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A Morte Também Ama

 Dentre todas as parafilias a mais radical, repugnante e aterradora é, sem dúvida, a necrofilia.
 Mesmo o Cinema de Horror, esse monstro que se alimenta incessantemente dos aspectos mais negros do Homem, parece temer a necrofilia.
 São raríssimas as produções do gênero que tratam do assunto sem nenhum acanhamento. Até o desumano e seminal Hellraiser, dirigido pelo Marquês de Sade moderno, Clive Barker, apesar de ter a necrofilia como um de seus temas centrais, aborda a questão com luvas de pelica.
 Uma das únicas produções até hoje com coragem para encarar de frente este desvio sexual e mostrá-lo em suas características mais íntimas e grotescas foi a obra-prima do Cinema Underground alemão, Nekromantik (Alemanha, 1987), dirigida por Jörg Buttgereit.
 A grande genialidade de Buttgereit em Nekromantik não foi apenas escancarar cenas das mais macabras e absurdas práticas de necrofilia da forma mais explícita que se possa imaginar, proporcionadas pelos brilhantes efeitos especiais splatter típicos do Cinema Fantástico Europeu, mas mostrar os praticantes desta apavorante tara como "pessoas normais" como aquela que você vê todos os dias quando se olha no espelho.
 Além de serem os protagonistas do filme o casal de necrófilos, formado por Rob, um simplório limpador de rua e Betty, sua atraente e ociosa namorada, não possuem visual dark, tiques nervosos ou qualquer tipo de aparência estranha característica da maioria dos vilões de filmes de horror, pois Nekromantik é uma obra além do bem e do mal e muito distante da estereotipada dicotomia mocinho x bandido. Como na vida real, no filme de Buttgereit a  fealdade dos monstros se encontra escondida em seus interiores. O inferno está na alma e não na carne.
 Mas Rob e Betty não são apenas os protagonistas da trama. É através dos olhos deles que o espectador vê a prática  da necrofilia. Como se o casal fosse o diretor do filme e manipulasse a câmera.
 É por isso que somos conduzidos pelo terrível mundo de fetiches repugnantes de Rob e Betty com a maior naturalidade possível, como se estivéssemos visitando um parque de diversões. Os amantes não fazem caras e bocas de malignidade absoluta enquanto trafegam por entre as dezenas de recipientes contendo os mais diversos tipos de órgãos humanos asquerosos e se sentam em mesas decoradas com ossadas, mas conversam amavelmente entre si e preparam o jantar da forma mais trivial possível. É por isso que o ménage a trois entre o faxineiro, sua namorada e a carcaça de um cadáver em adiantado estado de apodrecimento não tem como soundtrack de fundo algum bombástico heavy metal, mas uma encantadora melodia romântica. A cena tampouco é filmada através de uma agressiva edição clipada típica de sequências violentas e doentias, mas por meio de longas e estilizadas tomadas em slow-motion.
 É justamente essa normalidade e romantismo com que as cenas mais repugnantes que se possa conceber são tratadas que faz de Nekromantik uma obra tão perturbadora, incômoda e arrebatadora.
 Ao mostrar o seu filme como um lírico romance, Buttgereit, como se fosse um Nelson Rodrigues grand-guignol, joga o espectador nas vísceras da mais profunda intimidade do casal necrófilo. Exatamente por mostrar a necrofilia pelos olhos de seus praticantes, ou seja, como sendo algo absolutamente normal, e não por meio de um cineasta querendo apenas chocar o espectador com imagens grotescas que a película se tornou tão nauseante e assustadora até a alma.
 São Betty e Rob, duas pessoas perdidamente apaixonadas pela morte e pela decomposição da carne, que estão contando a sua própria história, então nada de desviar a lente da câmera nos momentos mais íntimos do casal, nada de aliviar as sequências mais barra-pesada, para nós, não para eles, com cortes rápidos.
 Com um currículo assim você pode estar imaginando que Nekromantik é uma obra de apelo exclusivamente visual que dialoga apenas com os instintos mais primitivos do ser humano.
 Ledo engano.
 Abaixo da superfície splatterpunk do filme se esconde um profundo oceano do mais aterrador cerebralismo que por meio de metáforas arrepiantes discute as intrínsecas, e que a maioria de nós prefere ignorar, relações que existem entre a vida e a morte e o amor e a violência. Como na cena em que, ao assistirem a um diabólico slasher, os casais de namorados no cinema vão se excitando e se acariciando de forma cada vez mais intensa a medida em que, na tela, a violência, o sangue e o macabro vão se tornando cada vez mais acentuados.
 Ao lado do italiano Ruggero Deodato, o alemão Jörg Buttgereit foi um dos pouquíssimos cineastas a mostrar nas telas sem nenhum tipo de concessão toda a brutalidade, loucura, podridão e miséria da raça humana rejeitadas e escondidas a todo o custo pela sociedade.
 Rebelde e contestador desde cedo, Buttgereit odiou fazer a sua Primeira Comunhão e foi justamente com um presente, uma câmera 8mm, que recebeu em sua formatura desta baboseira cristã que o futuro realizador de Nekromantik conheceu a sua arma perfeita para agredir as instituições e esfregar na cara do Homem "civilizado" o animal que este verdadeiramente é.
 A partir daí Jörg Buttgereit, que além de diretor também é técnico de efeitos especiais, seguiu realizando produções independentes cada vez mais ambiciosas e ousadas como Der Todesking e a continuação de seu clássico: Nekromantik 2, sempre misturando Cinema de Arte e experimentalismo com o mais afiado horror hardcore.
 A exemplo do restante da obra de Buttgereit, Nekromantik é somente para os fortes e absolutamente contra-indicado para espectadores tímidos de estômago delicado e imaginação fraca. Pois a obra demonstra de forma veemente que o Cinema Fantástico é muito mais do que apenas monstros, naves espaciais e elfos. Cinema Fantástico é acima de tudo subversão, rebeldia e liberação. E é por isso que ele encontra em Nekromantik um de seus representantes definitivos!








