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A Criatura Da Destruição (Um Conto De Fadas Noir)

"Quando ela terminou sua refeição, o lobisomem disse":
--Está cansada  da caminhada minha netinha? Então
tire as suas roupas, venha para a cama e eu a aquecerei.

Chapéuzinho Vermelho (Uma versão primitiva)


 A alguns anos atrás Stan Winston, um dos mais célebres e visionários criadores de seres fatásticos da história do cinema e um verdadeiro esteta da arte dos efeitos especiais/visuais, comprou os direitos de títulos de várias produções de horror e ficção-científica B de produtoras especalizadas em fitas do tipo. Entre elas estava "She Creature" um clássico de 1956, dirigido por Edward L. Cahn e bancado pela produtora AIP (Amerian International Picture). Um estúdio independente criado pelo ex-gerente comercial James H. Nicholson e por um advogado do ramo do entretenimento chamado Samuel Z. Arkoff. Entre os produtores da AIP estava o futuro megaprodutor de filmes B, Roger Corman.

  As décadas de 30, 40 e 50 foram importantíssimas para o cinema fantástico, pois foi nestas décadas que foram estabelecidos muitos dos principais cânones e raízes das produções de horror e ficção-científica, tais como: o monstro alienígena devorador de seres humanos, a lascividade dos vampiros, o licantropo torturado, o visual gótico, os primeiros passos do cinema trash/exploitation e do terrir, etc. Elementos estes que foram se reciclando e se modernizando através dos tempos.
 A sacada de Winston era clara: através de remakes dar um banho de tecnologia e realismo a estas  velhas produções que hoje, graças ao avanço cada vez mais gradual dos efeitos especiais, se tornaram ingênuas e até risíveis.
  Foram com estas intenções que foi parida a refilmagem de "She Creature".
  Esta versão moderna do longa de 1956 é muito interessante, pois o diretor contratado por Winston, Sebastian Gutierrez ( do suspense policial "O Beijo Da Traição"), conseguiu a proeza de atualizar o original para os novos tempos sem sacrificar o clima dos velhos filmes de monstros da década de 50, é quase como se dois filmes, um antigo e um moderno, convivessem na mesma película ao mesmo tempo.
 Para começar o diretor ambientou o remake no começo do século 20 (muitos dos filmes de horror e ficção-científica das décadas de 30, 40 e 50 se passam no começo do século 20 ou no século 19, como "Drácula" de Todd Browning e "Frankestein" de James Whale), a abertura do do filme foi rodada com uma "envelhecida" fotografia P&B e os cenários quase todos sombrios e mal iluminados (porém perturbadoramente reais, ao contrário dos sets de "papelão", dos antigos filmes de horror), com cantos e extremidades sempre ocultos pela mais profunda escuridão, passam uma impressão de que a qualquer momento algum ser infernal vai saltar  das sombras e dá ao filme um clima de "gótico até os ossos".
 "She..." se passa em 1905 e tem início em um circo de aberrações aonde o casal de charlatões Angus (Rufus Sewell) e Lily (Carla Gugino), enganam o público, cobrando para este poder assistir a monstros e  mutações fake (na verdade atores fantasiados). Mas a vida do casal (principalmente a de Lily), sai fora dos eixos quando, através de um marinheiro ancião, encontram uma inacreditável sereia de verdade.
  Apesar de homenagear as velhas produções góticas de Hollywood, o verdadeiro mundo explorado pelo remake de "She Creature" é o das lendas e dos contos de fadas. Mas não aqueles contos de fadas pop  imortalizados por escritores de literatura infantil e pelas animações da Disney. "A Criatura da Destruição" penetra nos mitos esquecidos, nos protótipos das lendas, que devido aos seus caráteres  bizarros, subversivos e depravados que utilizavam metáforas para discutir sobre o lado mais negro do ser humano foram sumariamente distorcidos  e pulverizados da cultura popular e enterrados nas profundezas de nossas psiquês.
  Só recentemente essas lendas originais e selvagens foram desenterradas das catacumbas por escritores como os ingleses Allan Moore e Neill Gaiman e por cineastas como o mexicano Guillermo Del Toro.
  Seguindo a linha destes ousados e geniais artistas citados acima, Stan Winston e Sebastian Gutierrez tranformam a sereia, popularmente conhecida como um personagem infantil, em uma besta sanguinária, animalesca e implacável, mesmo quando ainda se encontra em sua forma humana feminina e sedutora.
 O cenário em que a maior parte da trama se desenrola (um barco navegando em mar aberto) é tão sinistro quanto a própria sereia e ponto de parecer quase uma extensão do organismo do monstro. Temos  a certeza absoluta de que ninguém vai sair vivo dali, pois tem-se a impressão que o interior da embarcação é o interior das vísceras da criatura e de que todos ali já estão condenados, apenas aguardando o momento de serem digeridos pelo estômago do monstro.
 Essa mistura precisa de horror com suspense imbuída ao filme causa no espectador uma grande sensação de desconforto.
  Gutierrez mantém essa tensão carnívora até o final do longa, costurada por cenas de grande beleza plástica (quando eu cito a palavra "beleza", estou me referindo unicamente ao aspecto de esmero técnico do filme), como em uma tomada tipicamente "noir",   em que Lily acende um cigarro na mais completa escuridão, que vai provocando uma crescente "roda de luz" ao redor do rosto da personagem, emoldurado por trevas tão densas que são quase palpáveis, lembrando pinturas simbolistas como as de William Blake.
  É Justo também creditar o clima dark/gótico do filme a sua trilha sonora simultâneamente sinistra e sensual, lembrando a soundtrack que Jerry Goldsmith compôs para Instinto Selvagem (Basic Intinct, 1992) de Paul Verhoven.
  A sereia foi criada pela equipe de Winston através do que parece ser um mix de diferentes técnicas de efeitos especiais combinados entre si (animatrônicos, make-up e computação gráfica). Versão high-tech do lendário Ray Harryhausen, Stan Winston (como em todos os seus filmes ) imprime a criatura o seu padrão de qualidade característico em termos de verossímilhança e detalhamento obssessivos. Na fase  em que o monstro exibe a sua faceta mais crua e sevagem, a mente doentiamente imaginativa de Winston não perde em nada para, por exemplo, as obras mais insanas do artista plástico gótico-futurista H.R.Giger.
 Mas a maior parte do horror e da ação de "A Criatura Da Destruição", se passa dentro da cabeça do espectador. A exemplo do escritor H.P.Lovecraft (1890-1937), (outro que também devorava vários tipos de lendas primitivas assustadoras e depois as regurgitava na forma de uma mitologia inteiramente nova), os realizadores do filme lançam "apenas" as sementes do medo. Sementes saudáveis o suficiente para produzirem todo um novo e aterrorizante mundo, dependendo para isso apenas do solo em que forem plantadas (leia-se o grau de imaginação do espectador).
  Aventure-se pelas imagens sinistras de "A Criatura Da Destruição", para aqueles (independente da idade) que possuem um coração velho e uma mente burocrática, este irá parecer apenas "mais" um filme de horror mediano e chato. Mas para aqueles dotados de um coração juvenil e uma imaginação irrequieta, descobrirão uma pequeno diamante que tornará as suas noites e os seus sonhos mais aterrorizantes e mais emocionantes.

