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CANIBALISMO DE SILICONE

  Hype, no jargão cinematográfico, significa a promoção extrema de um filme e está geralmente ligado as superproduções.
 O hype cinematográfico, na maioria das vezes, é uma faca de dois gumes aonde estados de euforia e excitação andam de braços dados com a tristeza e uma decepção raivosa.
 A resposta para isso é praticamente óbvia e quase todo mundo já a conhece: ao se tornarem muito custosos financeiramente os filmes acabam se relacionando mais com as ciências econômicas e exatas do que com a linguagem audiovisual e a sétima arte.
  A equação é simples: quanto mais cara é uma produção cinematográfica mais ela deve vender. É quando o cinema abandona a sua condição de arte e se torna um mero produto.
 As gigantescas e poderosas máquinas de marketing dos grandes estúdios trabalham em suas capacidades máximas inundando o mercado e todos os meios de comunicação com propagandas---na grande maioria das vezes enganosas---e quinquilharias relacionadas ao produto que eles devem nos vender e nos empurrar goela abaixo. Se o "filme" em questão é bom ou ruim é apenas um mero detalhe...
 O mais incrível é que a grande maioria dos espectadores continuam caindo nesta armadilha de muito hype e pouco conteúdo, mesmo após terem sido enganados infinitas vezes pelos executivos tubarões das majors.
  Existe uma outra espécie de hype cinematográfico mais humilde, mas não menos viral, o popular "divulgação boca-a-boca", um hype "artesanal", por assim dizer.
  Geralmente mais associado a produções independentes e de baixo orçamento, que não dispõem de grandes departamentos de marketing para a sua divulgação estes filmes tem que conquistar o seu espaço na raça mesmo, ou seja, eles devem ser realmente bons o suficiente para os seus espectadores saírem tão maravilhados e satisfeitos das salas de exibição a ponto de pararem estranhos na rua apenas com o intuito de divulgar a obra que acabaram de assistir.
  Quase nunca o hype artesanal é propaganda enganosa, afinal de contas, nesse caso, é o próprio espectador comum quem faz a divulgação do filme, ao contrário dos críticos especializados que, muitas vezes, são pagos para incensar uma obra.
 Todavia, as vezes, por mais incrível que pareça, o marketing boca-a-boca também é fraudulento. O que leva  milhares de pessoas a cultuarem bombas cinematográficas já é uma assunto mais complexo e obscuro que envolve questões psicológicas e antropológicas. Nesta postagem se irá analisar uma dessas bombas superestimadas apenas em seu aspecto puramente fílmico. Um desses inacreditáveis casos de marketing artesanal tabajara é Canibal Ferox ( Itália, 1981) de Umberto Lenzi, produção que encerra o amado e odiado ciclo dos filmes italianos sobre canibalismo.
 Em 1980, uma produção cinematográfica italiana chamada Canibal Holocaust sacode o mundo. Herdeiro do polêmico shockumentary, também oriundo da Itália, de 1962, Mondo Cane, Canibal Holocaust, dirigido por Ruggero Deodato, não havia sido a primeira produção italiana sobre canibalismo praticado por selvagens das florestas tropicais, mas era, sem dúvida, a mais grotesca, ousada e original lançada até então.
 Na época, Umberto Lenzi, considerado o pai dos filmes sobre canibalismo e diretor da obra precursora sobre antropofagia O País dos Canibais ( Paese del Sesso Selvaggio, Itália, 1972), se sentiu enciumado com todo o sucesso do filme de Deodato entre os fãs de horror e resolveu dirigir um filme definitivo sobre canibalismo radicalizando ainda mais todos os extremismos e excessos típicos deste subgênero.
 Infelizmente, o tiro de Lenzi não poderia ter saído mais pela culatra. Canibal Ferox ( Itália, 1981) é realmente explícito quando se trata de violência gráfica, mas absolutamente paupérrimo em termos de interpretações de quase todo o elenco e de um clima sério e sombrio que eram qualidades admiráveis na obra de Deodato realizada um ano antes.
 Canibal Ferox parece uma refilmagem de Canibal Holocaust idealizada por um pirralho de quinze anos fã de slashers descartáveis.