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Revolução Pop

 Quando eu tinha treze anos de idade, e, como todo o bom aluno vagabundo e rebelde, repetia a quinta série uma professora de História falou para minha classe uma frase que foi para mim como um soco na boca do estômago e mudou a minha vida e a maneira de eu ver e pensar sobre o país onde eu vivo para sempre: "O Brasil não foi descoberto com a intenção de ser colonizado, mas sim de ser explorado".
 Acredito que tenha sido no instante em que escutei essa frase que a inocência de minha infância e adolescência começou a atrofiar, apodrecer e morrer. Foi aí que eu comecei a trilhar a espinhosa estrada que leva à vida adulta. Foi aí que eu percebi que vivia atolado até o pescoço em um mar de merda. Foi aí que a ficha caiu.
 Essa professora, da qual infelizmente eu não me recordo mais o nome, foi a primeira professora de História de verdade que eu tivera até então. Ela era uma professora que estudava a história do Brasil de dentro para fora. Uma docente que não apenas analisava as mazelas de nossa sociedade, mas que as vivia diariamente, que se indignava e se enfurecia com elas. Ao contrário dos demais professores que haviam me "ensinado" esta disciplina em séries e anos anteriores, e que mais pareciam estrangeiros do Primeiro Mundo vendo o meu país de longe e que falavam sobre as nossas revoluções, guerras e política de forma fria e distante como se estivessem narrando lendas de um reino mítico, aquela professora ensinava a verdadeira história do Brasil. E o fazia como uma brasileira de verdade e não como uma marionete que só falava aquilo que estava na cartilha dos militares que ainda governavam o Brasil aquela época.
 De lá para cá as coisas só pioraram, ou, na melhor das hipóteses, continuaram na mesma: governos ditatoriais, neoliberais, de direita, de esquerda, pouco importava: a grande maioria do povo brasileiro sempre continuava a ser esmagado e feito de idiota por uma pequena parcela de nossa sociedade que se autodenomina "a elite", mas que na verdade não passam de um corja podre de marginais torpes disfarçados de políticos e intelectuais. Aprendi que o tal "jeitinho brasileiro", como nos mostra o brilhante romance Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto, não passa de um eufemismo cínico para corrupção, roubo, assassinato e todas as espécies de contravenções mais baixas que se possa imaginar. Descobri que o povo brasileiro tem muito pouco de gentil e humano, que é a imagem que os estrangeiros tem de nós, e muito de animalesco e cruel. Saquei que na maioria das vezes o governo é um mero reflexo da população para quem governa e que no Brasil a palavra democracia, desde muito antes do advento da internet, sempre foi algo virtual.
 Venho sentindo na carne, durante todos esses anos, os efeitos daquela frase proferida por minha professora de História a quase trinta anos atrás.
 Finalmente, depois de quinhentos anos sendo massacrado com todo o tipo de escravidão: física, ideológica, financeira, etc, as recentes, e, espero que permanentes, manifestações populares parecem darem um sopro de autêntica rebeldia e revolta contra os séculos de deturpação absurda de quase todos os segmentos da Sociedade Brasileira.
 Acredito que o motivo de que, desta vez, o grito de "Basta"! do povo seja autêntico não apenas porque a revolta veio direto das massas populares sem o incentivo de partidos políticos oportunistas e sindicatos, mas  porque agora os manifestantes não ostentam como símbolos de seu ódio contra o Sistema cartazes com fotos de líderes farsantes de partidos políticos ditos de "esquerda", mas sim as irônicas  máscaras de um perturbador personagem de uma revista em quadrinhos, que por sua vez foi baseado em um notório terrorista inglês que pretendia explodir todo o parlamento do Reino Unido em 1605, escrita por um sinistro bruxo moderno adepto de drogas alucinógenas.
 A revolução popular brasileira de hoje e agora pode realmente destruir todo esse status quo fariseu que a meio milênio se alimenta de nosso sangue e suor porque dessa vez a revolta não está sendo inspirada e sustentada por políticos charlatões ou símbolos patrióticos que só servem para fazerem lavagem cerebral, mas sim pela cultura pop.
 Quando aqui eu falo sobre cultura pop não estou querendo dizer Michael Jackson, Madonna, Big Brother, bandas emo e outras bostas. Estou me referindo a cultura pop como o lado escuro, revoltoso e perverso do conhecimento de uma sociedade.
 O nível de politização de um povo está intrinsecamente ligado ao desenvolvimento cultural deste. E desde o início do século XXI que uma das formas de arte mais poderosas que existem vem se desenvolvendo assustadoramente, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina: o cinema.
 Não é possível que  filmes que tenham se entranhado tanto no imaginário popular quanto Tropa de Elite 1 e 2 protagonizado por um personagem como o Capitão Nascimento, que em sua sede homicida de fazer justiça com as próprias mãos tem muito de outro símbolo seminal da cultura pop, o Batman hardcore do clássico cult das HQ O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, que através de cenas visceralmente inesquecíveis, como a em que esmurra quase até a morte um político corrupto do alto escalão, se tornou o arquétipo do brasileiro de saco cheio e furioso com tanta imundície política ao seu redor, não tenha influenciado, em maior ou menor grau, consciente ou inconscientemente, a turba de manifestantes ferozes que invadiu as ruas exigindo vergonha na cara de nossos governantes e equidade imediata em todos os setores da Sociedade Brasileira.
 Tanto Tropa de Elite, quanto outro clássico recente do cinema nacional, Cidade de Deus tem como bases obras literárias que foram escritas por moradores de favelas e soldados do BOPE. Ou seja, ao contrário do incensado autor brasileiro de Literatura Policial e de Ação, Ruben Fonseca, que a despeito de suas qualidades literárias no fundo não passa de um burguês apavorado com toda a degradação social que o cerca e a qual observa de longe protegido pelos muros da Alta Sociedade, foram livros escritos direto do front de batalha por pessoas que diariamente são lavadas pelo banho de sangue que jorra dos subúrbios pelo Brasil a fora.
 Os filmes de José Padilha e Fernando Meirelles fizeram com o povo brasileiro aquilo que o rock, heavy metal e punk nunca conseguiram por aqui: sacudir as nossas cabeças, eletrizar nossos neurônios, esfregar em nossa cara toda a podridão que a sociedade varre para baixo do tapete e nos fazer berrar em volume máximo: CHEGA!!! BASTA!!! FODAM-SE!!!
 Agora, quando saímos as ruas temos como aditivo para turbinar nossa contestação não mais apenas aquelas lentas canções, que devido ao fato de terem sido compostas nos Anos de Chumbo tinham que mascarar as suas letras com toneladas de metáforas sacais, proferidas por cantores de MPB que mais pareciam estarem morrendo do que protestando contra alguma coisa, mas também as raivosas imagens de filmes editados com a fúria e a velocidade de uma rajada de balas de metralhadora e protagonizados por personagens de idiossincrasia radical que parecem arremessar para fora das telas toda a verdade nua e crua do mundo cão.
 Outro fator crucial do atual motim do povo brasileiro, que a exemplo do cinema, está diretamente ligado a cultura pop, e armamento mais pesado usado pelos manifestantes, foram a utilização maciça das ferramentas de comunicação digital.
 Pela primeira vez desde o surgimento da web a população brasileira, em especial os mais jovens, estão se tocando do poderosíssimo instrumento de subversão política e social que é a internet e as redes sociais e não apenas um canal para exibições de narcisismo e moldura para fotos de cartão postal.
 Cada vez que eu vejo o facebook sendo utilizado para divulgar a revolução popular ou a postagem de algum cidadão brasileiro furioso com a putrefação de qualquer aspecto de nossa sociedade, parece que eu estou lendo as eletrizantes páginas das sci-fi terroristas de escritores, cujas ideias se inspiram nos aterradores romances contraculturais de William Burroughs e nas experiências anarco-científicas de Timothy Leary, como Bruce Sterling, William Gibson, Rudy Rucker, Neal Stephenson, etc, com os seus hackers selvagens, netrunners revoltados contra tudo e contra todos, geeks insurgentes e exércitos de terroristas cibernéticos que utilizam as redes de computadores e a realidade virtual para derrubarem governos despóticos.
 Ok, mas a vida de verdade não são filmes, livros e HQ, por mais insurretos que estes sejam. Em nosso Mundo de carne, ossos e sangue as histórias nunca terminam e a guerra é incessante...Então o que será que vai acontecer a partir de agora que este primeiro passo, inédito, na História do Brasil já foi dado?
 Bom, em primeiro lugar deve-se deixar bem claro que esta erupção popular não se deu em todos as classes da sociedade brasileira. Se assim o fosse teríamos resolvido os problemas do país em apenas dois dias de manifestações. As camadas sociais que realmente fariam a diferença nas ruas: a população chão de fábrica que vivem em um regime de trabalho praticamente escravocrata, os milhares de miseráveis que sobrevivem com um salário mínimo por mês e que somam quase 90% de nossa população e que são a infantaria e bucha de canhão da economia brasileira carregando o país em suas costas, não compareceram as ruas para demostrar a sua fúria e indignação.
 Por que não? Se são eles os mais prejudicados e explorados?
 Reponderei esta pergunta com outra pergunta: por que você acha que, até hoje, não se investiu de forma maciça em educação neste país?
 Justamente para acontecer o que está acontecendo agora: evitar que a indignação, o ódio e a revolta não cheguem a contaminar a grande maioria da população. Que a revolução popular, que sempre foi a única forma de realmente mudar de forma radical e profunda os rumos de qualquer país em crise, fique estagnada em pequenos nichos da nação brasileira.
 E agora? É possível extirpar, apenas com uma pequena parcela da população, do Governo a implacável escória mafiosa que a séculos vem estuprando e corroendo nossa sociedade com a sua peçonha ácida?
 Acredito que sim. Mas precisamos cuidar para não cairmos nesse papinho idiota de revolução pacífica.
 Segundo o dicionário Aulete Digital revolução significa: levante armado, insurreição, rebelião...Agora alguns sinônimos de "revolução" segundo o Dicionário de Sinônimos: agitação, inquietação, perturbação, indignação, repulsa, revolta...Enfim, toda espécie de palavra e conceito que passa longe de pacífico ou qualquer espécie de passividade.
 Pois está claro como água que se qualquer povo, de qualquer país que seja na face da Terra, decidiu fazer um levante contra os seus governantes é porque as coisas não estão nada boas, é porque é a hora da ação e não a da apatia. É porque ser pacífico não adiantou porra nenhuma!
 Devemos ir às rua e gritarmos a nossa indignação! Mas se nossos gritos não adiantarem devemos irmos adiante... Então deveremos mostrar para Eles não apenas a força de nossas vozes, mas agora, também, a força de nossos músculos!
 E isso não tem nada a ver com essa chinelagem oportunista que se aproveitou dos protestos para praticarem saques a lojas. Isso é um bando de arruaceiros apolitizados que estão pouco se lixando para as contestações públicas e que a mídia do status quo está utilizando como arma para colocar a opinião pública contra a população que está nas ruas e assim pulverizar a revolução. A mesma mídia aliás, que vive batendo na mesma tecla em todos os meios de comunicação que seus tentáculos conseguem atingir: "de que a revolta deve sempre ser pacífica" e de que os manifestantes devem se comportarem como monjes budistas mesmo quando um exército de policiais a cavalo investem em cima destes...
 Bom pessoal, não a mais nada a falar, pois esta história ainda não acabou, ela está sendo escrita AGORA!  E  nós é que somos o papel, a caneta e a mão com que ela está sendo redigida!
 Foi um grande passo termos trocado, como signo da revolução, siglas políticas pelo terrorista da HQ "V de Vingança". Agora nós só temos que seguirmos a risca os sábios conselhos deste personagem.