 "Sinistro é tudo aquilo que deveria permanecer oculto, mas vem a luz."
  Shelling

                                                                                                              
   Agradecimentos:
   Estou muito grato aos membros da
  comunidade do "Facebook" "Os Vivos Serão Devorados",
  que me fornecaram informações vitais para a elaboração desta
  postagem.
 

                                                                                                   
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Dissecando Tarantino

 Finalmente, o retrógado mercado editorial brasileiro publica a primeira (e creio eu única até agora) obra teórica sobre Quentin Tarantino.
 O cara dispensa apresentações para qualquer um que curta e tenha um mínimo conhecimento sobre a sétima arte.
 "O Cinema de Quentin Tarantino" (Papirus Editora) redigido em alto nível pelo doutor em cinema (pela prestigiosa USP), cineasta e professor de direção em especialização em cinema  da Unisinos Mauro Baptista, apesar de curto (143 páginas) é bastante denso em informações e curiosidades sobre este singular cineasta americano, que consegue acasalar, sem nenhum conflito, cinema hollywwdiano blockbuster com as mais profundas raízes do cinema underground guerrilheiro. Qual outro diretor de cinema que você conhece que consegue arrastar astros milionários (como Brad Pitt e John Travolta), para filmes com repugnantes censa de violência explotation editadas dentro de complexíssimas e sofisticadas narrativas de cinema nouvelle vague?
   E Baptista consegue decodificar eloquentemente toda a emaranhada teia de influências e técnicas cinematográficas dos mais diversos estilos e nacionalidades que compõem os filmes de Tarantino e que graças a essas carcterísticas formam um das filmografias visualmente mais arrojadas e originais do cinema moderno.
  "O Cinema de Quentin Tarantino" não é uma biografia , tampouco um livro sobre fofocas de celebridades.
   Baptista se concentra unicamente no aspecto profissional deste grande cineasta, principalmente no âmbito técnico de sua obra, esmiuçando e se debruçando sobre cada aspecto do processo de filmagem de todos os filmes de Quentin Tarantino, de "Cães de Aluguel" (1992) a "Bastardos Inglórios" (2009) . Revelando curiosidades fascinantes para aqueles que querem penetrar a fundo tanto na mente apaixonadamente cinemática de Tarantino, quanto nas fascinantes técnicas cinematográficas. Um exemplo disto é quando Baptista revela que Quentin elaborou um visual tão rico e diversificado para "Kill Bill" (2003/2004), que o cineasta pensou primeiramente em contratar três iluminadores para fotografar a saga da "Noiva".
  O único porém do livro (creio eu que devido a problemas editoriais) é que, a partir de "Kill Bill", o autor aborda muito rapidamente o restante da obra do cineasta. Mesmo assim, consegue dar o seu recado a contento. No entanto fica no livro aquele velho sabor de "quero mais"
  Mesmo com este deslize, "O Cinema de Quentin Tarantino" é fundamental e imperdível não apenas para aquele  público que vê cinema  como um passatempo ou hobby, mas principalmente para os cinéfilos, aqueles que estão sempre ávidos por novas curiosidades e informações sobre todos os aspectos fílmicos em geral, como estudantes de cinema e pesquisadores da sétima arte.
  Basta agora torcer, para que as editoras brasileira invistam em mais obras teóricas não apenas sobre Tarantino, mas também sobre vários outros mestres do cinema mundial.
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Piranha (Sexo, Suor, Sangue E Um Breve Comentário Sobre Medo E Nojo)

