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O CINEMA INDOMÁVEL DE MARTIN SCORSESE

 CINEMA EM ESTADO PURO E BRUTO!
 Acredito que não exista outra forma de se iniciar qualquer crítica sobre o clássico veemente de Martin Scorsese, Touro Indomável (Raging Bull, EUA, 1980), do que a frase acima.
 Já disseram que os artistas desovam as suas melhores obras quando estão frustrados, desesperados, coléricos, no limite...
 Talvez seja por estes, ou por algum outro motivo ainda além da comprenssão humana, que Scorsese presenteou os cinéfilos com algo tão profundo, rico, belo e horripilante quanto a própria vida como Raging Bull.
 O cineasta havia decidido que Raging Bull seria o seu canto de cisne, por motivos que este que vos escreve ainda não conseguiu entender claramente. Scorsese nasceu no lado podre e selvagem da maior cidade do mundo, Nova Iorque, aonde a única forma de salvação dos menos favorecidos para escapar de um mundo dominado por assassinos, marginais e policiais corruptos era se entregando a um catolicismo fervoroso e a proteção das igrejas. Scorsese, porém, nunca se decidiu entre a adrenalina, o poder e os prazeres profanos oriundos do mundo do crime ou pela redenção, pureza espiritual, contemplação e, também, o poder proporcionado pela igreja católica.
 Talvez, para não sucumbir a nenhum destes dois lados, Marty acabou se tornando um diretor de cinema. Assim o seu corpo físico estaria livre do dilema entre escolher entre o céu e o inferno. Contudo a alma de Scorsese seguiu fascinada e dilacerada tanto pelo sagrado, quanto pelo profano.
 Como se isso ainda não bastasse, a juventude de Scorsese e a sua escolha profissional transcorreram durante um dos períodos mais sediciosos e ambíguos da história norte-americana, os anos 1960 e começo dos 1970, período marcado a ferro e fogo na alma do povo americano por guerras, contradições e revoluções de todos os tipos, uma época em que o próprio Estados Unidos viveram bifurcado entre o céu e o inferno. Para completar, Scorsese (como vários de sua geração) se tornou um adepto de drogas pesadas.
  Creio que tenha sido o caldeirão na mente de Scorsese aonde tudo isso ferveu que o fez querer implodir a sua carreira e que também tenha sido neste mesmo caldeirão que ele deu vida a Touro Indomável.
  Um dos grandes clássicos do cinema norte-americano de todos os tempos, Touro Indomável costuma se revezar com o seminal cult cyberpunk, Blade Runner, de Ridley Scott, nos topos das listas dos melhores filmes da década de 1980.
  Com base na fascinante e tempestuosa trajetória do boxeador nova-iorquino Jake La Motta narrada pelo próprio (em parceria com Joseph Carter e Peter Savage) em um romance autobiográfico, Scorsese transporta para o universo explosivo e sangrento dos ringues de boxe toda a complexidade dos dramas shakesperianos, dissecando sem nenhuma sutileza toda a paixão, força, violência e desgraça que são imanentes a todos nós, pobres seres humanos e que podem tanto nos levarem para o topo da glória, quanto para, no instante seguinte, nos jogarem nos abismos da degradação humana.
 A exemplo dos personagens de Hemingway --- homens fortes,  rudes e implacáveis, mas com as almas feitas em frangalhos pelas vicissitudes humanas ---, La Motta é um guerreiro frio e calculista, um bárbaro urbano cuja armadura de truculência esconde toda a sua carência afetiva e dificuldade em se relacionar com o mundo e as pessoas a sua volta. Um homem que espezinha sadicamente o irmão que o idolatra justamente porque não consegue demostrar de forma altruísta o quanto o ama e necessita deste. Um marido que de tão faminto pelo amor de sua esposa, desenvolve por esta um ciúme brutal e possessivo que beira a psicopatia, que esmurra a amada com a mesma força dos socos que desfere em seus adversários no ringue para, logo em seguida, se ajoelhar aos pés desta como uma criança desesperada implorando por perdão, por compreensão, demonstrando que no fundo o  mais ferido e vitimado pelas suas explosões de violência não são o seu irmão e a sua esposa, mas ele próprio. Desta forma La Motta explicita, não apenas a sua, mas a fragilidade de quase todos os homens (pois Ranging Bull é um filme essencialmente masculino, porém nunca machista) que se escamoteia por detrás  de quilos de músculos imbatíveis e ossos inquebráveis.
 São estas metáforas amargas e extremamente abrangentes que tornam Raging Bull um filme não sobre boxe e pugilistas, mas um filme sobre a própria vida, sobre pessoas comuns como eu e você.
 Como os mais célebres exemplos tanto do cinema quanto da literatura, Raging Bull é uma obra de caráter universal.
   Jake La Motta nos mostra que as nossas próprias vidas são ringues de boxe, arenas de gladiadores cuja  batalha é diária e incessante, aonde um único movimento em falso, um único golpe desferido ou sofrido podem afastar para sempre de nós as pessoas e aquilo que mais amamos e cobiçamos, nos marcando com cicatrizes profundas que carregaremos para o resto de nossa existência e fazendo a diferença entre a vida e a morte.
 Como de praxe, Martin Scorsese transforma este épico mundano em um espetáculo visual atordoante, uma explosão de som e fúria para deixar cinéfilo babando, se perguntando embasbacado: " Como foi que o Scorsese conseguiu fazer aquilo"?
 A começar pela própria abertura do filme, com o personagem de De Niro ensaiando movimentos de boxe que se assemelham a um balé em um ringue vazio e esfumaçado com flashes de máquinas fotográficas explodindo ao fundo através da lente de uma câmera ultra-lenta em uma película preto & branco e ao som da melancólica e belíssima trilha do ex-roqueiro Robbie Robertson. É realmente de provocar arrepios.
 Aliás, quase todo o longa foi rodado em P&B com uma fotografia que parece ter sido levemente envelhecida, talvez para passar a sensação de que o filme não apenas "se passasse" na década de 40, mas que houvesse realmente sido realizado nesta época.
 Apesar de não ser classificado como um filme noir ou neo-noir como outras duas produções de Scorsese, A Ilha do Medo e Táxi Driver, a película P&B, a ambientação nos anos 1940, os cenários esfumaçados e decadente, o forte contraste entre luz e sombra de algumas sequências e a ambiguidade radical dos personagens fazem de Raging Bull um legítimo produto hard-boiled.
 A direção de arte noir, aliás, com arquiteturas externas e internas de prédios, casas, boates, ringues de boxe e bares decadentes típicos da década de Phillip Marlowe é tão obsessivamente detalhada que as vezes parece que estamos olhando para uma pintura em um quadro e não para algo físico.
 Já as sequência de luta são um show a parte e somente elas já dariam um filmaço. As câmeras de Scorsese e do fotógrafo Michael Chapman acompanham todos os movimentos dos boxeadores dentro do ringue como se fossem suas próprias sombras com tomadas e cortes  exatos e pontos de vista que ficam mudando incessantemente de um lutador para o outro. A violência em câmera lenta, com close-ups extremos do sangue jorrando de feridas abertas, provocam incômodo até no mais durão dos espectadores.
 O filme recebeu oito indicações para o Oscar e venceu duas: uma de melhor ator para De Niro (em um  dos prêmios da categoria mais merecidos de todos os tempos) e outra para a edição (precisa como um relógio suíço) de Thema Shoonmaker (esposa do grande e falecido cineasta Michael Powell).
  Raging Bull é um daqueles filmes que mudam a vida da gente para sempre, nos maravilhando e nos fazendo refletir. E é principalmente um daqueles filmes que fazem com que o cinema seja realmente reconhecido como a sétima arte.
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LUZ & SOMBRA