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Os Selvagens Somos Nós

  Selvagens (Editora Intrínseca, 288 páginas), de Don Winslon é James Ellroy na época atual.  Ou seja, apenas troque os EUA das décadas de 1940 a 1970 da Grande Depressão, Segunda Guerra Mundial, do Vietnã e de Watergate pelos EUA pós-11 de setembro, da Modernidade Líquida, do cyberpunk, consumismo insano, dos banhos de sangue bélicos no Iraque e no Afeganistão. E pronto.
 De resto parece que estamos exatamente diante da prosa feroz e afiadíssima do Cachorro-Louco da Literatura Americana.
 Continua tudo lá: os policiais corruptos até a medula, os vilões monstruosos, os anti-heróis tão terríveis quanto os vilões, as femme-fatales gostosas pra cacete e letais pra caralho, a violência sem limites, o sadismo sem fronteiras, o sexo animalesco e aquela narrativa mais ágil, musculosa e veloz do que qualquer longa de ação, capaz de provocar no leitor orgasmos de adrenalina pura.
 O que muda é que agora os personagens não são mais investigadores decadentes, atrizes de cinema promíscuas, lutadores de boxe e outros arquetípicos do noir tradicional.
 Selvagens é um thriller policial que tem como espaço e tempo o aqui e agora do Mundo e da violência globalizados. Um lugar onde assassinos que destroçam e mutilam os seus desafetos a golpes de motosserra não precisam mais se darem ao trabalho de enviarem pedaços dos corpos de seus inimigos até as portas das casas de seus familiares...basta usarem uma pequena web cam na cena do crime.
 O cyberspace é o Hades, a internet um portal escancarado para o Inferno. A maldade é instantânea e o Demônio esta 24 horas on-line.
 Para os personagens revólveres e pistolas são coisas de museu. Em Selvagens quem ditam as regras são as  escopetas capazes de explodirem cabeças, rifles militares de alta tecnologia que dizimam pequenos exércitos em segundos e bombas que reduzem quadras inteiras a pó. Já os velhos detetives de trabalho de campo foram substituídos por hackers que, sem botarem os pés na rua, podem destruir a sua vida e derrubarem instituições e empresas, transformando notebooks em armas mais fatais que metralhadoras e lança-mísseis.
 Ben e Chon são dois traficantes de luxo da Califórnia que abastecem a região com a melhor, mais sofisticada e poderosa marijuana que se possa imaginar.
 Amigos inseparáveis, mas opostos absolutos, os dois veem o Mundo e vivem as suas vidas da forma mais antagônica possível.
 Filho de pais hippies-pacifistas, Ben usa o seu tempo livre gastando a bolada que ganha com o tráfico viajando ao redor do Globo e socorrendo com ações beneficentes as populações do Terceiro Mundo estupradas pela fome, miséria e violência inconcebíveis perpetradas pela maldade humana.
 Criado por um pai militar barra-pesada, Chon desde cedo se apaixonou por ação e sangue. Abraçou a vida militar e mergulhou de cabeça no furacão de violência, torturas, corrupção política, bombas e armamento pesado da intervenção dos EUA no Oriente Médio.
 Na guerra Chon viu toda a espécie de horror que se possa imaginar. Praticou toda a espécie de horror que se possa imaginar.
 Ele não acredita mais em ações altruístas e inocência. Acredita sim que todo o ser humano é um animal selvagem e que a única forma de combater o fogo é usar mais fogo ainda.
 Ao voltar da guerra ele descobre que ficou viciado em atrocidades e enquanto que Ben viaja pelo planeta como um Gandhi americano, Chon é um anjo da morte. Um mercenário frio e implacável que pratica todo o tipo de serviço sujo tanto para iniciativas privadas quanto estatais.
 A única coisa que Ben e Chon tem em comum, além do tráfico de maconha, é a boceta de Ophélia, ou O. para os íntimos. Uma loiraça tarada por sexo e grifes caras.
 O triângulo amoroso vai muito bem, obrigado: ganham rios de dinheiro com a venda de drogas, a lá Scarface levam a vida de forma absolutamente desregrada fumando, ingerindo e bebendo todas e fodem como animais no cio.
 A rotina de drogas e ménages à trois do trio é interrompida quando um poderoso cartel de drogas mexicano em permanente expansão decide comprar, por bem ou por mal, o negócio de Ben e Chon.
 Eles só possuem duas alternativas: se tornarem sócios e empregados do cartel ou serem feitos em pedaços com requintes de crueldade inumana por assassinos psicopatas e torturadores profissionais.
 Para demonstrarem logo de cara que são do tipo "atira primeiro e pergunta depois", os traficantes mexicanos  sequestram O. e a deixam aos cuidados de um bandido ultra-sádico que é o próprio diabo na Terra e que não sabe qual ideia lhe dá mais tesão: estuprar Ophélia ou transformar o corpo dela em um amontoado de bifes sangrentos.
 Influenciada pela filosofia de "Foda-se o Mundo" de Chon a dupla de traficantes decide, não apenas negar sociedade ao cartel, mas também atacá-lo com o máximo de poder de fogo possível, transformando a Costa Oeste dos Estados Unidos em uma sucursal do Iraque.
  Don Winslow segue a risca a Escola Hammettiana de Literatura Policial: realismo no talo doa a quem doer, dane-se para qualquer espécie de sutileza, assunto de macho, e, o principal, não manter a Ficção Policial engessada e fechada em si mesma, como nos tempos de Sherlock Holmes e Hercule Poirot, mas totalmente linkada e crítica com todos os aspectos da sociedade e do contexto histórico em que está inserida.
 Toda a brutalidade e velocidade que explodem das páginas de Selvagens nada mais é do que o reflexo do zeitgeist em que vivemos.
 Uma época em que valores e relacionamentos são descartados na rapidez de um "desfazer amizade" do facebook, onde guerras são travadas friamente a distância por meio de teclados de computadores e as baixas tratadas como se fossem meros avatares descartáveis de vídeo-games.  Um Mundo que nos joga na cara de forma cada vez mais escancarada que o único Deus por trás das dezenas de religiões e sub-religiões que surgem a cada dia, é o Deus-Demônio do lucro e da corrupção. E que toda a miséria, massacres e genocídios em massa pelo Globo a fora são apenas negócios, tratados da mesma forma como você trata uma ida ao banco para pagar as suas contas do mês.
 Selvagens é um livro que possui por baixo de sua aparência de ficção Pulp de ação rápida e sanguinolência sensacionalista uma gigantesca polissemia que discute de forma aprofundada o núcleo das principais questões filosóficas, políticas, sociais e culturais que explicam os aspectos mais sinistros de nosso tempo.
 Não foi a toa que Oliver Stone se interessou pelo livro de Don Winslow. Ben e Chon parecem, a grosso modo, uma versão mais jovem e urbana dos sargentos Elias e Barnes do clássico Platoon. Ou seja, dois personagens separados, mas que, unidos, representam o eterno confronto entre o Bem e o Mal que dilaceram a alma do Homem durante toda a sua vida.
 Mas Ben e Chon, juntamente com Ophélia, representam bem mais do que a simples dualidade entre o Bem e o Mal. Eles encarnam as personas da grande maioria do típico ser humano da Sociedade movida pelo anarcocapitalismo feroz e inumano do século XXI.
 Ben é o símbolo do burguês moderno covarde que pratica atos filantrópicos e usa o discurso babaca e hipócrita do politicamente correto e dos Direitos Humanos para fugir do caos que ele próprio ajuda a manter.
 Já Ophélia representa um dos milhares de hospedeiros do capitalismo parasitário que existem pelo Mundo: os consumistas peões-otários que adquirem sem pensar qualquer merda que a mídia lhes empurre goela abaixo e que são a principal engrenagem da máquina que sustenta e conserva esse Sistema Neoliberal Antropofágico onipresente que devora a Terra.
 Para Ophélia a gastança e o consumo desenfreado de produtos da moda são como uma droga que ela utiliza para amortizá-la e isolá-la do lamaçal de violência e corrupção sem fim que se espalha a sua volta. Uma droga tão implacável e da qual Ophélia se torna tão escrava quanto do aterrorizante carrasco dos traficantes que a mantém prisioneira.
 Chon, sócio e lado negro dos negócios ilícitos de Ben, é o cara que realmente sacou qual é a do Mundo e da Sociedade em que vive. Ele descobriu que a única diferença entre uma hiena sanguinária e carniceira dos confins de uma savana africana e um executivo de Wall Street formado em Harvard é o terno e a gravata. De resto ambos não passam de duas bestas selvagens travando uma insana guerra diária pela sobrevivência pura e simples da qual  apenas o mais forte, feroz e mais bem adaptado irá sobreviver. E que a globalização com o intuito de unir e igualar as pessoas ao redor do planeta é apenas teoria. Na prática globalização é uma forma dos mais fortes dominarem e devorarem os mais fracos. Fim de papo. Não adianta chorar. Esse é o Mundo de verdade em que vivemos.
 Personagem nietzschenianao, Chon só conseguiu compreender os cruéis mecanismos que alavancam a civilização humana depois de ficar por muito tempo contemplando o fundo do abismo da alma do Homem, só muito tempo depois que este mesmo abismo devassou a própria alma de Chon.
 O preço por descobrirmos a horripilante verdade que nos cerca e domina é termos o nosso sangue transformado em chumbo líquido e nossos neurônios convertidos em bits e bytes de uma fria e inumana equação computacional.
 Para conseguirmos caçar os monstros que querem nos devorar precisamos nos tornar tão monstruosos como eles.
 Da mesma forma que Dashiell Hammett, James Cain, Patricia Highsmith e James Elltoy, Don Winslow, que como Hammett antes de se dedicar a literatura trabalhou como detetive particular, é um autor policial cujo conhecimento do submundo vai além da minuciosa descrição de armamentos, tiros e explosões. A exemplo dos mestres da Literatura Policial descritos acima, Winslow possui, em primeiro lugar, um conhecimento profundo sobre o lado mais negro do ser humano.
 E "Selvagens" é um exemplo cabal disso: um neo-noir alucinante escrito sob medida para os fãs de ficção hard-boiled. Aqueles leitores que não tem medo de verem arrancada e estraçalhada, tanto nas páginas de livros como na vida real, a hipócrita máscara de civilidade de nossa sociedade atual.