 Em primeiro lugar vamos deixar uma coisa bem clara: não existe qualquer tipo de obra de horror, seja ela na forma de livros, filmes, HQs, games ou seja que mídia for, que seja bonita e altruísta.
 Acreditar nisso é algo tão idiota e ingênuo quanto achar que se pode fazer uma guerra sem mortes ou de que existe honestidade e ética na política brasileira.
 E não adianta, por exemplo, vie crítico de cinema (por mais veterano e respeitado que seja este), dizer que tal diretor conseguiu unir "horror com beleza", por que este tipo de comentário é pura balela.
 Filme de horror de verdade não tem sentimentos, pudor ou moral, é algo tão frio e sem alma quanto o coração de um zumbi.
 E acima de tudo, a raíz de todo o tipo de horror, seja ele real ou fictício, é o medo. E o medo não tem absolutamente nada a ver com a beleza. pode apostar a sua vida nisso.
 O ser humano sempre conviveu com o medo e com o horror. Eles são um mal necessário para a nossa própria sobrevivência, tão necessário quanto nos é comer, beber e respirar. Se não fosse pelo pavor e a descarga de adrenalina que este descarrega em nosso sangue ao menor sinal de perigo para nos alertar e nos preparar para correr ou lutar, a nossa espécie já teria se extinguido da Terra a milhares de anos atrás.
 E aquele mesmo medo primitivo e crú que o Homo habilis sentia ao ouvir os berros das feras oriundas das profundezas das florestas trevosas e desconhecidas, nos foi transmitido através de nossos antepassados geração após geração, até infectar o nosso próprio DNA.
 Apenas trocamos as bestas pré-históricas por assassinos seriais, guerras apocalípticas, aliens carniceiros, aberrações genéticas mutantes e inteligências artificiais sanguinárias.
 O problema, é que através dos séculos, as sociedades humanas e os seus meios de comunicação, com suas sedes insanas por lucro fácil conduzidas por um capitalismo (um dos monstros mais implacáveis e ferozes que já existiu entre nós) progressivamente cada vez mais selvagem e descontrolado, estão sempre  tentando adocicar o horror e o medo.
 De Charles Perrault aos Irmãos Grimm, que nos séculos XVIII e XIX respectivamente, banalizaram e humilharam contos folclóricos ancestrais, aterrorizantes e sangrentos ao transformá-los em inocentes e bobocas contos de fadas infantis, até alguns cineastas da atualidade (que não gostam nem entendem nada do gênero "terror") que convertem psicopatas em verdadeiros bufões apatetados em slashers vagabundos e insípidos ou  colocando monstros seminais, que a séculos aterrorizam a escuridão de nossos pesadelos, como os licantropos e os vampiros como protagonistas de filmes românticos feitos para adolescentes acéfalas, tudo sempre com o intuito de conseguir oferecer (e vender) o medo e o horror para um público cada vez mais amplo.
 Contudo, os verdadeiros (e poucos) aficionados do macabro e da desgraça, aqueles que realmente gostam de encarar o abismo e de sentir a adrenalina correndo pelas suas espinhas não se deixam enganar, só saindo de suas catacumbas para apreciarem alguma nova obra do gênero quando esta realmente honra a palavra "horror".
 E o horror legítimo e excitante que nossos antepassados primevos sentiam, voltou a ferver nas células dos fãs do grotesco quando este penetraram na pretidão das salas de cinema (nada mais do que uma versão high-tech da velha caverna aonde os antigos narravam suas histórias de medo ao redor da fogueira) e assistiram "Piranha."
 "Piranha" pertence a um sub-gênero chamado "gore-splatter", também conhecido como "horror hardcore" ou "cinema extremo" e é tão radical que chega a assustar até mesmo os fãs de cinema de horror mais tradicional.
 Inaugurado em 1963 com o longa "Gorefleish", dirigido por Hershell Gordon Lewis (um médico que resolveu jogar nas telas dos cinemas toda a putrefação da carne humana e a bizarrice teratológica que via no dia-a-dia de sua profissão) e turbinado por George Romero em "A Noite dos Mortos-Vivos" (Night of the Living Dead) em 1968, o gore-splatter é conhecido, amado, odiado e perseguido por escancarar da forma mais pornográfica possível toda a violência, perversidade, torpeza e sadismo que se escondem nos recônditos escuros da alma humana.
 "Piranha" também abraça outro sub-gênero da fantasia negra, o "terrir", que surgiu por volta de 1985 com "A Hora do Espanto"(Fright Night) de Tom Holland, atingindo o seu ápice em 1992 com o  fantástico  "Fome Animal"(Brain Dead) de Peter Jackson . O terrir se caracteriza por misturar o humor anárquico, ácido e frenético típico dos filmes do trio ZAZ com banhos de sangue e entranhas e monstruosidades absurdas. Filmes para gargalharmos suando frio.
 Embora não alcance o mesmo patamar de escatologia épica de "Tóquio Gore Police" de Yoshihiro Nishimura ou de "Planeta Terror" (Planet Terror) de Robert Rodriguez, "Piranha" é criativamente intenso e perversamente divertido o suficiente para saciar a sede de sangue dos exigentes fãs de cinema gore-splatter.
 Livremente baseado em um clássico homônimo dos filmes B de 1978, dirigido por Joe Dante (um ex-diretor de "filmes de horror de verdade", que foi capturado, devorado e digerido pelo monstruoso capitalismo até se transformar em um cineastazinho de inocentes "filmes de fantasia para toda a família"),  "Piranha" segue a risca a tradição das antigas produções exploitations (que eram exibidas em drive-ins e cinemas baratos) ao usar apenas um fiapo de roteiro como linha narrativa (durante um spring break, que pode ser definido como uma espécie de "baile funk gringo", jovens tarados e ninfomaníacas seminuas servem de rango para horripilantes piranhas pré-históricas) como pretexto para esparramar na tela cenas de violência espetaculares e inverossímeis e grosseiras, que ultrapassam todos os limites do bom senso em uma orgia de membros decepados, vísceras expostas, mares de sangue e incorreção política a granel.