 Tudo no filme---a exceção dos efeitos especiais---parece ter sido feito as pressas e sem nenhum tipo de cuidado. As caracterizações e atitudes dos índios canibais amazonenses, apesar de brutais na grande maioria das vezes, são tão caricatas que provocam risos ao invés de medo e repulsa. A edição em alguns momentos é tão mal feita que os seus furos podem ser identificados por uma criança de cinco anos. Algumas cenas, como as matanças e posteriores eviscerações de animais---algo típico nas produções italianas sobre canibalismo---não são apenas gratuitas, são totalmente descabidas e fora de contexto, parecendo cenas de outros filmes que foram enxertadas ali sem a menor explicação e zelo técnico.
 Se Canibal Ferox  fosse um splattestick assumido seria um filmaço, contudo o pior e derradeiro escorregão da obra de Lenzi, aquele que decreta a falência de sua obra é ser um filme que deseja a todo custo ser levado a sério ao mesmo tempo em que não apresenta praticamente nada que lhe sustente alguma credibilidade.
  Não haveria como esperar muito mesmo de um cineasta como Lenzi, que apesar de haver dado o pontapé inicial no ciclo sobre canibalismo do cinema italiano, nunca se mostrou um artesão muito competente. Ele, inclusive,
 foi acusado por Ruggero Deodato de utilizar, sem permissão, em suas obras, vários trechos de filmes do diretor de Canibal Holocaust. 
  Umberto Lenzi, enfim, é um daqueles típicos cineastas de quinta que costumam manchar o nome do cinema de horror e explotation e este seu Canibal Ferox é destinado apenas aquelas pessoas que acreditam que cinema B e apelativo é sinônimo de cinema mal-feito. Pessoas estas, que, pelo jeito, devem ser muitas.

  
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TERROR NA ÓPERA

  Se você curte cinema de horror, tem menos de trinta anos e finalmente se tocou de que a maioria dos filmes de fantasia negra feitos para a sua geração são tão "empolgantes" quanto novela das seis e possuem tanta inteligência quanto os zumbis de The Walking Dead não precisa tentar cortar os pulsos de vergonha por ter apreciado e ter sido enganado por tanta merda.
 A saída para a sua redenção meu filho/filha é simples e está logo ali, nos filmes de terror de um passado, por vezes, nem tão distante assim.
 Eu poderia ficar horas desfiando exemplos de épocas e subgêneros de produções de horror que foram---e ainda são--- realmente relevantes para o cinema macabro, contudo, prefiro ir direto ao ponto e comentar sobre uma obra que sintetiza o que de melhor foi realizado no gênero até então ao mesmo tempo em que cria novas tendências que influenciariam o cinema fantástico.
 Trata-se de de Terror na Ópera (Opera, Itália, 1987) de Dario Argento,  um sofisticadíssimo giallo com um visual tão apurado que neste quesito só encontra paralelos com a trilogia The Evil Dead de Sam Raimi e Arizona Nunca Mais dos Coen Brothers.

 O enredo não poderia ser mais giallo: em Roma, durante uma luxuosa encenação de Macbeth, a protagonista da peça, Beth, (Cristina Marsillach) sofre horrores inimagináveis nas mãos de um, aparentemente, invencível e imprevisível assassino serial sádico até o talo.
 Mas aqui o roteiro importa menos do que a maneira como este foi filmado.
 Rasantes de travellings ultravelozes, imagens que mostram os pontos de vista dos mais variados personagens---humanos e animais---ângulos oblíquos, cores saturadas e alucinógenas, enquadramentos inacreditavelmente absurdos e movimentos de câmera tão tortuosos e diagonais que se tem a impressão que as filmadoras utilizadas para captarem as sinuosas imagens do longa de Argento vão se quebrar a qualquer instante.
 Toda essa audácia técnica de Terror na Ópera tem como unica finalidade multiplicar até o limite do insuportável as cenas de gore absoluto e tensão pérfida do filme. Proporcionando ao espectador a sensação de estar em uma montanha-russa de asco e pavor onde cada movimento estonteante da câmera é suplantado, no momento seguinte, por outro ainda mais enlouquecedor. Para completar, uma trilha sonora lírica/erudita arrepiante conduz o filme praticamente do início ao fim sendo interrompida somente nos momentos mais splatter, quando o sangue jorra farto, sendo substituída por estridentes e barulhentos petardos heavy metal.