 Quem é mais selvagem? Nós ou Eles?
 Cannibal Holocaust




 












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Um Pequeno Passo Para o Homem...Um Passo Gigantesco Para o Cinema

                                                                   
 Eu, gostaria, primeiramente, antes de iniciar esta nova postagem, me desculpar, por, dessa vez, não ter digitado esta crítica, exatamente, dentro da, correta, estrutura da resenha, ou seja: título, apresentação da obra, credenciais do autor, descrição da obra e recomendação da obra. 
 O, motivo deste meu deslize foi que, originalmente, eu iria publicá-la direto em meu perfil do facebook...Entretanto, eu pensei melhor e cheguei a conclusão de que 2.001, Uma Odisseia no Espaço (EUA, 1.968), de Stanley Kubrick, é uma obra grandiosa demais para ter uma crítica, por mais rala que esta seja, publicada em alguma rede social, que são lugares mais dados a futilidades do que a análises aprofundadas sobre obras de arte. Principalmente, uma obra de arte tão espetacular, clássica e definitiva quanto 2.001, ou, qualquer outro filme de Stanley Kubrick.
 Sendo assim, achei uma espécie de desrespeito publicá-la em uma rede social. Infelizmente, como a resenha já estava, quase, toda pronta no word para ser publicada no facebook, aonde não costumo seguir as regras clássicas da resenha quando publico, lá, as minhas críticas, ficaria bem difícil reescrevê-la aqui seguindo as tais regras....
 Bom, espero que os meus, possíveis, leitores me perdoem este meu deslize...
 Como eu, recentemente, escrevi  aqui mesmo, no Imaginação Selvagem, na matéria sobre o filme De Olhos Bem Fechados, são necessários anos para que se comesse a compreender uma obra de Stanley Kubrick.
 No caso de 2.001, Uma odisseia No Espaço, foram necessários, aproximadamente, uns trinta anos, e dezenas de livros e filmes de ficção científica hard, além da cuidadosa e aprofundada leitura de Assim Falou Zaratrusta,, para que eu me sentisse apto a compreender e a especular sobre todos os variados assuntos e questões levantados por esta obra fundamental, não apenas do cinema, mas da imaginação e da arte humanas como um todo. A produção deste assombroso épico de ficção científica foi para os seus realizadores, a exemplo do que acontece ao protagonista do filme, o astronauta David Bowman, interpretado por Keir Dulea, um verdadeiro salto no abismo e no desconhecido.
   Baseado no fantástico conto A Sentinela, de Arthur C. Clarke, O filme de Stanley Kubrick, com roteiro do próprio em colaboração com o autor do conto em que se baseou,  expande, aprofunda e esmiúça todas as intrincadas questões levantadas pela enigmática narrativa de A Sentinela.
 Tido, como um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos, o autor de O Monolito e co-roteirista de 2.001, o inglês Arthur C. Clarke, segue a linhagem dos autores de ficção científica séria, e, realmente, científica, como Júlio Verne, Brian Aldiss, Bruce Sterling e Neal Stephenson. Escritores que possuem, além de uma imaginação infinita, conhecimentos sólidos sobre tecnologia e ciência. Clarke, era tão obcecado por minúcias técnicas precisas que chegou, até mesmo, a aplicar seus conhecimentos no mundo real, ao criar, e, estabelecer a exata localização de seu posicionamento na atmosfera terrestre, um famoso satélite de comunicações. Apesar do notável currículo de Arthur C. Clarke e de ter colaborado, tanto no roteiro, quanto no argumento de 2.001, a obra pertence, definitivamente, a Stanley Kubrick.  É a visão de Kubrick, de um futuro sinistro em que a medida que o Homem se vê imerso em uma tecnologia cada vez mais avançada, vai, paralelamente, perdendo a sua própria humanidade, e, se tornando, aos poucos, ele mesmo um ser tão frio, racional e inumano quanto as próprias máquinas que o cercam, que, no final das contas, impera no filme. Essa visão proto-cyberpunk de Kubrick explodiria em sua próxima obra, A Laranja Mecânica.
 Aliás, eu gosto, e, acho muito interessante, de pensar que Stanley Kubrick imaginava os universos de 2.001 e A Laranja Mecânica como pertencentes a um único, e, mesmo, Mundo: enquanto que os nossos governantes e cientistas só se preocupam e investem em uma corrida espacial cada vez mais cara e sofisticada, a raça humana, esquecida aqui na Terra, vai afundando progressivamente em um lamaçal cada vez maior de depravação e violência.
 À, época de seu lançamento, alguns críticos chegaram a afirmar que “2.001” não era, apenas, um filme que se passava no futuro, mas, também, um filme que havia sido produzido no futuro.
  Eu, assisti ao filme, pela segunda vez, a uma semana atrás, e, realmente, ainda não consigo raciocinar como é que Kubrick e seus colaboradores conseguiram  conceber aquelas imagens em 1.968...
  Alguns cenários, como os que mostram o hangar da enorme espaçonave Discovery, aonde ficam as cápsulas --- semelhantes a minúsculos submarinos --- que os astronautas usam para se lançarem ao espaço e realizarem reparos no casco externo da Discovery , parecem  terem sido construídos para uma superprodução de ficção científica lançada este ano, tamanha é a sofisticação técnica e a engenharia realista dos cenários e das pequenas espaçonaves.
   Ok. Eu sei que o uso da computação gráfica no cinema ainda estava, à época de “2.001”, uns quatorze anos no futuro...Mas acontece que, simplesmente, não acho possível imaginar como que algumas sequências desta obra de Stanley Kubrick foram concebidas sem o uso de softwares e gráficos digitais.
   Já as fantasias e efeitos de maquiagem que, no início do filme, deram vida aos nossos ancestrais pré-históricos foram desenvolvidos por Stuart Freeborn, um futuro parceiro de Rick Baker na criação dos aliens de Star Wars, e, até hoje, nos deixam de boca aberta pelo seu realismo e riqueza de detalhes que não perdem em nada, por exemplo, para os moderníssimos símios digitais da Weta Digital de O Planeta dos Macacos --- A Origem, e o King Kong de Peter Jackson.
 Mas, o mais notável nos inacreditáveis efeitos especiais que Douglas Trumbull e o próprio Stanley Kubrick confeccionaram para 2.001 foi a ousadia de utilizarem estes para mostrarem uma visão da vida e da tecnologia do futuro com veracidade e precisão cientifica absolutas, para um público que, à época, estava acostumado com produções sci-fi feitas, em sua maioria, para uma platéia infanto-juvenil e repletas de cenários baratos feitos de cartolina e alienígenas reptilianos de borracha.