 Quase todos os personagens do filme são clichs ambulantes imbecilizados, pois em produções gore-splatter os únicos personagens dignos de nota, os verdadeiros "heróis" são os monstros, os maníacos, a besta. Em filmes gore-splatter ou você não for o monstro, será apenas a comida para o monstro.
  Algumas pessoas (inclusive os fãs de cinema de horror mais convencional) podem argumentar que as produções gore-splatter não provocam sustos nos espectadores "apenas" nojo e repulsa, alegando que vísceras a mostra esguichos de sangue e carne putrefata não tem a ver com o medo em si.
 A primeira vista esta linha de raciocínio parece mesmo sensata, mas bastauma investigação mais apurada sobre o assunto, para percebermos que na realidade o que ocrre é justamente o oposto: o asco assusta sim e muito.
 Em "Dança Macabra", o clássico tratado de Stephen King sobre a incisiva influncia do macabro na sociedade norte americana, o escritor descreve que o horror e o medo possuem varios níveis, sendo que o último e mais abissal destes seria o nojo, o asco, a repulsa, a explosão de entranhas fétidas, o jorro obsceno de fluídos corpóreos gotejantes...enfim o paradoxo da violência apelativa, da degradação e da perversidade.
 Como exemplo deste nível de medo e horror , o escritor cita a extraordinária cena em que o filhote de alienígena emerge dos intestinos do personagem interpretado por John Hurt em "Alien o Oitavo Passageiro" (Alien) de Ridley Scott.
 É só pensarmos um pouco para percebermos que esta teoria do mestre King esta correta e precisa: quando nos deparamos com o cadáver em decomposição de algúm animal na rua e sentimos o fedor de sua morte nossa primeira reação é nos afastarmos dali o mais rápido possível. Isso nos é uma reação automática, instintiva, como se nossas pernas se movimentasssem sozinhas para longe do defunto.
 Isso ocorre, porque sabemos que ali não se encontra apenas os restos de algo que não vive mais, ali também espreita a infecção, a doença, o perigo, a morte.
 O frio na espinha que sentimos quando nos encontramos em situações assim é o mesmo que nos atravessa a coluna vertebral quando sentimos o aço frio do cano do revólver de em assaltante em nossa nuca, ou se vissemos caminhando na rua alguém que acreditássemos já estar morto a muito tempo.
 O que sentimos quando nos deparamos com algo muito nojento e repugnante é medo em seu estado mais puro.
 E Alexandre Aja, o diretor francês que dirigiu esta nova versão de "Piranha"é um cineasta que entende de medo e nojo como poucos. Neste filme, Aja faz exatamente aquilo que os fãs de cinema extremo querem ver: cenas asquerosa e repulsivas filmadas com o máximo de imaginação e grande domínio técnico.
 Auxiliado pelos fantásticos efeitos especiais da dupla Greg Nicotero e Howard Berger, os mais legítimos herdeiros de Rick Baker na criação de monstruosidades e deformidades físicas e os únicos americanos que se igualam aos mestres italianos e japoneses de efeitos visuais gore, Alexandre Aja transfere para um ambiente aquático os mais celerados clichês do gênero.
 É notável, por exemplo, a sequncia em que o plicial vivido por Ving Rhames tritura um bando de piranhas com as hélices do motor de uma lancha. Trata-se da versão marinha da clássica cena do personagem que, acuado por um bando de zumbis famintos por carne humana, surta e armado com uma truculenta motoserra despedaça os mortos-vivos em um enlouquecido banho de sangue.
 As piranhas, por sua vez, parecem sentir tanto ódio e desprezo pela humanidadequanto Jason Vorhees e Michael Myers e são tão sádicas e implacáveis quanto os índios antropófagos  dos giallos  sobre canibalismo.
 Vale ressaltar também o uso de imagens tridimensionais em "Piranha". Ao converterem, durante a pós-produção, as cenas de 2-D convencional para o 3-D digital, os realizadores do filme usaram os recursos deste novo formato da forma mais apelativa e vistosa possível, como bem cabe a uma produção maldita como esta: corpos nus de jovens devassas são "esfregados" na cara dos espectadores como se fossem hologramas eróticos, para logo em seguida serem triturados por presas assassinas, braços, pernas, cabeças e órgãos genitais humanos são "espirrados" para fora da tela fazendo quase sentirmos o cheiro do sangue que brota farto dos membros dilacerados.
 Absolutamente cool!
 Agora um conselho para quem pretende ou já assistiu "Piranha": ignore completamente as críticas feitas ao filme por veículos de comunicação ligados a mídia dominante e convenciona ( aqueles que fazem parte dos conglomerados comunicativos como "Globo" e "Abril") e procure informações sobre o filme através de críticos e jornalistas realmente especializados e que entendam a fundo o cinema fantástico e de horror como, por exemplo, os do site "Boca do Inferno" e de blogs e fanzines sobre cultura underground. pois a mídia dominante é extremamente conservadora, cínica e acadêmica não apenas em relação a doutrinas políticas e econômicas mas também com as artes e expressões culturais.
 De resto, respire fundo e mergulhe no mar de sangue e despojos humanos de "Piranha". E não precisa se impressionar tanto assim com as imagens do filme, pois elas não passam de um reflexo (ainda que um tanto distorcido, hiper-realista e metafórico) de nossa própria sociedade.
 afinal, basta olharmos um pouco ao nosso redor, para constatarmos que o mundo em que vivemos é tão ou mais gore-splatter do que os próprios filmes do gênero.
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A ORIGEM:SINAPSES ENTRE NEURÔNIOS E ADRENALINA