 Nascido em Roma em 1940, Dario Argento---diretor, produtor e roteirista---desde o seu primeiro longa, O Pássaro das Plumas de Crista ( Luccello Dalle Piume Di Cristallo) de 1970 vinha de forma decisiva ajudando a cimentar os cânones do giallo, um dos subgêneros mais ousados, ricos e perturbadores do cinema de horror e que tem a sua origem na literatura italiana policial barata da década de 1940---o equivalente carcamano da norte-americana pulp fiction.
 Embora tenha escrito o seu nome a fundo na "carne" do cinema a golpes de facas, bisturis, machados e outros instrumentos perfuro-cortantes através de uma filmografia aterradora e sangrenta, o amplo domínio das técnicas da sétima arte de Dario Argento o coloca acima de qualquer gênero e o emparelha lado a lado de grandes mestres como Hitchcock, Scorsese, Spielberg, David Fincher e Darren Aronofsky.
 Embora, nos últimos anos, Argento esteja um pouco longe do brilho de seus filmes de antigamente ainda é uma ótima pedida para qualquer fã de filmes de horror que queira injetar classe e inteligência ao seu conhecimento sobre o gênero.
 Po-Po-Por enquanto é-é-é só pe-pe-pessoal!
 Até a próxima!
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MÁSCARA DE PELE MORTA

  Das inúmeras obras da cultura pop (livros, filmes, músicas, etc.) que os repugnantes e inesquecíveis crimes cometidos por Edward Gein (1906-1984)---considerado o mais louco serial killer norte-americano de todos os tempos---inspiraram, a sem dúvida mais célebre, bizarra e realista de todas é O Massacre da Serra Elétrica ( The Texas Chainsaw Massacre/ EUA, 1974) produção exploitation perpetrada pelo diretor Tobe Hopper.
 Neste imortal clássico do cinema apelativo a imaginação degenerada de Hopper multiplica Ed Gein em quatro personagens que competem entre si para verem qual atinge os graus mais elevados de brutalidade, depravação e perversidade.
 Trocando o estado do Winsconsin---aonde Gein praticou as suas atrocidades---pelos sertões desolados do Texas, Hopper joga um grupo de jovens alegres e barulhentos---que parecem serem o prato principal dos maníacos do cinema americano---em um deserto de autoestradas abandonadas repletas de carcaças apodrecidas de animais atropelados e margeadas por espeluncas sinistras ocupadas por caipiras com cara de tarados.
 Usando como chamariz a falsa afirmação de que os sórdidos atos de malignidade absoluta exercidos pelos bizarros vilões do filme foram baseados em um caso verídico---uma tática que o cineasta italiano Ruggero Deodato levaria as últimas consequências seis anos depois em Canibal Holocaust (Itália, 1980)---aliada a um estilo de filmagem cru e documental, possibilitou aos realizadores de O Massacre da Serra Elétrica promoverem uma verdadeira orgia sádica de horror visceral e pisicológico comparável ao de Psicose (EUA,1960).
 A tortura---ou alegria---do espectador já começa nos primeiros minutos de filme com uma áspera demonstração de masoquismo insano.
 A partir de então os personagens vão arrastando os espectadores para um fosso cada vez mais profundo e negro de violência e loucura sem limites, explodindo em um clímax que é um verdadeiro Inferno na Terra.
 Até o mais ínfimo dos detalhes, neste filme de Hopper,  parece ter sido meticulosamente planejado para parecer e soar macabro até a raiz. Desde as locações, cenários, sonoplastia, diálogos, monólogos--- várias cenas são pontuadas pelas vozes de DJs narrando em rádios notícias e descrições explícitas de guerras, acidentes e massacres, sugerindo subliminarmente que todo o horror que presenciamos nas imagens do filme nada mais é do que um reflexo do turbulento mundo em que vivemos---e personagens asquerosamente doentios. De toda a galeria de psicopatas monstruosos do filme, sem dúvida, o mais animalesco, indigesto e célebre é o hórrido e desenfreadamente atroz Letherface.  Personagem mítico do cinema de horror, Cara de Couro --- com seu físico avantajado, modos sempre truculentos, avental de açougueiro perpetuamente ensanguentado e a face decorada por rostos humanos escalpelados --- é uma verdadeira fábrica de provocar  pesadelos e repulsa em espectadores mais sensíveis.
 Como era de se esperar, com O Massacre da Serra Elétrica, o diretor Tobe Hopper provocou um grande frenesi e uma revolução no cinema fantástico, e, como acontece com todos os diretores talentosos de filmes de horror, Hopper se tornou um cineasta maldito simultaneamente amado pelos fãs e odiado por seus detratores.