 Mesmo hoje, com a divulgação científica bem mais acessível, do que, digamos, em 1.968, parece que os cineastas de produções de ficção-científica teimam em mostrarem inverosimilhanças crassas, como a propagação de som e explosões no espaço sideral, algo que qualquer estudante de física do ensino médio sabe ser impossível de ocorrer, pois o fogo e o som requerem de meios para se propagarem que, simplesmente, não existem no vácuo do espaço sideral, como, por exemplo, oxigênio, ar, sólidos, líquidos, entre outros. Não tenho nada contra space-óperas e sou um grande fã do cinema de George Lucas, entretanto assim como é ótimo assistirmos, pelo menos de vez em quando, a, por exemplo, produções policiais como Operação França e Tropa de Elite, ao invés de somente aqueles filmes sobre duplas de tiras engraçadinhas, também é muito satisfatório que existam diretores com coragem para mostrarem a ciência, a tecnologia, e, principalmente, o impacto e consequências que estas acarretam, ou, acarretariam em nossas vidas, de forma realista e contundente como o fez Stanley Kubrick com 2.001.
 E, como sempre fora avesso a fazer qualquer tipo de concessão, no caso de 2.001, Kubrick igualmente estava se lixando para o fato de o público achar menos, ou mais, emocionante ver espaçonaves se movimentando no espaço sem fazer, absolutamente, som algum. Pois este singular cineasta, que se tornou um sinônimo de perfeccionismo, sempre só teve uma única “plateia”: ele próprio e o seu compromisso permanente com a verdade e o rigor técnico/científico.
 Para o cinéfilo de imaginação mais afiada e que conhece mais a fundo a carreira, e, os filmes, de Stanley Kubrick é impossível não fazer algumas especulações, claro que aí estaremos em um terreno puramente hipotético, sobre a natureza dos, absurdamente, visionários efeitos visuais de 2.001. Como, por exemplo, uma teoria da conspiração que afirma ter sido impossível, com a tecnologia disponível no ano de 1.969, ao Programa espacial dos Estados Unidos terem enviado seres humanos a Lua. Assim sendo, a NASA, teria, supostamente, contratado Kubrick, devido a perfeição técnica das imagens da, recente, e, revolucionária ficção científica deste, para dirigir uma encenação, a mais verossímil possível, da chegada do homem ao nosso satélite natural, e, assim, convencer o planeta inteiro sobre a superioridade científica e tecnológica dos norte-americanos sobre o resto do mundo.
 Se isso, realmente, aconteceu o que teria Kubrick ganhado em troca pelos seus serviços? Dinheiro, ou também acesso a novíssimas tecnologias de ponta, que ajudariam o cineasta a revolucionar a sétima arte, como, por exemplo, os mesmos modelos de lentes, que foram, de fato, utilizadas pela NASA para tirarem fotos por satélite, que o diretor usou nas câmeras com que filmou Barry Lyndon?
 E, se o acordo entre Stanley Kubrick e a NASA tivesse sido fechado antes do início da produção de 2.001? Será que, então o cineasta não teve acesso a tecnologias à frente de seu tempo? Quem sabe, acesso até mesmo a um software-protótipo de computação gráfica que veria a ser usado, em maior escala, somente  muitos anos depois?
  Provavelmente, nunca saberemos a verdade sobre as inovadoras e misteriosas tecnologias usadas por Kubrick e sua equipe técnica para a confecção de 2.001. Só nos restando, assim como em relação ao próprio significado das imagens e do roteiro do filme, especularmos...
 Como, era de se esperar, uma produção de ficção científica dessa magnitude foi um divisor de águas definitivo no gênero. Influenciando de forma determinante a carreira de todos os grandes diretores de filmes de ficção científica que vieram depois dele.
 É, possível ver na fantástica cena em que Bowman tem um diálogo tenso com a I.A. Hal 9.000, enquanto que os caracteres de um monitor de computador vão se refletindo sinistramente no rosto do astronauta,---uma, possível, alusão sobre a fusão entre carne e máquina---,concentrada toda a estética techno-noir que viria a caracterizar, de forma contundente, o cinema do esteta Ridley Scott e os seus deslumbrantes cenários sombrios e decadentes contrastando com a mais alta tecnologia.
  O filme de Kubrick também viria a influenciar toda uma geração de futuros cineastas de edição, como, George Lucas e James Cameron, sempre obcecados por novas tecnologias e que colocariam os efeitos visuais e o hardware acima das interpretações dos atores.
 2.001, aliás, quebra a máxima de que filmes que privilegiam, apenas, o aspecto técnico em detrimento das interpretações do elenco, resultam, sempre, em obras descerebradas. E Kubrick prova, que desde que o roteiro seja inteligente e a direção impecável, os efeitos especiais podem, tranquilamente, serem os "atores principais" de um filme.
2.001, não é, apenas, um filme de ficção científica, mas uma obra sobre a evolução biológica e intelectual da humanidade, e tudo o que de bom e mal esta acarreta.
 Junto a este tema central, Kubrick e Arthur C. Clarke atrelaram outros assuntos fundamentais para se compreender melhor a história e ascensão do Homem na Terra: paleontologia, filosofia, antropologia, física, astronomia, futurologia, entre outros.
 Entretanto, o motor que, realmente, impulsiona o filme é o clássico da literatura universal Assim Falou Zaratustra, um romance filosófico escrito no século XIX por um dos maiores e mais controversos filósofos da história, o alemão Friedrich Nietzsche.
 Tido por muitos como uma obra impenetrável, Assim Falou Zaratustra usa a lendária figura de um sábio persa que teria vivido no século VII antes de Cristo, para Nietzche dissecar, através das mais elaboradas metáforas, a evolução do Homo sapiens desde o primata bestial e primitivo até a atualidade, e além...
  Por isso é que esta ficção científica futurista se inicia quatro milhões de anos em nosso passado. Para poder mostrar como que um determinado ramo da família dos primatas conseguiu se arrastar para fora de seu lodaçal pré-histórico rumo a uma sociedade mais civilizada e a conquista e dominação da Terra e das estrelas acima de nós...Mesmo que para isso tivesse que rechaçar e exterminar, até mesmo, alguns de seus semelhantes. Como prova a extinção do Homem de Neanderthal.
 O mais forte, o mais preparado, e, acima de tudo, o mais inteligente sempre acabará esmagando aqueles lhe são inferiores.
 Esta é a única forma do mais forte sobreviver e espalhar o seu DNA pelo Mundo.
 Não adianta chorarmos...
 Não adianta reclamarmos...
 Esta sempre foi a máxima da evolução...
 Esta sempre foi a máxima do Homem...
 Outra, notável, influência da obra de Nietzsche em 2.001, desta vez de forma mais intimista, é quando o  astronauta David Bowman, já ao final do filme, parte corajosamente rumo a um destino que ele sabe lhe ser incerto. Pois é apenas dando um mergulho de cabeça, suicida, direto no coração das trevas, do desconhecido, do abismo, que o Homem sempre conseguiu, e, sempre conseguirá, passar para um estágio superior de sua existência:  [...] “o que quer aprender a voar um dia, deve desde logo aprender a ter-se de pé, a andar, a correr, a saltar, a trepar e bailar “ [...] Assim Falou Zaratustra.                                                                                                                                                  