"Quando consigo aplacar minha sede,
 sonhando que estou bebendo, não preciso despertar-me para saciá-la"
-A Interpretação dos Sonhos
-Sigmund Freud
 
 "Total Recall", "O Exterminador do Futuro", "Akira", "Matrix", "Zona Verde"... Pode ter a certeza de que a lista de filmes de ação inteligentes, isto é, que possuam como pano de fundo para perseguições, lutas insanas, efeitos visuais deslumbrantes e jorros de de adrenalina e testosterona, roteiros que lidem em maior profundidade com temas relevantes como política, tecnologia, matemática, física, filosofia, etc, não se estende muito além dos citados acima.
  Pode-se dizer que surgem um ou dois a cada década, são como ouro e pedras preciosas achadas no garimpo após (as vezes dias) de garimpagem inútil, aonde a única coisa que se encontra é areia e terra áridas e descartáveis.
  Súbito, um novo metal suntuoso é descoberto pelo garimpeiro (leia-se o fã de cinema), para engrossar mais um pouco a esquálida lista de "filmes de ação intelectuais" e a nova aquisição deste catálogo se chama "A Origem" (Inception).
  "A Origem" é um turbilhão eletrizante de ação e aventura ambientado no mundo mais caótico, perigoso e sinistro que existe: as profundezas da mente humana e aborda uma das questões filosóficas mais ancestrais e perturbadoras que vem dilacerando o intelecto do homem desde que este "aprendeu" a raciocinar: o que é a realidade? Qual afinal, é a diferença (se é que existe alguma), entre o sonho e a vigília?
  Perguntas estas que já foram abordadas inúmeras vezes no cinema, literatura e outras formas de expressões artísticas.
 Ao contrário de "13°Andar" e "Matrix", que usavam a informática e a realidade virtual como metáfora para discutirem sobre o "Mito da Caverna" de Platão, "A Origem" ataca o problema mais de frente, dissecando este complexíssimo tema existencialista em uma configuração mais crua e primitiva.
 Como era de se esperar de uma obra que debate um assunto tão obscuro quanto este, "inception" possui um roteiro emaranhadíssimo, impossível de explanar em poucas linhas, ou até mesmo em poucas páginas.
  Basta dizer que o texto é tão bem elaborado, construído por meio de uma engenharia tão precisa e delicada quanto a de um relógio suíço, que se tem a impressão de que se for retirada uma única e misúscula peça  (ou se o espectador desviar a sua atenção do filme por um único segundo sequer), todo o magnificente maquinário que é o roteiro do longa vai desabar sobre si mesmo.
  A espinha dorsal do mirabolante e genial roteiro engendrado por Cristopher Nolan (também diretor do filme) é sobre um grupo de golpistas de alto nível liderados por Don Cobb (Leonardo di Caprio, que atuando nos filmes de Scorsese aprendeu definitivamente a arte da interpretação), que praticam espionagem industrial através de métodos psíquicos e metafísicos em que invadem os sonhos de indivíduos e lhes roubam seus segredos mais bem guardados no fundo de suas psiques.
  Desde as primeiras cenas o espectador é jogado no meio da desordem espetacular do universo onírico, aonde os herméticos tratados de Carl Gustav Jung, Freund e outros estudiosos da mente/cérebro do homem, são abordados, discutidos e explicados, não por meio de diálogos e palavras, mas sim por um caos de sequências de ação ininterruptas e gradualmente radicais, protagonizadas não por intelectuais sensíveis encerrados em ambientes acadêmicos, mas por homens brutos e implacáveis que parecem terem saído de um livro hard-boiled de Dashiell Hammet, indivíduos inteligentes sem dúvida, mas acima de tudo homens de ação, das ruas, junkies de adrenalina, caçadores da morte.
  Seguindo a tendência imposta pelos mestres contemporâneos do cinema de ficção imaginativa como Peter Jackson, Neill Blonkemp e Guillermo del Toro, Cristopher Nolan faz em "A Origem" o realismo sempre caminhar lado a lado com a fantasia, mesmo nos momentos mais tresloucados desta e sempre questionando implacavelmente o espectador até os últimos minutos de exibição sobre o torturante enigma (que perpassa todo o longa) da dualidade entre o "estar sonhando" e o "estar acordado" Seriam estes dois princípios realmente opostos, ou apenas as duas faces de uma mesma moeda?
  Encabeçado por Di Caprio, o filme possui um elenco tão homogêneo, que parece não existirem papéis coadjuvantes, pois até mesmo estes são personagens extremamente ricos, sempre possuindo importância fundamental para o desenvolvimento do ,enredo.
  Mesmo assim, se pode destacar Ellen Paige, (que interpreta uma interessante variação moderna da personagem da mitologia grega Ariadne), Joseph Gordon-Levitt (alternando momentos de interpretação contida e introspectiva com outros de ação extrema e explosiva)  e Cillian Murphy, que consegue transmitir toda a agonia e desorientação sofrida pelo seu personagem.
  Já o lado técnico do filme parece estar o tempo todo querendo disputar com o roteiro, para ver qual dos dois merece mais adjetivos superlativos como "brilhante", e "perfeito".