 No início dos anos 1980 o então já mega-famoso e poderoso Steven Spielberg resolveu fazer uma experiência radical e, a princípio, inconcebível, unir o estilo de filmar despudoradamente explotation e cru de Tobe Hopper com a sofisticação high-tech da empresa de efeitos visuais Industrial Light and Magic.
 O resultado, surpreendentemente, deu certíssimo e com Poltergeist (EUA, 1982) Tobe Hopper pode acrescentar mais um clássico a sua carreira e ao cinema de horror, embora neste caso, Hopper teve que dividir os louros meio-a-meio com o diretor de E.T. O problema foi que a partir daí, o "pai" de Letherface ficou com o seu estilo de filmar apartado entre o hardcore e o mainstream, ora pendendo mais para um lado, ora mais para o outro, o que deixou a carreira deste cineasta, que iniciou de forma tão espetacular e original, irritantemente dissonante.
 Contudo, de qualquer forma, mesmo décadas após a sua estréia, dezenas de imitações e remakes dispensáveis, "O Massacre da Serra Elétrica" original continua firme e forte conquistando corações e mentes, revirando estômagos e gelando o sangue de muita gente pelo mundo afora.
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METAL DE CARNE E SANGUE

 Se você é um daqueles que já está de saco cheio  desse suposto "heavy metal moderno", chamado new metal e de seus abomináveis vocais limpos e saudáveis de boy bands; se você já não aguenta mais ver um dos gêneros musicais mais arrojados, subversivos e chocantes de todos os tempos afundar na lama da mediocridade e da burocracia musical, por meio de bandas de pseudo-heavy metal como Korn e Limp Bizkit; ou se você tem vontade de dar uma saraivada de .50 mm em um aparelho de som, toda vez que escuta emanar desse sonoridades insanamente legais, como trash metal e, até mesmo, a brutalidade sanguinária do death metal misturados com gêneros absolutamente antagônicos ao peso musical, tais como o hip-hop melódico e o techno pop, então, cara, continue a ler esta matéria e a banda sobre a qual essa discorre.
 Em 1984, é parido, na Suíça, o Celtic Frost, uma das bandas precursoras do black metal, que, por sua vez, é um dos sub-gêneros de metal extremo mais truculento, macabro e imune ao "politicamente correto" que já existiu.
 Diretamente influenciado pelas raízes mais primitivas e puras do heavy metal, como Black Sabbath, Judas Priest e Venon, o Celtic Frost, fazendo jus a estes seus antepassados macabros e satânicos, estréia com o disco Morbid Tales, que alguns críticos qualificaram como "o disco perfeito para você usar se quiser aterrorizar alguém".
 O Celtic Frost, em 1985, marca a ferro, a fogo e à sangue a sua marca na história do heavy metal com Emperors Return e To Mega Therion, trabalhos que imprimiram a banda o status de lenda da música extrema.
 Infelizmente, em 2008, o Celtic Frost foi para a sepultura, encerrando os seus trabalhos...contudo, um de seus pedaços originais, o demoníaco vocal/guitarrista Tom Warrior, ainda teimava em continuar respirando e vagando pela Terra para aterrorizar a nós, pobres mortais.
  Triptycon, a nova banda de Tom Warrior, formada por ele, também na Suíça, em 2008, e que lançou seu primeiro disco, intitulado Eparistera Daimones, em 2010, parece um Celtic Frost recém- ressussitado, um zumbi putrefato, porém transbordante de energia mórbida e faminto por carne e por medo humanos.
 Enquanto  bandas de metal moderninhas, como o Slipknot, parecem ter medo de irem até o fundo do poço do macabro e do lado escuro do ser humano, sempre aliviando o seu som através  da alternância de berros guturais com vocais limpos e, vez por outra, refreando a pegada death/black metal com ritmos mais pop e comerciais. o Triptykon, por sua vez, não tem medo de ser assustador, de ser um trem fantasma desgovernado de horror, que arrasta o ouvinte dos primeiros aos últimos segundos do disco, sem interrupções, as profundezas de um lamaçal de pavor gótico absoluto.
 Se a sonoridade do Slipknot, Korn, System of  a Down e outras da turminha do new metal trazem à lembrança do ouvinte cenas de recentes slashers holywdianos carentes de sangue e imaginação, que só assustam a filhinhos e filhinhas de papai, o Triptykon segue uma maré completamente oposta, indo buscar inpiração para as suas músicas nos realistas e perturbadores filmes de horror das décadas de 1980 e 1970, como O Exorcista, A Profecia, Hellraiser, Alien e as produções de cineastas como Dario Argento.