   Aos conceitos filosóficos sobre a evolução da raça humana de Assim Falou Zaratustra, Kubrick e Clarke adicionaram a suposição, absolutamente inédita em filmes de ficção científica, até então, de que o processo evolutivo de nossa civilização em aspectos biológicos, científicos, tecnológicos, entre outros, foram manipulados por seres alienígenas, inacreditavelmente, mais avançados evolutivamente do que o Homem. Esta espantosa, e, polêmica, doutrina remete a Teoria do Astronauta Antigo: de que o nosso Planeta, e, nossa cultura vem servindo, desde a sua gênese, como um gigantesco laboratório de pesquisas e testes paras as mais diversas raças extraterrenas e popularizada por  livros, como, Eram os Deuses Astronautas?, do alemão Erich Von Däniken. E que é, até hoje, amplamente defendida, questionada e rechaçada em iguais medidas, pelos mais diversos profissionais, tanto das ciências exatas, quanto das humanas. E é a partir destas controversas idéias que eu acho ser possível dissecar, um pouco, a presença e implicações da inteligência artificial em 2.001. 
   Durante muito tempo, o motim da poderosa I.A. do sofisticadíssimo modelo de ponta da cibernética Hal 9.000, que controlava, praticamente, todo o funcionamento da espaçonave Discovery, contra os astronautas a bordo desta, sempre me pareceu uma subtrama menor, e, de certa forma, desnecessária para o filme. Afinal, para que colocar uma daquelas típicas histórias de computadores malucos que se revoltam contra as pessoas, no meio de um roteiro, até então, tão original e provocante, envolvendo alienígenas ultrapoderosos, como o de 2.001?
    Assim, como o restante dos elementos do filme, o real significado, e, importância, da presença da inteligência artificial nesta obra de Kubrick me demandaram vários anos de um conhecimento mais aprofundado sobre o tema, e, principalmente, perceber que este também está intrinsecamente ligado ao assunto principal do filme, que é o da evolução da espécie humana. Atualmente, vários futurólogos, cientistas da computação, profissionais do ramo da cibernética e ufólogos especulam, que, muito provavelmente, se porventura, vierem a existirem criaturas alienígenas que sejam avançadas tecnologicamente o suficiente, a ponto de conseguirem percorrerem inacreditáveis distâncias no espaço sideral, até chegarem ao nosso planeta, estes seres seriam, então, organismos inteiramente cibernéticos oriundos de civilizações totalmente habitadas e controladas por computadores e máquinas. Basta observarmos como a nossa própria evolução está, intimamente, ligada a gradual "robotização" do homem, para percebermos que esta ideia de alienígenas cibernéticos possui uma lógica assustadora.
 Para se tornar mais avançado tanto física, quanto, intelectualmente, o ser humano terá que ser tornar cada vez mais "desumanizado".
 É no amálgama, cada vez maior entre carne e metal, entre neurônios e chips, que estará o nosso próximo estágio evolutivo.
 Do macaco...para o homem, e, do homem...para a máquina.
 Se, se pensar um pouco, talvez, um cyborg, ou um androide, seria a perfeita definição para o tão controverso e discutido Super-homem nietzchiniano, que é o tema central de Assim Falou Zaratustra.
  E, em outro clássico da ficção-científica, o romance Neuromancer, de William Gibson ---um Arthur C. Clarke das décadas de 1.980 e 1.990, e, também, um dos mais precisos escritores de FC em termos de previsões tecnológicas e científicas---, a onipresente e onisciente I.A. Wintermute, explica para o protagonista, o hacker Case, que havia feito contato com seres de sua própria espécie oriundos do sistema Alpha-Centauri...
 Por isso, eu acredito que o choque entre os  astronautas da Discovery e de Hal 9.000 é muito mais do que um simples combate Homem x máquina, é, na realidade, uma luta de vida ou morte entre duas raças distintas, cuja vitoriosa garantirá a sobrevivência e supremacia de sua própria espécie, e, o, consequente, próximo estágio evolutivo desta.
   Por, quantos milhares de anos, nós, mamíferos, vivemos a sombra dos grandes dinossauros que nos impediam de crescer, de desenvolvermos, de nos transformarmos, até que o acaso, um suposto meteoro gigantesco, pôs fim, a, então, espécie dominante na Terra, abrindo espaço para os mamíferos, e, mais adiante, para os primatas e a raça humana?
 Será, que era mesmo o nosso destino estarmos aqui? Ou seríamos, apenas, uma mera casualidade?
 A cerca de 65 milhões de anos atrás, existiam dinossauros que já possuíam cérebros do tamanho de um cérebro de chipanzé. Agora, some mais sessenta e cinco milhões de anos de evolução, e, imagine o grau de intelecto do cérebro dessa criatura, caso ela ainda estivesse aqui...É muitíssimo provável, que se os dinossauros não tivessem sido extintos, hoje, eles seriam seres muito mais evoluídos do que nós.
 E, da mesma forma, assim como o Homem também teve que esperar por milhares de anos para poder ascender e dominar, por que não acreditarmos que o ser humano também não esteja barrando a evolução de uma outra espécie que veria a ser a dominante? E, porque achar que a próxima espécie dominante da Terra deve ser, necessariamente, um animal? Um ser de carne e ossos?
 Dizem, que a décadas que as grandes empresas de informática já vêem colocando chips de inibição em seus produtos, para que as I.A. não se tornem  poderosas demais.
 Pessoalmente, eu imagino a inteligência artificial como uma fera que vamos tentando manter atrás das grades, mas que a cada dia vem se tornando, gradualmente, mais ardilosa e hostil. Uma fera que está apenas esperando um passo em falso da humanidade, ou, um acaso do destino, para nos dominar, destruir e tomar o nosso lugar como espécie dominante na Terra...
 Em 2.001, O Homo-sapiens consegui vencer Hal 9.000.
 Mas, até quando...?
 Por que no final, é quase certo que, um dia, não seremos substituídos por alguma outra raça animal, mas sim, pelos computadores e máquinas...Os nosso próprios "filhos". Seres artificiais e sintéticos muito mais poderosos e preparados do que mera carne, ossos e sangue.
 Enquanto esse dia não chega, a espécie de Hal aguarda...pacientemente...
 Após, conseguir desligar, em uma cena tensa e sufocante, Hal 9.000, Bowman, finalmente, chega ao seu destino, e, ao da própria humanidade, o planeta Júpiter...
 A partir daí, o filme parece enlouquecer com uma das sucessões de imagens mais surreais, e, plasticamente, belas da história do cinema.
 Tudo isso, para Kubrick poder mostrar um ser humano entrando de cabeça em um Mundo alienígena.
  Com isso, 2.001 quer mostrar que uma visita a uma civilização extraterrena, provavelmente, não seria algo de fácil compreensão para nós.
 Pois Bowman, não está, apenas, penetrando em um planeta alienígena. Mas em um lugar aonde tudo é alienígena: o tempo, o espaço, as leis da física, as dimensões...