  Efeitos digitais, efitos físicos, iluminação, cenografia, make-up...., tudo parece tão espetacularmente bem feito e de ter sido tão difícil de se fazer quanto o texto do longa.
  Algumas cenas de "A Origem" como a da cidade que se dobra sobre si mesma, lutas em gravidade zero e uma locomotiva desgovernada invadindo uma rua movimentada, possuem um impacto visual tão poderoso e inesquecível quanto o gigantesco destróier da sequência inicial de "Uma Nova Esperança", o arranha-céus em chamas no clímax de "Duro de Matar" ou as pancadarias marciais da trilogia "Matrix".
  Porém o que mais chama a atenção em "A Origem" é a sua montagem.
  A edição de imagens é exata e complexa como uma equação matemática, fazendo com que as infinitas seqências de ação (que se passam paralelamente em tempos e espaços distintos) se encaixem umas nas outras com tamanha precisão cirúrgica, que parecem estarem "falando", "explicando" para o espectador as difíceis questões sobre psicologia, neurologia, física, filosofia e química abordadas pelo filme.
  Isso se deve ao fato de o cineasta inglês Cristopher Nolan ser um adepto da "mesma escola" de montagem intrincada de Akira Kurosawa, Jean Luc-Godard e Quentin Tarantino. Diretores para quem a edição é uma arte , uma requintada forma de se contar uma história, devendo ser sempre tão surpreendente e tão bem trabalhada quanto o próprio roteiro do filme e não apenas um "canal"para irem se aglutinando imagem atrás de imagem em uma burocrática linha reta.
  Quase todos os longas de Nolam seguem esta tendência de narrativa embaralhada, fragmentada, de flash-backs no interior de flash-backs, formando um atordoante quebra-cabeças que fica martelando nos neurônios do espectador e que este, geralmente, só conseguirá montar horas após o filme ter acabado.
  Porém, esta não é a única qualidade de seus filmes.
  Seus roteiros são, na maioria das vezes, enigmáticos, thrillers desafiadoramente cerebrais, com personagens de natureza ambígua, perturbados, obcecados, dilacerados por traumas violentos e protagonizando cenas de ação eletrizantes e realistas.
  Vem sendo assim desde o obscuro cult "Following", a estréia de Cristopher nos cinemas em 1998 e que conta a ímpar história de um aspirante a escritor, que seguepessoas pelas ruas observando seus modos de vida, com o intuito de buscar inspiração para seus livros.
 Já em "Amnésia" (Memento) de 2001 (que tornou o cineasta internacionalmente famoso), Nolan constrói uma das narrativas cinematográficas mais audaciosas de todos os tempos, ao editar de marcha-a-ré literalmente e do início ao fim, uma trama noir de assassinato.
  Embora a sua obra seguinte "Insônia" (Insomnia), lançado em 2002 possua um formato mais convencional, ainda consegue arrebatar e perturbar o espectador com uma trama incômoda, além de oferecer interpretações viscerais de todo o cast.
  Com o sucesso estrondoso de "Batman Begins" em 2005, Nolan começou a ganhar carta branca das majors americanas para desenvolver os projetos que quisesse, graças a visão ultraverossímil que imprimiu ao mítico homem-morcego, que neste longa, após inúmeras tentativas fracassadas, conseguiu finalmente levar para as telas toda a insanidade, truculência e realismo das clássicas HQs que Frank Miller e Allan Moore perpetraram nos anos 80.
  Contrariando as expectativas de quem esperava que o cineasta usasse o seu recém-adquirido prestígio em Hollywood, para realizar apenas super-produções milionárias de ação e aventura com retorno financeiro garantido, Cristopher Nolan surpreende mais uma vez com o complicadíssimo "O Grande Truque" (The Prestige), um supense de época sombrio com um roteiro tão intrincado e salpicado com tantas reviravoltas inacreditáveis, que é praticamente impossível digerirn por completo a sua trama assistindo-o apenas uma única vez.  Dois anos depois , com  "O Cavaleiro das Trevas" (The Dark Knight), continuação de "Batman Begins", o cineasta supera mais um desafio, demonstrando que uma continuação pode sim, ser superior (no caso específico de "O Cavaleiro das Tevas", muito superior) que o original. Outra coisa tão rara de se ver no mundo do cinema quanto um "filme de ação inteligente".
  Agora, com "A Origem", Cristopher Nolan atinge o pináculo de sua carreira, com uma obra arrebatadora em praticamente todos os sentidos e que o consaagra definitivamente como um novo mestre da linguagem cinematográfica. Inserindo-o dentro do distinto grupo de cineastas que ainda mantém viva a centelha de criatividade, inteligência e ousadia em Hollywood, que de resto é uma mera indústria de produtos pasteurizados para consumo de massa.
  Agora só nos resta torcer para que nas décadas vindouras, o cinema continue tendo a sorte de ver surgirem cineastas como Cristopher Nolan, Darren Aranofski, David Fincher, etc.
  Em último caso, nem que seja apenas em nossos sonhos.