"Aquele que de entre vós está sem pecado, seja o primeiro que atire pedra contra ela".
-Evangelho de São João, cap. 8 (vs. 1.11)

"Eu vejo um homem adquirindo uma mulher a venda, sim a venda
 Tento achar a resposta , porque ele compra a mulher  e não conquista
Oh mulheres imundas vocês nunca ficam sozinhas".
 Este trecho da celerada e sexista, porém desoladamente realista canção "Dirty Women" da ancestral banda de heavy metal "Black Sabbath", resume dos pés a cabeça tanto as vidas das garotas de programa em geral, quanto a da protagonista (baseada em uma pessoa real) do filme "Bruna Surfistinha" (Brasil, 2011).
 O resumo de uma vida feita de  ambiguidades radicais, aonde amor, ódio, prazer, repulsa, riqueza e miséria andam de mãos dadas, se misturam, escamoteiam-se uns aos outros. Uma vida e um mundo em que se é ao mesmo tempo esfuziantemente popular e devastadoramente solitário, uma pessoa que se divide entre o oito e o oitenta o tudo e o nada.
 A uma primeira vista o filme "Bruna Surfistinha" parece ser apenas um filme sensual e provocante (que é como ele foi vendido), unicamente destinado a excitar o público masculino e servir como instrumento para um dos maiores símbolos sexuais brasileiros (a atriz Déborah Secco) destilar ainda mais o seu poderoso sex-appel.
 Porém, basta um olhar um pouco mais aguçado (no caso dos homens, isso quer dizer assisitir ao filme com a "cabeça de cima" e não com "a de baixo") e o espectador se verá cara-a-cara com um drama extremamente pesado e pungente, que tem pouco de sensual e excitante e muito de triste e amargo.
  O diretor Marcus Baldine (mais um cineasta nacional para se ficar de olho) construiu no filme uma falsa narrativa luminosa e sexy, que serve apenas como camuflagem para uma história soturna.