 Essa, é a razão da sequência final da obra, que mostra o astronauta envelhecendo rapidamente em um luxuoso aposento exatamente igual a milhares de outros aposentos que existem aqui na Terra, ser tão incompreendida.
 Não, seria o quarto em que Bowman se encontra, no final de 2.001, um tipo de realidade virtual que os alienígenas criaram para que o astronauta não enlouquecesse com o choque de ser jogado em meio a um ambiente com uma tecnologia milhares de anos à frente da nossa? Fazer isso, seria o mesmo que transportar uma pessoa da Idade da Pedra diretamente de seu tempo para a Times Square de hoje.
 É o mesmo expediente que os aliens do livro "Contato", do falecido astrônomo Carl Sagan, usam para que a personagem Eleanor Arroway não fique traumatizada com a visão de uma civilização extraterrena para a qual ela viaja através de uma fenda interdimensional.
 Outro, ponto que, certamente, deve ter confundido, e, decepcionado, alguns espectadores da ficção científica de  Kubrick foi o fato de em momento algum do filme os E.T. terem aparecido.
  Ora, se o Mundo alienígena de 2.001 seria terrivelmente surreal e incompreensível aos olhos humanos, então, é lógico que o mesmo se daria com a própria espécie extraterrestre.
 Ao optarem por idéias tão radicais em relação aos aliens, Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke não estavam querendo ser, apenas, originais, mas, simplesmente, como em tudo o mais em relação e este filme, serem cientificamente corretos.
 Depois de gerações sendo bombardeadas pela cultura pop nos apresentando alienígenas que são uma fusão de anatomias humanoides com características de algum tipo de animal terrestre, é realmente, difícil para nós imaginarmos algo do tipo que fuja a esses padrões.
 Mas, é só conversarmos sobre o assunto com algum físico, biólogo ou astrônomo, para descobrirmos, que, provavelmente, essa seria a aparência menos provável de uma criatura alienígena. Visto que, mesmo aqui na Terra existem animais que não lembram, em, absolutamente, nada a anatomia humanoide. Que o dirá em outros Mundos.
 Se, afinal, existir vida inteligente em outros planetas seria quase certo que esses seres teriam evoluído biologicamente em formas, absolutamente, diferentes das nossas, para se adaptarem ao Mundo em que vivem, assim como as criaturas da Terra se adaptaram ao ambiente de nosso planeta. Isso se não forem, como eu escrevi acima, seres completamente artificiais/sintéticos.
 Assim, suponho que, da mesma forma como a quarta dimensão, ou seja, o tempo, provavelmente, transcorria de forma diferente no Mundo alienígena mostrado em 2.001, vide o envelhecimento brutal do astronauta em apenas alguns segundos, os seres extraterrestres, concebidos pelas mentes visionariamente científicas e apuradas de Kubrick e Clarke, não são visíveis a olhos humanos não, apenas, porque seriam bizarros demais para a compreensão de nossas mentes, mas porque estes seres, certamente, viviam em uma dimensão em que, nós, seres humanos, que possuímos uma visão limitada, a, apenas, três dimensões, não poderíamos ver, tampouco tocarmos.
 E, então chega-se a tão discutida e interpretada cena final do filme em que Bowman, na forma de um feto humano gigante, é mandado de volta a Terra.
 Acredito, que para tentar elucidar a derradeira cena de 2.001 seja necessário voltar ao começo, não, apenas, do próprio filme, mas retornar a gênese, as raízes, da história deste: o conto de Arthur C. Clarke, O Monolito.
 Neste, fascinante conto de Clarke, o autor explica que os extraterrestres haviam depositado, o, enigmático, monolito na superfície lunar por um engenhoso motivo: para que o Homem só conseguisse encontrá-lo quando este houvesse atingido um padrão bastante elevado de conhecimento científico e tecnológico. Pois apenas criaturas com um intelecto superior conseguiriam compreender e decifrar a mensagem que os alienígenas haviam nos deixado em seu artefato escondido na Lua. Só então os seres de outro planeta, que, desde a aurora da Humanidade, vinham tanto manipulando o nosso código genético, quanto observando os nossos limites técnicos e científicos, achavam que o Homem estaria apto a ser conduzido ao seu próximo estágio evolutivo.
 E, mesmo durante a viagem da Discovery rumo a Júpiter, a raça humana continua lutando ferozmente pela sua sobrevivência e adaptação a um novo Mundo através da batalha travada entre os astronautas, representando a raça humana, e Hal 9.000, representando uma nova espécie que surge na Terra para disputar conosco o controle do planeta. É uma repetição em versão altamente tecnológica das escaramuças entre o Homem, e por exemplo, o Homem de Neanderthal dos tempos pré-históricos.
 E, o Neanderthal, assim como a I.A., também pode ter sido criado por nós. O primeiro, por meio da miscigenação entre seres humanos com raças inferiores de primatas, o segundo, por meio da mais avançada tecnologia cibernética. Porém, ambos foram "os filhos rebeldes" que acabaram se revoltando contra seus pais e que tivemos que destruir sem a menor piedade caso quiséssemos continuar sobrevivendo.
 Quando, finalmente chega ao seu destino, o Mundo alienígena do qual, em parte, é oriundo, o Homem é recompensado com um novo, e, decisivo, salto evolutivo da mesma forma como o foram,  a milhares de anos antes, os nossos ancestrais primitivos e animalescos.
 O, feto gigante pairando sobre a Terra, na cena final de 2.001, pode muito bem ter sido uma metáfora para uma nova, e, mais, evoluída versão de um ser humano engendrada por Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke. O, real significado, e, forma, dessa metáfora ficam a cargo das imaginações dos espectadores...
 E, o que aconteceria depois de tudo isso?
 No final do livro 2.001, Clarke descreve a humanidade apavorada com a visão do, gigantesco, e, estranho ser, pairando sob a atmosfera terrestre e com as nossas forças armadas preparando um ataque maciço de ogivas nucleares contra a criatura. Nas, continuações de 2.001, tanto os livros, como no filme 2.010, O Ano Em Que Faremos Contato, de Peter Hyams, os terráqueos inferiores entram em um entendimento pacífico com a sua versão mais evoluída que retornou das estrelas.
 Pessoalmente, não gosto dessas continuações pois acho que elas vão, absolutamente, contra as propostas friamente racionais da obra original.
 Prefiro, imaginar, e, seguir, a muito mais realista lógica nietzschiana que Stanley Kubrick abraçou do início ao fim de 2.001, por mais cruel que esta possa parecer: a nova, e, muito mais avançada, espécie humana entra em guerra com os seus ancestrais mais primitivos, ou, seja, nós, o Homo sapiens, e acaba, para poder preservar a sua própria existência, e, a de sua nova espécie, destruindo completamente a antiga civilização humana..
 Assim, como nós próprios fizemos com outros animais, primatas, e, talvez, teremos que fazer com as inteligências artificiais.
 E, dessa forma dar continuidade a fabulosa, terrível, fascinante e implacável evolução e domínio do Homem sobre a Terra.
 Do animal primitivo, para o Homem, e, do Homem...para o Super-homem.
 Pois, assim falou Zaratustra.


