
 Portanto como eu já sabia a porrada alucinante que me aguardava em Meus Lugares Escuros, decidi começar pelo McCarthy que me era, à época, terreno desconhecido.
 Bom, agora eu posso dizer com total segurança de que se existe algum escritor capaz de realizar um exame analítico tão ou mais minucioso do lado negro do ser humano do que James Ellroy é justamente Corman MacCarthy.
 O único contato que eu havia tido com o apavorante universo deste escritor, conterrâneo de H.P. Lovecraft, fora através da adaptação para as telas feita pelos Coen Brothers de seu romance Aonde os Velhos Não Tem Vez, um dos filmes mais sangue frio em que eu já havia posto os olhos. Portanto eu já esperava chumbo grosso em Meridiano de Sangue....Só que nada consegue deixar você preparado o suficiente para poder debutar de forma tranquila na obra original de MacCarthy.
 Perturbador, bárbara, sanguinária, pesadelesca, inesquecível, grotesca...pffff. Todos esses adjetivos não chegam  nem perto de descrever por completo o que é realmente Meridiano de Sangue.
  Pura Trevas! Esta foi a melhor classificação que eu pude dar para este livro embora saiba que esta minha definição ainda está longe de ser a mais exata para exemplificar esta obra simplesmente arrebatadora e
inesquecível.
  Verdadeiro soco na boca do estômago, Meridiano de Sangue empurra o leitor para o cerne dos intestinos da ala mais primitiva do universo masculino.
  É 1849 e o lado ainda selvagem e imaculado da América do Norte trava um guerra sangrenta e incessante contra o estupro provocado pelos homens "civilizados".
  O México fervilha com os constantes ataques animalescos perpetrados por várias tribos indígenas nativas contra cidades e vilarejos que, a medida que se expandem, vão gradativamente esmagando e enfurecendo a população autóctone local que reage a curra da invasão cultural do homem branco desferindo neste ataques de barbárie e depravação impensáveis.
 A sociedade moderna, por sua vez, contra-ataca a sociedade primitiva com uma violência tão ou mais primeva que a dos índios transformando o México em um infinito círculo vicioso de dor, morte, sangue e corrupção.
 Meridiano de Sangue, assim como 2666 do chileno Roberto Bolano, é um livro tão dilacerante, intrínseco e grandioso quanto a própria vida, uma obra sujeita a infinitas metáforas e analogias.
  A exemplo de  O Coração das Trevas de Joseph Conrad, ao mergulharem cada vez mais fundo no território selvagem mexicano os protagonistas de Meridiano de Sangue (um bando de mercenários assassinos de índios composto por bárbaros e marginais do mais baixo e torpe nível) vão de cabeça ao encontro não apenas de seus inimigos, mas da própria maldade, insensatez e loucura humanas. Um inferno que os mercenários vão encontrar não apenas em seus adversários, mas também, e, principalmente, dentro deles mesmos, que vão se transformando cada vez mais em verdadeiros animais a medida que a vida selvagem e a natureza bruta vão se fechando ao redor destes. Provando que a selvageria é  mesmo o estado congênito do homem e que a civilização é uma mera teimosia momentânea da humanidade, bastando apenas que fiquemos alguns dias em contato com o mundo agreste para que voltemos a nos tornarmos bestas sedentas por sangue e morte.
 Muito da força desta obra de MacCarthy está na descrição riquíssima, crua e ultra-verossímel que o escritor faz da relação do homem com a natureza ríspida que o cerca. O oeste selvagem de Meridiano de Sangue não tem nada da beleza idílica da maioria dos clássicos do western. É um Hades de fogo, gelo e florestas trevosas, um mundo quase pré-histórico, repleto de feras assassinas e indomáveis, onde a luta pela sobrevivência é crônica e terrível e a diferença entre a vida e a morte está em um piscar de olhos.
 A energia e força dos ambientes criados por MacCarthy só encontra um adversário a altura no elenco de personagens do livro, todos anti-heróis bruscos, toscos, grosseiros e de personalidade intrincada que parecem carregar dentro de cada um  toda a complexidade e virulência do ser humano.
 Meridiano de Sangue pode ser descrito como uma "aventura realista" digna das melhores obras de Joseph Conrad, Jack London, Robert E. Howard e Ernest Hemingway.
  Mas no fundo em  Meridiano de Sangue, a exemplo de várias obras dos escritores citados acima, como O Coração das Trevas de Conrad, a "aventura" é apenas um disfarce para MacCarthy narrar na verdade  uma história de terror horripilante capaz de provocar pesadelos ao escancarar toda a decadência, torpeza e sadismo do animal chamado "ser humano".
 Da bárbarie da vida selvagem da América do Norte do século XIX para a barbárie da vida urbana da América do Norte do século XX: Los Angeles, 22 de junho de 1958, nesse dia é plantada  a semente de um furacão virulento que iria abalar tanto as estruturas do status quo ianque e esbugalhar o lado podre e demoníaco do american way of life quanto Charles Manson, a guerra do Vietnan e o LSD que iriam surgir durante os turbulentos anos 60, que nessa época já começavam a despontar no horizonte.