 
  Livre dos grilhões da teledramturgia brasileira (uma verdadeira usina de preguiça mental, aonde os atores parecem sempre representar a mesma caricatura), Deborah Secco dá o sangue para interpretar o verdadeiro turbilhão de emoções pelo qual passa o seu personagem, dominando com igual desenvoltura todos os aspectos da personalidade da figura dramática, que vão se alterando bruscamente durante o desnrolar do filme: de adolesente tímida a filha rebelde, de prostituta iniciante a piranha devoradora de homens.
  Essa alteração alucinante de nuances dramáticas  pelo qual passa a protagonista é também imitado pela própria estrutura do longa que vai do singelo ao brutal, do drama ao cômico e do bizarro as lágrimas mais veloz do que uma ejaculação precoce.
 As caracterizações dos demais personagens (a maioria também prostitutas e outras categorias de outsiders) correm cabeça-a-cabeça com a complexa interpretação de Déborah Secco, principalmente a da comediante Drica Moraes no papel de uma virulenta e ríspida cafetina, que comanda o seu bordel com mão de ferro. Todas os trejeitos, modos, gírias e dramas particulares típicos das garotas de programa também são retratados e revelados no filme   com desconcertante realismo, o que evidencia a apurada pesquisa que os realizadores  do longa devem ter feito no mundo (e no submundo) da prostituição.
 O desenho de produção também  mostra com extrema fidelidade e detalhamento, todos os ambientes barra-pesada que servem de cenário para o filme desde o prostíbulo vagabundo aonde a protagonista inicia a sua carreira de "vida fácil", passando pelo suntuoso apartamento em sua fase de acompanhante de luxo sedenta por fama e riqueza, chegando até ao repugnante inferninho, aonde Bruna despenca em sua decadência quando se torna uma cocainômana inveterada.
 Resumindo: "Bruna Surfistinha" é um filme que segue o  mesmo padrão de qualidade da maioria das produções nacionais desde a retomada: direção criativa, elenco afiado, texto bem escrito e uma ousadia visual digna de cinema de primeiro mundo.
 Outro aspecto legal desta obra é a sua trilha sonora,  ao invés de, como na maioria dos filmes brasileiros recentes com temática urbana agressiva, ter uma trilha sonora entupida com hip-hops enjoativos e insuportáveis funks, "Bruna Surfistinha" apresenta uma trilha quase que predominantemente "rocker", aonde  bandas clássicas do gênero como "The Zombies" e "Rolling Stones" se alternam com outras mais recentes: (Holger, Radiohead, etc).
  O filme também parece querer subliminarmente ( ou talvez até inconscientemente) comentar o impacto radical que as novas tecnologias de informação podem provocar nas vidas de pessoas comuns nestes tempos de "Wikileaks" e de quando "simples" sites de relacionamentos provocam insurreições e derrubam governos por todo o oriente médio, tempos em que um simples toque em um teclado de computador pode transformar radicalmente uma vida, tanto para o bem, quanto para o mal.
 A personagem principal de "Bruna Surfistinha" é baseado no livro autobiográfico "O Doce Veneno Do Escorpião" escrito pela ex-garota de programa e ex-atriz pornô Raquel Pacheco, que se tornou uma celebridade nacional, digna de atrizes globais, ao começar a postar em seu blog as suas experiências sexuais com seus clientes.
  E são os desbafos da protagonista em seu cyberdiário (aonde escancara todas as parafilias e hipocrisias de seus clientes, compostos em sua grande maioria, por respeitáveis homens de negócios) que costuram, de forma inventiva, praticamente todas as cenas do filme.
   A sequência  final de "Bruna Surfistinha" é de uma interatividade impressionante com o espectador, que se assistiu ao filme com um mínimo de atenção perceberá que acabou de ver não uma história sexy sobre uma mulher vulgar, mas sim uma saga sobre amizade, tristeza, amor e superação, protagonizada por uma mulher decidida que teve a coragem de penetrar na entrada do túnel abissal do lado escuro da alma humana (a sua própria e a de  alheios) e emergir do outro lado viva e ainda mais forte do que antes.
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The Machine Girl + Tóquio Gore Police=Escatologia Pouca É Bobagem