"Até que um dia conheceu, pela primeira vez,
o verdadeiro dono de um sonho que ele, o Pirata, tinha sonhado."

- O Arco-Íris da Gravidade
- Thomas Pynchon
  
 









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Avatar: Um novo divisor de águas no cinema de ficção-científica



  Após um interminável hiato de doze anos, o canadense James Cameron, um dos cineastas mais geniais e ousados que já existiu desde que Lois e Auguste Lumiére construíram o primeiro cinematógrafo, explodiu novamente nas telas com "Avatar".
 Como de costume, essa nova obra de Cameron era uma ficção científica (gênero que o próprio anteriormente, ao lado de outros desbravadores da sétima arte como Kubrick, Lucas e Ridley Scott, já havia ajudado a revolucionar, elevando-o a níveis de sofisticação técnica, temática e artística inimagináveis).
 E mais uma vez, como de costume, o novo filme de Cameron foi um gigantesco e inovador desafio tecnológico, consumindo dezenas de milhões de dólares e que necessitou para a sua realização, de estúdios cinematográficos high-tech de ponta dignos da Nasa.
 Para finalizar, novamente a revolução da linguagem cinematográfica provocada por esta nova obra do diretor de "Terminator", foi tão devastadora que fez com que o próprio cinema como um todo, avançasse radicalmente tanto em sua forma de como é feito, quanto na de como é assistido.
 Os efeitos colaterais de tudo isso foram uma bilheteria milionária (o maior faturamento cinematográfico de todos os tempos, para ser mais exato) e um verdadeiro tsunami de "Avatar" invadindo todas as mídias, transformando o filme em mais uma divindade na cultura pop.
 Porém agora, vamos aos três elementos que realmente importam em "Avatar" ou em qualquer outro filme, o núcleo da coisa toda, o coração, a Santa Trindade primordial que fará com que a obra cinematográfica fique gravada a ferro e fogo por muito tempo (ou pela vida toda), na memória do cinéfilo:um bom roteiro, boas interpretações e sobretudo uma direção competente de um cineasta que imponha a sua própria visão artística e técnica acima de quaisquer regras financeiras, comerciais e modistas, sempre filmando o seu material com respeito e paixão.
 E respeito e paixão é justamente o que não falta em "Avatar" por parte de seus realizadores principalmente, é lógico, de seu diretor.
 Acredito que, excentuando-se os filmes de Stanley Kubrick e da série "Star Wars", nunca uma super-produção hollywoodiana foi realizada de forma tão autoral e cuidadosa.
 Cameron vinha desenvolvendo o roteiro de "Avatar" há (no mínimo) quinze anos, inserindo gradativamente neste elementos de ficção científica, astronomia, biologia, histórias em quadrinhos, literatura fantástica em geral, etc. Elementos estes que fascinavam o cineasta desde a infância.
  A história de "Avatar" é simples e sucinta (porém muito bem contada):cerca de cento e cinquenta anos no futuro, a corporação terrestre "RDA", invade a lua "Pandora", que orbita um planeta gigante chamado "Polifemo", localizado no sistema solar "Alfa-Centauro" (o mais próximo de nosso próprio sistema solar), com o objetivo de extrair do satélite o máximo possível de um mineral que possui uma rara substância supercondutora chamada "unobtanium", mesmo que para isso a "RDA" tenha quedevastar toda a abundante fauna e flora de "Pandora".
  Para poder respirar na atmosfera tóxica e se locomover com mmais facilidade pelas perigosas e traiçoeiras selvas da lua, os exploradores terrestres se valem de um engenhoso artifício:misturando os DNAS de um ser humano e de um na'vi (alienígenas humanóides que habitam "Pandora"), criam clones híbridos humano/alien (batizados sabiamente de avatares). Em seguida, transferem a mente do humano doador do DNA para o interior do avatar, passando então a incorporar e controlar o mesmo.
  Para quem ainda não sabe, a palavra avatar não foi criada especificamente  para o longa de Cameron. Trata-se de um termo antiquíssimo, originário do sânscrito (uma língua cujos primeiros textos remontam de 1.800 a 500 a.c.). Avatar ou avatara era o nome dado as diversas encarnações e formas assumidas pelos deuses indianos (especialmente a divindade "Vishnu") cada vez que a ordem universal era perturbada.
  Devido a isso avatar também pode significar transformação, metamorfose.
  Na informática, que foi o campo aonde a palavra mais se popularizou nos tempos modernos, o vocábulo avatar foi introduzido através do cultuado romance "Snow Crash" do escritor Neal Stephenson. Baseados nas idéias contidas nesta obra de Stephenson, programadores de computador criaram o revolucionário "Second Life", um gigantesco mundo virtual on-line, aonde era possível aos milhares de usuários espalhados pelo mundo afora, interagirem uns com os outros "encarnado" personagens digitais chamados de avatares, aos quais os usuário podiam adicionar características de sua própria personalidade:sexo, vestuário, etc.
  A grande interatividade proporcionada pelo "Second Life" logo se espalhou para dezenas de games multiplayer e sites de relacionamento.  
  Em "Matrix" dos Irmãos Wachowski, outro longa de ficção científica seminal, os personagens se conectam a avatares digitais ultrasofisticados por meio de links intracranianos para poderem se locomover em um "Second Life" turbinado, uma gigantesca realidade virtual que simula a perfeição o mundo real em seus mínimos detalhes.
  Na ciência de verdade, a criação de avatares físicos ainda engatinha, mas aponta para um futuro promissor. Um grupo de nerocientista (do qual faz parte o brasileiro Miguel Nicolelis), realizam testes experimentais com macacos, conectando os cérebros dos animais a membros cibernéticos que os primatas movimentam a distância, através de eletrodos e rádio ligados a seus crânios.
  A idéia é no futuro, através desta técnica, permitir que paraplégicos, tetraplégicos e indivíduos que tiveram os membros amputados, voltem a se movimentar por meio de implantes robóticos ou orgânicos "inteligentes" que serão ligados diretamente ao cérebro humano.
  Indo um pouco mais longe, os cientistas também acreditam que a longo prazo, seguindo esta mesma linha, será possível com que as pessoas (inclusive as que tiverem membros perfeitos), possam controlar a distância organismos robóticos completos e quem sabe um dia, até mesmo um autômato biológico de carne e osso.
  Estes avatares físicos poderiam ser usados, por exemplo, para carregar utensílios e equipamentos demasiadamente pesados para serem manipulados por uma pessoa normal, ou então em campos de batalha, como soldados comandados por "controle remoto", reduzindo assim as baixas humanas.
  Porém, a nova sci-fi de Cameron vai ainda mais longe do que tudo isso: através de avançadíssimas técnicas de neurociência, engenharia genética e biotecnologia, os cientistas do filme literalmente transferem a mente dé uma pessoa para o interior do hospedeiro humano/na'vi, que o usuário humano então passa a possuir e controlar tal qual um espírito que invade um corpo alheio.
   E á através dos avatares que o protagonista da trama Jake Sully (Sam Worthington), um ex-fuzileiro naval amargurado e deficiente físico, vê a sua chance de se libertar da "prisão" da cadeira de rodase voltar a exercer a sua profissão.
   Jake é introduzido pelos militares mercenários da RDA na comunidade na'vi, com o objetivo de convencer os alienígenas a não oferecerem resistência perante a ocupação humana em Pandora.
   Porém, Jake logo fica fascinado pela cultura do povo na'vi e pela beleza e mistério da natureza de Pandora, se rebelando contra seus superiores (dando início a clássica transformação interior de um personagem: de alguém passivo e sem rumo na vida, para uma pessoa idealista e de personalidade forte) e se tornando líder do levante na'vi contra a ocupação humana.
   Trata-se  de uma quase típica história de space ópera, um dos sub-gêneros mais antigos, tradicionais e populares da ficção científica.
   Nascida nos anos 30, a space ópera sempre se caracteriza por retratar  tramas épicas, geralmente ambientadas em mundos fantásticos e deslumbrantes, com batalhas grandiosas travadas no espaço sideral ou em planetas distantes e uma relação maniqueísta entre o bem e o mal.