 Agradecimentos ao físico, e, amigo, Alexandre Bonatto.














   
















   


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CONTO

   

                                                                     Cristian Voss                                    
                           
                                                              DESCANSE EM PAZ...



 "Feche seus olhos
  Olhe no fundo de sua alma
  Saia de si
  E deixe sua mente vagar
  Olhos gélidos encaram no fundo de sua mente como você morre"

 --- Slayer
 --- "Período no Abismo"


 Maria tinha trinta e oito anos de idade e era uma promotora de justiça de renome, temida pelos mais poderosos marginais e chefes do crime organizado. Havia vencido dezenas de processos judiciais --- mesmo quando estes eram defendidos pelos melhores advogados criminalistas que pudessem existir --- e despachado para os porões das penitenciárias dezenas dos piores espécimes de escória e parasitas de nossa sociedade.
 Tinha um casamento perfeito com um homem maravilhoso que Maria amava e respeitava. Um casal de filhos saudáveis, educados e estudiosos, e, principalmente, Maria era uma cristã fervorosa que nunca faltava às missas de domingo, sempre rezava antes das refeições --- fosse aonde quer que fosse que ela fizesse as suas refeições --- e se confessava com o padre todas as semanas...Mesmo que ela não houvesse cometido nenhum pecado, mesmo assim, a nossa heroína se confessava, religiosamente, todas as semanas. Pois Maria era um exemplo de ser humano perfeito, ou, o mais próximo a que uma pessoa podia chegar disso.
 Maria até mesmo apanhava a anos de seu marido, que, no fim das contas, era "perfeito" e "maravilhoso" apenas para Maria, sem nunca haver reclamado disso. Pois ela havia jurado ao padre, e, portanto, jurado a Deus, que iria respeitar e amar o seu marido, fosse na alegria ou na tristeza, até que a morte os separasse. Pois o que Deus uniu, o Homem não separa.
 Além disso o padre sempre falava, em seus sermões nas missas de domingo, que está na bíblia que o homem é um ser superior a mulher. E que, devido a isso, a mulher sempre deveria se submeter às vontades do homem sem reclamar.
 Maria nunca tinha lido isso na bíblia, mas o padre tinha lhe dito isso, portanto, Deus tinha lhe dito isso. E Deus NÃO mente e ponto final.
 Assim, sendo o tipo de pessoa que era, Maria imaginava que qualquer coisa poderia acontecer em sua vida...Menos que quando essa acabasse ela iria para o Inferno.
 Maria sempre pensou, levando em conta a mulher correta e cristã que sempre fora, que a sua morte iria ser algo épico e digno de um (a) mártir bíblico.
 Só que, como acontece com a maioria das pessoas, o passamento de nossa heroína foi grotesco, repugnante e absolutamente banal.
 Em um lindo entardecer de verão, em uma das ruas mais bonitas e arborizadas da cidade, com centenas de passarinhos multicoloridos cantando melodias suaves enquanto o Astro Rei mergulhava nas águas do rio e incendiava os céus do horizonte, um enorme e velho ar-condicionado caindo aos pedaços e pesando uns trezentos quilos, despencou de um apartamento do décimo oitavo andar de um edifício e esmagou os miolos de Maria como se estes fossem manteiga derretida.
 Ela estava retornando da igreja aonde havia ido se confessar.
 A morte de Maria foi gore total: sua cabeça explodiu como uma fruta podre que é esmagada pela roda de um caminhão. Sangue, misturado com pedaços de couro cabeludo e meninges, jorrou e se espalhou a vários metros de distância da cabeça esmagada.
 O cadáver ficou atirado na calçada por duas horas.
 Durante todo esse tempo ninguém se dignou a chamar ajuda.
 Parecia que todos haviam se esquecido de que aquele era o corpo de uma mulher que passou, quase, que, a vida toda fazendo o bem em prol da humanidade e da moral cristã. Praticamente uma santa.
 Muitos se aproximavam do corpo, entretanto era apenas para satisfazerem as suas curiosidades mórbidas típicas do ser humano ou para vilipendiarem o cadáver. Duas crianças riram e chutaram as pernas da defunta, um necrófilo tirou várias fotos dos restos mortais de Maria, com o seu celular, para depois olhar as fotografias e se masturbar. Uma ladra passou correndo ao lado do cadáver e arrancou a bolsa azul que estava junto ao braço flácido deste. E um filhote de buldogue matou a sua sede lambendo tranquilamente o sangue de Maria que se espalhava pela calçada.
 Duas horas depois, quando as varejeiras já depositavam as suas larvas pelo corpo de nossa azarada heroína, o furgão preto do IML apareceu.
 Como a bolsa que continha os documentos do cadáver havia sido roubada, o corpo sem cabeça de Maria foi jogado, nu e de qualquer jeito, junto com vários cadáveres de indigentes no freezer do IML. Lá ele permaneceu por uma semana até ser identificado por seus familiares.
 A alma de Maria não ficou triste quando abandonou a sua carne. Pois estava com a sua consciência tranquila e tinha certeza de que o único lugar para aonde poderia ir agora, era para cima, para o Céu. Para junto da Santíssima Trindade aonde desfrutaria de uma eternidade de paz como recompensa pela boa pessoa que tinha sido quando viva.
 O fantasma que agora era o corpo metafísico de Maria, brilhava dos pés a cabeça com uma aura dourada.
 Ela vestia o mesmo lindo vestido branco que usara em sua festa de debutante quando ainda era virgem e pura.
 Uma peça de roupa que lhe dava um aspecto sensual sem ser vulgar.
 Maria ergueu os seus olhos para o Céu, para o Paraíso.
 --- Pai. Eu estou indo...Disse ela com a voz mais doce com que já falara.
 Quando deu por si, Maria não estava mais na calçada, muito menos no Céu.
 Ela mergulhava em um abismo de trevas mais largo e profundo do que um buraco negro.
 Algo físico levaria um milhão de anos para atingir o fundo desse abismo. Mas uma alma levava dez segundos.
 Quando bateu no fundo, duro como aço, do precipício definitivo, Maria sentiu uma dor tão intensa e tenebrosa como nunca havia sentido em vida.
 Era como se tivesse quebrado, de uma única vez, todas as costelas de seu velho corpo físico.
 Ao mesmo tempo em que gritava de dor e agonia, ela chegou a uma conclusão que considerava, ao mesmo tempo, impossível e absolutamente concreta: se ela havia descido e não subido, então Maria estava no Inferno.
 A paisagem ao redor dela era de uma desolação muito além da compreensão humana. Exércitos de demônios e de criaturas barkerianas, cujas anatomias nem mesmo uma mente lotada de LSD, curtindo a pior das bad trips, seria capaz de conceber, formavam um enorme círculo fervilhante ao redor do espírito de Maria.
 O Diabo em pessoa estava parado a poucos centímetros da fantasma recém-chegada ao Inferno.
 Ele salivava por aquela alma fresca.
 ---Por que?
 Era só o que ela desejava saber.
 ---Como assim "porque"? Perguntou o Diabo. Este possuía uma forma absolutamente abstrata. Se é que se poderia chamar assim.
 O Diabo era apenas um rasgo no nada. Um retângulo preto, de dois metros de comprimento, por um metro de largura, flutuando no ar. Esse preto era o preto absoluto. O preto que existe no fim de tudo: da vida, do Mundo, da galáxia, do universo...O preto que existia antes de todas as coisas terem início.
 O Diabo é o alienígena definitivo, pois ele era oriundo daquele lugar que fica além de tudo.
 ---Por que eu estou aqui? Perguntou Maria. Fui uma pessoa boa e temente a verdade, a justiça, e, principalmente, a Deus e aos seus ensinamentos durante toda a minha vida!
 ---Maria, eu sou o Diabo e o único Deus que você tem. E é daqui, do Inferno, que todas as pessoas saem antes de nascerem e é para cá que todas elas voltam depois que morrem.
 O Diabo deu um suspiro, como alguém que já narrou aquela mesma história milhares de vezes e continuou: "Você se lembra de como era o Mundo de onde você veio?
 ---Claro que sim! Era um Mundo lindo e perfeito, assim como o é o Senhor meu Deus que o criou!
 ---Não Maria. Não o Mundo em que você vivia, mas o Mundo de verdade. O Mundo lá fora.
 Ela engoliu em seco e compreendeu tudo na hora.
 Aliás, ela sempre havia compreendido. Desde quando era viva e ainda era uma menininha. E não apenas ela sempre soubera da verdade, mas também todos os outros cristãos que existiam no Mundo. Eles sempre souberam, sempre sentiram, entretanto inventavam mentiras para poderem viverem tranquilos, mesmo sabendo que essa tranquilidade seria breve e que, mais cedo ou um pouco mais tarde, eles teriam que encarar os fatos.
 O Mundo e tudo o que existe nele, sempre pertenceu, pertence e pertencerá ao Diabo.
 E quem mais haveria de ter criado um planetinha miserável cheio de dor, doenças, fome, depravações, guerras, maldades e hipocrisia como o nosso?
 Deus? Jesus Cristo? Anjos? Santos? Quanta ingenuidade...
 E aquilo foi o fim para Maria.
 E enquanto o Diabo e os seus monstros se jogavam sobre a alma de Maria, torturando-a com métodos brutais, desumanos e obscenos que seria preciso uma bíblia inteira para descrevê-los, esta, se pudesse pensar em meio a todo o tormento pelo qual estava passando, provavelmente, estaria pensando isso: "Puta que o pariu! Mas porque diabos que eu não aproveitei melhor a minha vida"?

                                                                               FIM