 Certa vez o maior gênio da sétima arte nipônica, Akira Kurosawa, reclamou que o cinema japonês era lento demais, parado demais.
 Bem, o falecido mestre Kurosawa não teira do que reclamar, pelo menos em termos de ritmo, de "The Machine Girl (Kataude Mashin Garu/Japão, 2008) de Noburu Iguchi e de "Tóquio Gore Police" (Japão, 2008) de Yoshihiro Nishimura.
 Exemplares máximos e recentes do cinema de horror japonês (considerado o mais arrojado, radical e inovador da atualidade), os filmes de Iguchi e de Nishimura respectivamente, são duas das obras mais delirantes, desenfreadas, criativas e intensas do cinema fantástico dos últimos anos. Tanto em termos de visual quanto de narrativa.
 "The Machine Girl" de Iguchi, conta a história de uma estudante adolescente meiga e pacata, mas que se transforma em uma máquina de guerra viva quando seu irmão é assassinado pelo filho de um chefão da yakuza.
  A partir daí o filme alucina completamente como se fosse uma locomotiva desgovernada, injetando litros de adrenalina nas veias do espectador e fazendo uma festa para os olhos de fãs de horror escatológico, filmes de artes marciais, humor dark e cenas de ação radicais.
 Falar mais estraga, basta dizer que o filme tem referências a "The Evil Dead" e a "Planet Terror", ao mesmo tempo em que supera a ousadia visual destes dois.
 "The Machine Girl" não deve ser assistido como a um filme convencional e sim como a um "desenho animado feito com atores de carne e osso" ou como a uma "história em quadrinhos viva". Igual aqueles animes e mangás estilizadíssimos, em que as tramas desrespeitam completamente as leis da lógica e da física em nome do impacto visual. Onde os personagens levitam em pleno ar enquanto se degladiam em lutas marciais de golpes precisos que se assemelham aos movimentos de um complexo balé ultracoreografado, das armas gigantescas de design barroco, das metralhadoras que disparam rios de balas e dos corpos desmembrados que jorram oceanos de sangue.
 Seguindo a mesma linha anime/HQ live-action de "The Machine Girl", está "Tóquio Gore Police". E se existe um filme capaz de superar "The Machine Girl"em todos os quesitos citados até agora, é este.
 Dirigido por Yoshihiro Nishimura, que havia trabalhado como técnico de efeitos especiais de "The Machine Girl", "Tóquio Gore Police" é paulada pura, que não deixa o espectador respirar do primeiro ao último minuto de exibição.
 Remake de "Anatomia Extinction" do próprio Nishimura e vencedor do prêmio de melhor filme asiático no "Fant-asia Film Festival", "Tóquio Gore..." é um híbrido de horror grand-guignol com ficção-científica hardcore (lembrando muito os primeiros filmes de David Cronenberg).
 O filme já começa a mil com um "Letherface turbinado" devorando as entranhas de um cadáver estripado e detonando um grupo de tiras em uma Tóquio futurista e decadente, que fervilha com uma violência incontrolável, onde soldados sanguinários e sádicos de uma polícia, que agora pertence a iniciativa privada, se dilaceram com mutantes homicidas e enlouquecidos alterados pela engenharia genética.
 O capitalismo e a mídia, cada vez mais oportunistas, sensacionalistas e famintos por lucro, se aproveitam da situação infernal, bombardeando os meios de comunicação com produtos de consumo de massa que incentivam as práticas da violência e do suicídio e com noticiários virulentos para saciar a sede de sangue cada vez maior da população.
 Nesse cenário caótico e desolador vaga Luca, uma policial-samurai exterminadora de mutantes, envolvida em uma investigação particular para exorcizar os demônios de seu passado.
 Entre as várias cenas inesquecíveis que devem entrar para a galeria das mais antológicas dos filmes fantásticos e do cinema maldito, destacam-se: a da carcaça humana feminina viva que urina nos rostos dos frequentadores de uma boate bizarra, o duelo entre Luca e uma mutante-ciborgue-sadomasô, que possui lâminas afiadas no lugar de pernas e braços, uma prostituta que leva o termo "vagina dentata" as últimas consequências e o sangue que esguicha sem parar dos cotos dos braços amputados de um incauto (que ousou tocar nas nádegas de Luca), formando uma chuva de hemoglobia ao redor de si mesmo.
 Tudo isso é mostrado com uma edição de imagens estilosa, dinâmica, clipada, tornando as cenas de terror, ação e violência ainda mais furiosas e pontuada por uma trilha sonora heavy metal, repleta de guitarras saturadas e beats pesados de bateria.
 Mas o mais legal em produções como "The Machine Girl" e "Tóquio Gore Police" é a total ausência de ética e de bom mocismo. Não há nem uma gota do moralismo babaca da maioria dos filmes ocidentais.
 Aqui não existe "o mocinho" e "o bandido", existe apenas o "menos cruel". É horror splatterpunk na veia:sujo, direto, mal-comportado, subversivo e perturbador, embrulhado com a estética de elementos da cultura pop (mangás, animes, vídeo-games, etc).
 Se você tem a mente aberta e o estômago forte vá fundo em "The Machine Girl" e em "Tóquio Gore Police". Caso contrário vá assistir ao Tom Cruise jogando vôlei sem camisa na praia em "Top Gun" na "Sessão da Tarde".
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Fúria de Titãs: O Remake (O Dia Em Que O Stop-Motion Venceu A Computação Gráfica)

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A Criatura Da Destruição (Um Conto De Fadas Noir)

"Quando ela terminou sua refeição, o lobisomem disse":
--Está cansada  da caminhada minha netinha? Então
tire as suas roupas, venha para a cama e eu a aquecerei.

Chapéuzinho Vermelho (Uma versão primitiva)


 A alguns anos atrás Stan Winston, um dos mais célebres e visionários criadores de seres fatásticos da história do cinema e um verdadeiro esteta da arte dos efeitos especiais/visuais, comprou os direitos de títulos de várias produções de horror e ficção-científica B de produtoras especalizadas em fitas do tipo. Entre elas estava "She Creature" um clássico de 1956, dirigido por Edward L. Cahn e bancado pela produtora AIP (Amerian International Picture). Um estúdio independente criado pelo ex-gerente comercial James H. Nicholson e por um advogado do ramo do entretenimento chamado Samuel Z. Arkoff. Entre os produtores da AIP estava o futuro megaprodutor de filmes B, Roger Corman.