 Porém, são as imagens gélidas dos clássicos imortais da literatura fantástica gótica, como as obras de Poe, Stocker e Lovecraft que mais vão se entrelaçando como serpentes constritoras em nossos neurônios na medida em que vamos sendo empurrados pela compacta massa sonora (que parece uma parede de aço maçiço que despenca sobre nossas cabeças) das guitarras de Tom Warrior e V. Santura, em direção às entranhas dos mais genuínos black metal e doom funeral metal.
 Outro ponto (muito) a favor de Eparistera Daimones foi o uso de computadores e da tecnologia digital para tornarem as canções do disco ainda mais pesadas, sombrias e perturbadoras, algo que também vai ao contrário das bandas de metal moderno que, muitas vezes, usam sintetizadores e teclados para purificarem as suas músicas, tornando-as, assim, mais audíveis aos ouvidos sensíveis.
 Já os samplers, programados por Tom Warrior, nos lembram as coisas e as criaturas inomináveis que existem nas profundezas cósmicas e nas fossas abissais do inferno que H.P. Lovecraft descrevia nas mitologias complexas e enlouquecedoras de seus livros. Criaturas com anatomias tão disformes e tão psicodélicas que poderiam nos levar a insanidade total apenas se lhes for lançado um rápido vislumbre.
 Embrulhando toda essa carga de morbidez sonora, estão as vozes perversas de Warrior e Santura, que interpolam momentos de vocais mais rasgados com outros mais guturais ( nestas ocasiões, lembram um pouco a voz de Peter Murphy, do Bauhaus), e a capa do disco, uma verdadeira obra-prima do lúgubre e da devassidão, assinada pelo "Hieronymus Bosch" de nossos tempos e conterrâneo do Triptykon, H.R. Giger.
 Com a sua nova banda, Tom Warrior e seus colaboradores provam que bandas de heavy metal ainda podem provocar tanto calafrio na espinha quanto o primeiro disco do Black Sabbath e  Reign in Blood do Slayer. Mandam as bandinhas falcatruas de new metal para os quintos dos infernos e demonstram que, muitas vezes, o mais arrojado e moderno não está no presente, mas, sim, nas entranhas soturnas do passado.
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NANOCRÍTICA: Eu Sou o Número Quatro

 Se "Eu Sou o Número Quatro" fosse composto apenas de seu início (que possui um dos planos-sequência digitais mais deslumbrantes e complexos desde "O Quarto Do Pânico") e da parte que começa pouco depois de sua metade, seria um dos filmes mais legais dos últimos tempos.
 O problema é que o filme é recheado por um romancezinho com conotações fantásticas (a la "Crepúsculo") dos mais bunda-mole e insuportável.
 Quando o desastre parecia iminente, "Eu Sou o Número Quatro" ganha uma boa aditivada com cenas de ação grandiosas, efeitos visuais insanos, monstros bacanas e uma efervescência criativa digna da melhores HQs de super-heróis.
 Como longa-metragem este filme (baseado em livro homônimo de Pittacus Lore) de D.J.Caruso ("Controle Absoluto") daria um ótimo curta.
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AMOR A SABEDORIA

 Quero iniciar esta postagem já me desculpando pela ousadia (e possíveis  incongruências que eu possa vir a cometer neste meu texto) em querer tratar de um assunto tão sério, intrincado e fundamental como a filosofia.
 Muitos podem achar este meu pedido de desculpas (e até mesmo todo este meu texto) exagerado, pueril e francamente inútil, por girar em torno de algo tão "abstrato","infrutuoso" e "afetado".Termos depreciativos comumentes usados por pessoas ignorantes, de mente fechada e imaginação fraca para designar a filosofia. Algo que, lamentávelmente, só vem se potencializando cada vez mais nestes fúteis e descartáveis dias em que vivemos.  Aonde as pessoas são condicionadas pela grande maioria da sociedade e dos meios de comunicação, a cada vez pensarem menos e a consumirem mais, votarem mais, a acreditarem demais e questionarem de menos...enfim, a viverem cada vez mais dentro das trevas do desconhecimento de uma caverna escura, ignorando completamente o mundo que existe além dos limites desta caverna.