 O nome do furacão: James Ellroy.
  Região dos Estados Unidos abalada pela ação de sua força destruidora: a literatura norte americana.
  Pode-se dizer que Ellroy teve dois nascimentos, o primeiro em 1948 quando surge um menino normal, pacato e saudável, fruto de um lar e de uma família aparentemente tranquilo e salutar. O segundo em 1958, ano em que o menino tranquilo é substituído por um doppelganger impiedoso que engole, anula e substitui por completo a criança saudável da qual se originou.
 Ellroy é um autor de histórias policiais sangrentas e de mistério que descobriu o seu dom para a escrita da forma mais maldita e perfeita possível para um futuro mestre de literatura hard-boiled: um assassinato insolúvel e cercado de devassidão por todos os lados.
 1996: já completamente consagrado como um dos maiores escritores americanos contemporâneos, cujo último trabalho, Tabloide Americano fora recentemente eleito pela crítica especializada como o  "melhor livro de 1995", o autor dos aterrorizantes e polêmicos Dália Negra e L.A. Confidential resolve levar para o prelo um monstro muito mais terrível do que as dezenas de psicopatas, policiais sanguinários e políticos corruptos que infestam as páginas de seus livros: o seu próprio passado.
 Em 22/06/1958, o cadáver de Geneva Ellroy é encontrado em um terreno baldio de Los Angeles. Ela havia sido surrada e estrangulada até a morte com uma meia-calça. No decorrer das investigações a polícia local levanta a hipótese de ter sido um crime passional provavelmente ligado a um assassino em série.
 São os espinhosos desdobramentos da investigação deste crime e o seu impacto sobre a vida e a carreira de escritor do filho de Geneva, James, que o mesmo desvela com 0% de pudor e 100 % de visceralidade em sua autobiografia Meus Lugares Escuros.
 O primeiro grande motivo para se ler Meus Lugares Escuros é que o seu autor já era um puta escritor profissional  e dono de um estilo único anos antes de lançar sua autobiografia. O que significa que o leitor pode ter a certeza absoluta de estar lendo a história da vida do biografado realmente escrita pelo próprio, ao contrário das dezenas de celebridades pelo mundo afora que se tornam "escritores profissionais" de uma hora para outra ao "escreverem" as suas autobiografias, quando na realidade contratam ghost writers para fazerem o trabalho.
 O segundo motivo é que apesar de real, Meus Lugares Escuros é tão sombrio, sinistro, sanguinolento e explosivo, quanto as obras fictícias mais alucinadas e intensas de Ellroy.
 O escritor narra com um detalhamento perturbador e uma intimidade assustadora o verdadeiro inferno que se tornou a sua vida  na qual  ele mergulhou após o assassinato de sua mãe.
 James Ellroy já declarou em entrevistas que para ele escrever Meus Lugares Escuros foi um verdadeiro exorcismo muito mais veemente do que ir a um psiquiatra.
  E é como um psiquiatra ou um psicólogo durante uma sessão com o mais perturbado de seus pacientes que o leitor se sente ao ser metralhado sem nenhuma cerimônia pelas memórias da vida bandida de Ellroy, que vai jogando na cara do leitor da forma mais pornográfica possível todas as vicissitudes do lado negro de sua personalidade: taras, vícios, covardias, comportamentos fascistas, desejos incestuosos,etc. Aqui a palavra "politicamente correto" simplesmente não existe.
 Durante a sua infância e adolescência o escritor foi adepto de quase todas as formas de condutas subversivas e decadentes: estudante medíocre e vagabundo odiado por todos, tarado, ladrão, simpatizante de ideologias ultradireitistas e mendigo. Foi até ao inferno das drogas e voltou, tomou todas e sobreviveu.
 Simplesmente é quase impossível acreditar que um indivíduo com a vida desregrada que teve James Ellroy conseguiu escapar vivo e com a mente (quase) sã.
 Como em suas obras de ficção, Ellroy amarra e mixa a trama principal do livro, a história de sua própria vida e do assassinato de sua mãe, com outros vários sub-plots tão ou mais sórdidos do que o precípuo. Transformando tudo em um emaranhado noir de alta combustão de sangue, sexo e morte com a única diferença de que aqui foi tudo perturbadoramente de verdade.
 Tanto Meridiano de Sangue quanto Meus Lugares Escuros não são em absoluto destinados a leitores de  estômago fraco e imaginação pudica, aqueles que apreciam a literatura da moda tipo livros de auto-ajuda, Paulo Coelho e aventurazinhas pueris de vampiros adolescentes.
 As obras de Cormac MacCarthy e James Ellroy são para aqueles que não tem medo de leituras perturbadoras que lhes provoquem pesadelos e lhes ensine que o planeta Terra está longe de ser o lugar mais  iluminado e seguro do universo.