  As décadas de 30, 40 e 50 foram importantíssimas para o cinema fantástico, pois foi nestas décadas que foram estabelecidos muitos dos principais cânones e raízes das produções de horror e ficção-científica, tais como: o monstro alienígena devorador de seres humanos, a lascividade dos vampiros, o licantropo torturado, o visual gótico, os primeiros passos do cinema trash/exploitation e do terrir, etc. Elementos estes que foram se reciclando e se modernizando através dos tempos.
 A sacada de Winston era clara: através de remakes dar um banho de tecnologia e realismo a estas  velhas produções que hoje, graças ao avanço cada vez mais gradual dos efeitos especiais, se tornaram ingênuas e até risíveis.
  Foram com estas intenções que foi parida a refilmagem de "She Creature".
  Esta versão moderna do longa de 1956 é muito interessante, pois o diretor contratado por Winston, Sebastian Gutierrez ( do suspense policial "O Beijo Da Traição"), conseguiu a proeza de atualizar o original para os novos tempos sem sacrificar o clima dos velhos filmes de monstros da década de 50, é quase como se dois filmes, um antigo e um moderno, convivessem na mesma película ao mesmo tempo.
 Para começar o diretor ambientou o remake no começo do século 20 (muitos dos filmes de horror e ficção-científica das décadas de 30, 40 e 50 se passam no começo do século 20 ou no século 19, como "Drácula" de Todd Browning e "Frankestein" de James Whale), a abertura do do filme foi rodada com uma "envelhecida" fotografia P&B e os cenários quase todos sombrios e mal iluminados (porém perturbadoramente reais, ao contrário dos sets de "papelão", dos antigos filmes de horror), com cantos e extremidades sempre ocultos pela mais profunda escuridão, passam uma impressão de que a qualquer momento algum ser infernal vai saltar  das sombras e dá ao filme um clima de "gótico até os ossos".
 "She..." se passa em 1905 e tem início em um circo de aberrações aonde o casal de charlatões Angus (Rufus Sewell) e Lily (Carla Gugino), enganam o público, cobrando para este poder assistir a monstros e  mutações fake (na verdade atores fantasiados). Mas a vida do casal (principalmente a de Lily), sai fora dos eixos quando, através de um marinheiro ancião, encontram uma inacreditável sereia de verdade.
  Apesar de homenagear as velhas produções góticas de Hollywood, o verdadeiro mundo explorado pelo remake de "She Creature" é o das lendas e dos contos de fadas. Mas não aqueles contos de fadas pop  imortalizados por escritores de literatura infantil e pelas animações da Disney. "A Criatura da Destruição" penetra nos mitos esquecidos, nos protótipos das lendas, que devido aos seus caráteres  bizarros, subversivos e depravados que utilizavam metáforas para discutir sobre o lado mais negro do ser humano foram sumariamente distorcidos  e pulverizados da cultura popular e enterrados nas profundezas de nossas psiquês.
  Só recentemente essas lendas originais e selvagens foram desenterradas das catacumbas por escritores como os ingleses Allan Moore e Neill Gaiman e por cineastas como o mexicano Guillermo Del Toro.
  Seguindo a linha destes ousados e geniais artistas citados acima, Stan Winston e Sebastian Gutierrez tranformam a sereia, popularmente conhecida como um personagem infantil, em uma besta sanguinária, animalesca e implacável, mesmo quando ainda se encontra em sua forma humana feminina e sedutora.
 O cenário em que a maior parte da trama se desenrola (um barco navegando em mar aberto) é tão sinistro quanto a própria sereia e ponto de parecer quase uma extensão do organismo do monstro. Temos  a certeza absoluta de que ninguém vai sair vivo dali, pois tem-se a impressão que o interior da embarcação é o interior das vísceras da criatura e de que todos ali já estão condenados, apenas aguardando o momento de serem digeridos pelo estômago do monstro.
 Essa mistura precisa de horror com suspense imbuída ao filme causa no espectador uma grande sensação de desconforto.
  Gutierrez mantém essa tensão carnívora até o final do longa, costurada por cenas de grande beleza plástica (quando eu cito a palavra "beleza", estou me referindo unicamente ao aspecto de esmero técnico do filme), como em uma tomada tipicamente "noir",   em que Lily acende um cigarro na mais completa escuridão, que vai provocando uma crescente "roda de luz" ao redor do rosto da personagem, emoldurado por trevas tão densas que são quase palpáveis, lembrando pinturas simbolistas como as de William Blake.
  É Justo também creditar o clima dark/gótico do filme a sua trilha sonora simultâneamente sinistra e sensual, lembrando a soundtrack que Jerry Goldsmith compôs para Instinto Selvagem (Basic Intinct, 1992) de Paul Verhoven.
  A sereia foi criada pela equipe de Winston através do que parece ser um mix de diferentes técnicas de efeitos especiais combinados entre si (animatrônicos, make-up e computação gráfica). Versão high-tech do lendário Ray Harryhausen, Stan Winston (como em todos os seus filmes ) imprime a criatura o seu padrão de qualidade característico em termos de verossímilhança e detalhamento obssessivos. Na fase  em que o monstro exibe a sua faceta mais crua e sevagem, a mente doentiamente imaginativa de Winston não perde em nada para, por exemplo, as obras mais insanas do artista plástico gótico-futurista H.R.Giger.
 Mas a maior parte do horror e da ação de "A Criatura Da Destruição", se passa dentro da cabeça do espectador. A exemplo do escritor H.P.Lovecraft (1890-1937), (outro que também devorava vários tipos de lendas primitivas assustadoras e depois as regurgitava na forma de uma mitologia inteiramente nova), os realizadores do filme lançam "apenas" as sementes do medo. Sementes saudáveis o suficiente para produzirem todo um novo e aterrorizante mundo, dependendo para isso apenas do solo em que forem plantadas (leia-se o grau de imaginação do espectador).
  Aventure-se pelas imagens sinistras de "A Criatura Da Destruição", para aqueles (independente da idade) que possuem um coração velho e uma mente burocrática, este irá parecer apenas "mais" um filme de horror mediano e chato. Mas para aqueles dotados de um coração juvenil e uma imaginação irrequieta, descobrirão uma pequeno diamante que tornará as suas noites e os seus sonhos mais aterrorizantes e mais emocionantes.