   "Avatar" porém, possui traços de new space ópera, que surgiu nos anos 90 e foi influenciada pelo cyberpunk.
   A new space... se diferencia da space ópera tradicional por retratar a tecnologia futurista de maneira mais hard e detalhada, com personagens mais complexos e um clima geral de pessimismo mais acentuado.
   Outra grande influência de "Avatar" (e de quase toda a obra de Cameron) é a space ópera militar, nascida nos anos 80 (cujo pai é o escritor Robert H. Heinlein, que lançou as bases da space ópera militar em livros publicados na década de 50)  e que mostra as grandiloquentes guerras espaciais travadas não pelos bruxos alienígenas e guerreiros místicos high-tech típicos da space opera purista e sim por lacônicos exércitos militares com armamentos e infra-estrutura bélica extremamente realistas.
   Contudo, a exemplo de "O Senhor dos Anéis" de J.R.R.Tolkien, a complexidade desta nova obra de Cameron, não está no desenrolar de sua trama em si, mas na descrição hiper-detalhada do mundo em que esta se passa.
   Jamais, excentuando-se na literatura, um ambiente imaginário fora construído com tanta riqueza visual, histórica e antropológica quanto "Avatar".
   Cada espécie de vida animal ou vegetal que vive, cresce e se locomove pelo viçoso e diverso ecosistema da distante lua Pandora foi obssessivamente pensado, planejado e pormenorizado por uma equipe de especialistas ligados a vários ramos da ciência (biologia, botânica, paleontologia, astronomia, etc), liderados por Cameron com o objetivo de criar um mundo fantástico com o máximo possível de verossimilhança e veracidade científica.
   Os na'vi, os alienígenas humanóides extremamente inteligentes de Pandora (mas que ainda vivem em sociedades primitivas, semelhantes aos nossos índios selvagens) são abordados em minúcias no longa, não apenas em seus aspectos biológicos, mas também em relação aos seus modos de vida, estrutura social, história, religião, mitologias e até mesmo linguísticas: um linguista foi contratado por Cameron para ajudá-lo a "simplesmente" elaborar um idioma único para os na'vi, com palavras e regras gramaticas próprias que realmente funcionassem e fuzessem sentido (algo semelhante ao que Tolkien fez ao criar os idiomas élficos).
  O Resultado de tantos pormenores na idealização dos na'vi, foi que estes, para o bem ou para o mal, entraram de forma instantânea no imaginário popular.
   Transformar o roteiro, desenho de produção e storyboard deste literal novo mundo concebido por James Cameron em imagens cinematográficas com a qualidade e verossimilhança absurdas exigidas pelo cineasta foi uma tarefa hercúlea e gigantesca.
   Em primeiro lugar, quase toda a infra-estrutura técnica necessária para o diretor dar vida a Pandora na época em que este pensou em tirar a história do papel pela primeira vez em 1.994, teria que ser tão avançada e visionária que seria considerada tão "ficção científica" quanto o próprio filme que seria produzido por esta.
   O cineasta teve então que aguardar mais de uma década para que a tecnologia necessária para gerar o seu filme se tornasse amadurada.
   Enquanto se envolvia com novos projetos (o filme "Titanic", séries de tv e vários documentários sobre naufrágios históricos e explorações das profundezas marítimas), Cameron ia paralelamente desenvolvendo e testando novos modelos de câmeras para captações de imagens cada vez mais sofisticadas e apuradas (como as câmeras para grandes profundidades subaquáticas, que Cameron utilizou para realizar o documentário "Ghosts in the Abyss").
  Porém, a cartada decisiva para a concretização de "Avatar" não partiu de Jim, mas de seu colega de profissão neozelandês Peter Jackson.
  Na época em que Cameron tirava férias do cinemão comercial, Jackson através de sua empresa Weta Limited, fazia os efeitos visuais no cinema darem verdadeiros saltos evolucionários, de uma forma tão radical quanto só a Industrial Light and Magic de George Lucas havia fito anos antes.
   O Talento dos programadores da Weta Digital (a divisão de efeitos digitais 3-D da Weta Limited), permitiu transformar linguagem binária em "matéria orgânica" 100% crível. E mais: os personagens virtuais da Weta, através de seus gestos e expressões faciais, transmitiam sentimentos verdadeiros de raiva, medo e paixão de uma forma com a indústria cinematográfica (e o público) nunca haviam visto antes.
   Era exatamente o tipo de refinamento técnico que Cameron necessitava para poder "dar vida" aos seus personagens digitais de "Avatar".
   Ao mesmo tempo, Jim havia chegado (com a ajuda de seu irmão engenheiro e do diretor de fotografia Vince Pace) ao estágio final de suas revolucionárias câmeras "reality camera system". Baseadas em um protótipo desenvolvido pela Nasa, essas câmeras cradas por Cameron captavam imagens em 3-D digital de forma orignal e incisivamente imersivas.
   Outra grande inovação das reality camera system é o processamento de renderização em cima de uma cena "crua" em tempo real, no exato instante em que stão sen do gravadas, eliminando drasticamente o tempo de pós-produção.
   A união dos efeitos computadorizados tridimensionais da Weta Digital (que em "Avatar" levou a técnica de captura de movimento ao limite) com o sublevador novo sistema de gravações de imagens de Cameron, tranformou "Avatar" em algo único, um espetáculo visual estonteante com uma inacreditável riqueza de detalhes.
   Não são apenas os personagens virtuais do filme que parecem absurdamente orgânicos e palpáveis. Todos os cenários artificiais do filme (que somam 60% de todo o longa) transbordam vida e realismo.
   Cada rio, montanha, selva, flor e folha de árvore de Pandora pulsa vida e energia.
   E esse realismo radical e obssessivo para com os efeitos especiais se estendeu para além de personagens e cenários orgânicos: veículos terrestres e aéreos, naves espaciais, robôs, armamentos, hologramas e efeitos monitorados em geral (que aparecem no filme em grande quantidade, diga-se de passagem), seguem a mesma regra draconiana imposta por Cameron de "perfeição técnica até mesmo aos mais ínfimos detalhes".
   Graças a toda esta opulência e requinte visual, "Avatar" granjeou três prêmios técnicos no último oscar: direção de arte, fotografia e efeitos visuais, além de de outras indicações incluindo melhor filme e diretor.
   Porém,a maior conquista do longa foi ter sido um divisor de águas na indústria do entretenimento.
   A onda do 3-D digital já estava nos cinemas quatro anos antes de "Avatar" estriar nas telas, mas foi só com o lançamento do novo filme de James Cameron que o novo formato começou realmente a chamar a atenção ganhando impulso e respeito.
   "Avatar" abriu os olhos não apenas dos executivos de Hollywood e donos de cadeias de cinemas, mas também das grandes corporações que produzem aparelhos de televisão, monitores de computador e produtos de alta tecnologia, mostrando-lhes que estava na hora de mudar, inovar, explorar as incríveis possibilidades proporcionadas pela dimensão extra do 3-D, uma tecnologia que já estava entre nós a algúm tempo, mas sempre sendo sub-aproveitada.
   Se atualmente já existem televisores em 3-D, de blue-rays codificados para este novo formato e até mesmo de canais de tv com programas em três dimensões (inclusive no Brasil), começando a invadir os lares pelo mundo afora, pode ter a certeza de que "Avatar" teve um a boa parcela de culpa nisso tudo.
   Mas esqueça tudo isso e como foi dito no início desta crítica vá ao que realmente importa, o coração de coisa toda: assista a este novo e ótimo filme do cientista da sétima arte James Cameron.
   Assista-o com a mente aberta para poder fazer aquilo para o qual o cinema foi criado: sonhar, acreditar no inacreditável, explorar novos mundos, seres, possibilidades e idéias. Explorar a própria imaginação do ser humano em seu estado mais puro e bruto.
   Mas assista a tudo isso de preferência em 3-D...se for possível, é claro.