 "Sinistro é tudo aquilo que deveria permanecer oculto, mas vem a luz."
  Shelling

                                                                                                              
   Agradecimentos:
   Estou muito grato aos membros da
  comunidade do "Facebook" "Os Vivos Serão Devorados",
  que me fornecaram informações vitais para a elaboração desta
  postagem.
 

                                                                                                   
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Dissecando Tarantino

 Finalmente, o retrógado mercado editorial brasileiro publica a primeira (e creio eu única até agora) obra teórica sobre Quentin Tarantino.
 O cara dispensa apresentações para qualquer um que curta e tenha um mínimo conhecimento sobre a sétima arte.
 "O Cinema de Quentin Tarantino" (Papirus Editora) redigido em alto nível pelo doutor em cinema (pela prestigiosa USP), cineasta e professor de direção em especialização em cinema  da Unisinos Mauro Baptista, apesar de curto (143 páginas) é bastante denso em informações e curiosidades sobre este singular cineasta americano, que consegue acasalar, sem nenhum conflito, cinema hollywwdiano blockbuster com as mais profundas raízes do cinema underground guerrilheiro. Qual outro diretor de cinema que você conhece que consegue arrastar astros milionários (como Brad Pitt e John Travolta), para filmes com repugnantes censa de violência explotation editadas dentro de complexíssimas e sofisticadas narrativas de cinema nouvelle vague?
   E Baptista consegue decodificar eloquentemente toda a emaranhada teia de influências e técnicas cinematográficas dos mais diversos estilos e nacionalidades que compõem os filmes de Tarantino e que graças a essas carcterísticas formam um das filmografias visualmente mais arrojadas e originais do cinema moderno.
  "O Cinema de Quentin Tarantino" não é uma biografia , tampouco um livro sobre fofocas de celebridades.
   Baptista se concentra unicamente no aspecto profissional deste grande cineasta, principalmente no âmbito técnico de sua obra, esmiuçando e se debruçando sobre cada aspecto do processo de filmagem de todos os filmes de Quentin Tarantino, de "Cães de Aluguel" (1992) a "Bastardos Inglórios" (2009) . Revelando curiosidades fascinantes para aqueles que querem penetrar a fundo tanto na mente apaixonadamente cinemática de Tarantino, quanto nas fascinantes técnicas cinematográficas. Um exemplo disto é quando Baptista revela que Quentin elaborou um visual tão rico e diversificado para "Kill Bill" (2003/2004), que o cineasta pensou primeiramente em contratar três iluminadores para fotografar a saga da "Noiva".
  O único porém do livro (creio eu que devido a problemas editoriais) é que, a partir de "Kill Bill", o autor aborda muito rapidamente o restante da obra do cineasta. Mesmo assim, consegue dar o seu recado a contento. No entanto fica no livro aquele velho sabor de "quero mais"
  Mesmo com este deslize, "O Cinema de Quentin Tarantino" é fundamental e imperdível não apenas para aquele  público que vê cinema  como um passatempo ou hobby, mas principalmente para os cinéfilos, aqueles que estão sempre ávidos por novas curiosidades e informações sobre todos os aspectos fílmicos em geral, como estudantes de cinema e pesquisadores da sétima arte.
  Basta agora torcer, para que as editoras brasileira invistam em mais obras teóricas não apenas sobre Tarantino, mas também sobre vários outros mestres do cinema mundial.
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Piranha (Sexo, Suor, Sangue E Um Breve Comentário Sobre Medo E Nojo)

 Em primeiro lugar vamos deixar uma coisa bem clara: não existe qualquer tipo de obra de horror, seja ela na forma de livros, filmes, HQs, games ou seja que mídia for, que seja bonita e altruísta.
 Acreditar nisso é algo tão idiota e ingênuo quanto achar que se pode fazer uma guerra sem mortes ou de que existe honestidade e ética na política brasileira.
 E não adianta, por exemplo, vie crítico de cinema (por mais veterano e respeitado que seja este), dizer que tal diretor conseguiu unir "horror com beleza", por que este tipo de comentário é pura balela.
 Filme de horror de verdade não tem sentimentos, pudor ou moral, é algo tão frio e sem alma quanto o coração de um zumbi.
 E acima de tudo, a raíz de todo o tipo de horror, seja ele real ou fictício, é o medo. E o medo não tem absolutamente nada a ver com a beleza. pode apostar a sua vida nisso.
 O ser humano sempre conviveu com o medo e com o horror. Eles são um mal necessário para a nossa própria sobrevivência, tão necessário quanto nos é comer, beber e respirar. Se não fosse pelo pavor e a descarga de adrenalina que este descarrega em nosso sangue ao menor sinal de perigo para nos alertar e nos preparar para correr ou lutar, a nossa espécie já teria se extinguido da Terra a milhares de anos atrás.
 E aquele mesmo medo primitivo e crú que o Homo habilis sentia ao ouvir os berros das feras oriundas das profundezas das florestas trevosas e desconhecidas, nos foi transmitido através de nossos antepassados geração após geração, até infectar o nosso próprio DNA.
 Apenas trocamos as bestas pré-históricas por assassinos seriais, guerras apocalípticas, aliens carniceiros, aberrações genéticas mutantes e inteligências artificiais sanguinárias.
 O problema, é que através dos séculos, as sociedades humanas e os seus meios de comunicação, com suas sedes insanas por lucro fácil conduzidas por um capitalismo (um dos monstros mais implacáveis e ferozes que já existiu entre nós) progressivamente cada vez mais selvagem e descontrolado, estão sempre  tentando adocicar o horror e o medo.
 De Charles Perrault aos Irmãos Grimm, que nos séculos XVIII e XIX respectivamente, banalizaram e humilharam contos folclóricos ancestrais, aterrorizantes e sangrentos ao transformá-los em inocentes e bobocas contos de fadas infantis, até alguns cineastas da atualidade (que não gostam nem entendem nada do gênero "terror") que convertem psicopatas em verdadeiros bufões apatetados em slashers vagabundos e insípidos ou  colocando monstros seminais, que a séculos aterrorizam a escuridão de nossos pesadelos, como os licantropos e os vampiros como protagonistas de filmes românticos feitos para adolescentes acéfalas, tudo sempre com o intuito de conseguir oferecer (e vender) o medo e o horror para um público cada vez mais amplo.
 Contudo, os verdadeiros (e poucos) aficionados do macabro e da desgraça, aqueles que realmente gostam de encarar o abismo e de sentir a adrenalina correndo pelas suas espinhas não se deixam enganar, só saindo de suas catacumbas para apreciarem alguma nova obra do gênero quando esta realmente honra a palavra "horror".
 E o horror legítimo e excitante que nossos antepassados primevos sentiam, voltou a ferver nas células dos fãs do grotesco quando este penetraram na pretidão das salas de cinema (nada mais do que uma versão high-tech da velha caverna aonde os antigos narravam suas histórias de medo ao redor da fogueira) e assistiram "Piranha."
 "Piranha" pertence a um sub-gênero chamado "gore-splatter", também conhecido como "horror hardcore" ou "cinema extremo" e é tão radical que chega a assustar até mesmo os fãs de cinema de horror mais tradicional.
 Inaugurado em 1963 com o longa "Gorefleish", dirigido por Hershell Gordon Lewis (um médico que resolveu jogar nas telas dos cinemas toda a putrefação da carne humana e a bizarrice teratológica que via no dia-a-dia de sua profissão) e turbinado por George Romero em "A Noite dos Mortos-Vivos" (Night of the Living Dead) em 1968, o gore-splatter é conhecido, amado, odiado e perseguido por escancarar da forma mais pornográfica possível toda a violência, perversidade, torpeza e sadismo que se escondem nos recônditos escuros da alma humana.
 "Piranha" também abraça outro sub-gênero da fantasia negra, o "terrir", que surgiu por volta de 1985 com "A Hora do Espanto"(Fright Night) de Tom Holland, atingindo o seu ápice em 1992 com o  fantástico  "Fome Animal"(Brain Dead) de Peter Jackson . O terrir se caracteriza por misturar o humor anárquico, ácido e frenético típico dos filmes do trio ZAZ com banhos de sangue e entranhas e monstruosidades absurdas. Filmes para gargalharmos suando frio.
 Embora não alcance o mesmo patamar de escatologia épica de "Tóquio Gore Police" de Yoshihiro Nishimura ou de "Planeta Terror" (Planet Terror) de Robert Rodriguez, "Piranha" é criativamente intenso e perversamente divertido o suficiente para saciar a sede de sangue dos exigentes fãs de cinema gore-splatter.
 Livremente baseado em um clássico homônimo dos filmes B de 1978, dirigido por Joe Dante (um ex-diretor de "filmes de horror de verdade", que foi capturado, devorado e digerido pelo monstruoso capitalismo até se transformar em um cineastazinho de inocentes "filmes de fantasia para toda a família"),  "Piranha" segue a risca a tradição das antigas produções exploitations (que eram exibidas em drive-ins e cinemas baratos) ao usar apenas um fiapo de roteiro como linha narrativa (durante um spring break, que pode ser definido como uma espécie de "baile funk gringo", jovens tarados e ninfomaníacas seminuas servem de rango para horripilantes piranhas pré-históricas) como pretexto para esparramar na tela cenas de violência espetaculares e inverossímeis e grosseiras, que ultrapassam todos os limites do bom senso em uma orgia de membros decepados, vísceras expostas, mares de sangue e incorreção política a granel.
 Quase todos os personagens do filme são clichs ambulantes imbecilizados, pois em produções gore-splatter os únicos personagens dignos de nota, os verdadeiros "heróis" são os monstros, os maníacos, a besta. Em filmes gore-splatter ou você não for o monstro, será apenas a comida para o monstro.
  Algumas pessoas (inclusive os fãs de cinema de horror mais convencional) podem argumentar que as produções gore-splatter não provocam sustos nos espectadores "apenas" nojo e repulsa, alegando que vísceras a mostra esguichos de sangue e carne putrefata não tem a ver com o medo em si.
 A primeira vista esta linha de raciocínio parece mesmo sensata, mas bastauma investigação mais apurada sobre o assunto, para percebermos que na realidade o que ocrre é justamente o oposto: o asco assusta sim e muito.
 Em "Dança Macabra", o clássico tratado de Stephen King sobre a incisiva influncia do macabro na sociedade norte americana, o escritor descreve que o horror e o medo possuem varios níveis, sendo que o último e mais abissal destes seria o nojo, o asco, a repulsa, a explosão de entranhas fétidas, o jorro obsceno de fluídos corpóreos gotejantes...enfim o paradoxo da violência apelativa, da degradação e da perversidade.
 Como exemplo deste nível de medo e horror , o escritor cita a extraordinária cena em que o filhote de alienígena emerge dos intestinos do personagem interpretado por John Hurt em "Alien o Oitavo Passageiro" (Alien) de Ridley Scott.
 É só pensarmos um pouco para percebermos que esta teoria do mestre King esta correta e precisa: quando nos deparamos com o cadáver em decomposição de algúm animal na rua e sentimos o fedor de sua morte nossa primeira reação é nos afastarmos dali o mais rápido possível. Isso nos é uma reação automática, instintiva, como se nossas pernas se movimentasssem sozinhas para longe do defunto.
 Isso ocorre, porque sabemos que ali não se encontra apenas os restos de algo que não vive mais, ali também espreita a infecção, a doença, o perigo, a morte.
 O frio na espinha que sentimos quando nos encontramos em situações assim é o mesmo que nos atravessa a coluna vertebral quando sentimos o aço frio do cano do revólver de em assaltante em nossa nuca, ou se vissemos caminhando na rua alguém que acreditássemos já estar morto a muito tempo.
 O que sentimos quando nos deparamos com algo muito nojento e repugnante é medo em seu estado mais puro.
 E Alexandre Aja, o diretor francês que dirigiu esta nova versão de "Piranha"é um cineasta que entende de medo e nojo como poucos. Neste filme, Aja faz exatamente aquilo que os fãs de cinema extremo querem ver: cenas asquerosa e repulsivas filmadas com o máximo de imaginação e grande domínio técnico.
 Auxiliado pelos fantásticos efeitos especiais da dupla Greg Nicotero e Howard Berger, os mais legítimos herdeiros de Rick Baker na criação de monstruosidades e deformidades físicas e os únicos americanos que se igualam aos mestres italianos e japoneses de efeitos visuais gore, Alexandre Aja transfere para um ambiente aquático os mais celerados clichês do gênero.
 É notável, por exemplo, a sequncia em que o plicial vivido por Ving Rhames tritura um bando de piranhas com as hélices do motor de uma lancha. Trata-se da versão marinha da clássica cena do personagem que, acuado por um bando de zumbis famintos por carne humana, surta e armado com uma truculenta motoserra despedaça os mortos-vivos em um enlouquecido banho de sangue.
 As piranhas, por sua vez, parecem sentir tanto ódio e desprezo pela humanidadequanto Jason Vorhees e Michael Myers e são tão sádicas e implacáveis quanto os índios antropófagos  dos giallos  sobre canibalismo.
 Vale ressaltar também o uso de imagens tridimensionais em "Piranha". Ao converterem, durante a pós-produção, as cenas de 2-D convencional para o 3-D digital, os realizadores do filme usaram os recursos deste novo formato da forma mais apelativa e vistosa possível, como bem cabe a uma produção maldita como esta: corpos nus de jovens devassas são "esfregados" na cara dos espectadores como se fossem hologramas eróticos, para logo em seguida serem triturados por presas assassinas, braços, pernas, cabeças e órgãos genitais humanos são "espirrados" para fora da tela fazendo quase sentirmos o cheiro do sangue que brota farto dos membros dilacerados.
 Absolutamente cool!
 Agora um conselho para quem pretende ou já assistiu "Piranha": ignore completamente as críticas feitas ao filme por veículos de comunicação ligados a mídia dominante e convenciona ( aqueles que fazem parte dos conglomerados comunicativos como "Globo" e "Abril") e procure informações sobre o filme através de críticos e jornalistas realmente especializados e que entendam a fundo o cinema fantástico e de horror como, por exemplo, os do site "Boca do Inferno" e de blogs e fanzines sobre cultura underground. pois a mídia dominante é extremamente conservadora, cínica e acadêmica não apenas em relação a doutrinas políticas e econômicas mas também com as artes e expressões culturais.
 De resto, respire fundo e mergulhe no mar de sangue e despojos humanos de "Piranha". E não precisa se impressionar tanto assim com as imagens do filme, pois elas não passam de um reflexo (ainda que um tanto distorcido, hiper-realista e metafórico) de nossa própria sociedade.
 afinal, basta olharmos um pouco ao nosso redor, para constatarmos que o mundo em que vivemos é tão ou mais gore-splatter do que os próprios filmes do gênero.