 Outro idéia recorrente que as pessoas tem sobre a filosofia é de que esta é uma ciência anacrônica, ultrapassada. Uma coisa já fora de uso desde os tempos de Sócrates e Platão a cerca de mais ou menos 460 anos A.C.
 Poucos sabem (ou se interessam em saber) que existe uma filosofia moderna, que trata e estuda em profundidade assuntos pertinentes a nossa época, como o impacto das novas tecnologias digitais em nossas vidas, as revolucionárias narrativas transmídia que oferecem uma imersão em mundos fictícios sem precedentes para os seus consumidores, as complexidades de se viver em um mundo e uma sociedade globalizados, etc.
 E para quem  acha que filosofia é coisa para mentes e comportamentos afeminadas e frágeis, saibam que uma das principais influências do mais arrojado e perverso mestre do horror da atualidade, o inglês Clive Barker, (considerado um novo Marquês de Sade) foi uma filósofa que defendia a subversiva idéia de que no fundo, todo o ser humano é doentiamente atraído pelo macabro, pela desgraça e pelo bizarro.
 Um dos nomes mais expoentes da filosofia moderna é o francês Pierre Levy, um filósofo que estuda as influências recíprocas entre a internet e a sociedade. Levy já chegou até a desenvolver com o seu amigo matemático Michel Authier um software livre.
  Assim como a física moderna foi inaugurada por Max Planck e Albert Einstein no início do século XX, a filosofia moderna tem seu marco zero nos sábios pensamentos e nos pormenorizados estudos do francês René Descartes no século XVII. E é Descartes e a sua revolucionária obra "Discurso Do Método" (editora L&PM POCKET,123 pág.) o principal foco desta postagem.
 Descartes foi um filósofo singular e inovador ao abandonar os estudos convencionais e usar o próprio mundo ( e tudo o que este tem de melhor e pior) como sala de aula e laboratório de pesquisas. Assim Descartes não foi apenas um pensador acadêmico, mas antes e acima de tudo, um filósofo da própria vida.
 Correu mundo, conheceu de reis e soberanos aos mais simples dos mortais, foi soldado voluntário e participou de várias guerras e batalhas e descobriu que para conseguirmos sobreviver nas sociedades humanas, devemos ter um amplo conhecimento sobre todos os tipos e gêneros de pessoas, conhecer toda a cadeia de engrenagens que movimentam o mundo dos homens.
 Ao se atirar de cabeça em um mundo de aventuras, perigos, violência e adrenalina para atingir o cerne do conhecimento e decifrar os maiores mistérios e enigmas que atormentam o homem, Descartes desvincula a filosofia de sua esfera unicamente contemplativa e passiva. 
 Depois de anos de preozas e façanhas, período em que fez "doutorado" sobre todos os aspectos da natureza humana, Descartes publica "Discurso Do Método", que abre as portas para a filosofia moderna e para o controvertido raciocínio cartesiano.
 Nesta obra o filosofo escancara a sua máxima de que todas as coisas devem ser sempre analisadas sobre a fria e infalível ótica da razão e do bom senso. Nada pode ser desacreditado, tampouco em nada também devemos acreditar, antes de esmiuçarmos tudo até chegarmos ao núcleo da verdade, uma verdade que sempre deve ser tão exata, irreversível e precisa quanto uma equação matemática.
 Em "Discurso do Método" nada (seja físico ou metafísico) escapa do crivo da lógica inexorável de Descartes: Deus, a alma, o funcionamento do corpo humano, a realidade e a crença em nossa própria existência (afinal como você pode ter a certeza absoluta de que realmente existe de verdade? Já parou para se perguntar isso)?
 Acredito que este eterno questionamento  acerca de tudo e todos de Descartes tenha, direta ou indiretamente, influenciado em maior ou menor grau vários tipos de movimentos contraculturais que vem ajudando a revolucionar a nossa sociedade através dos tempos: beatniks, hippies, punks, hackers, etc. Todos eles devem alguma coisa para a mente irrequietamente questionadora de René Descartes.
  E permeando toda esta obra estão os quatro ensinamentos fundamentais do filósofo francês para se conseguir levar uma vida guiada pela razão e pela sabedoria. Mas não se engane pensando se tratar de algo típico de livros de auto-ajuda. As doutrinas de Descartes requerem de quem quiser seguí-las um grande esforço físico, desafio intelectual e personalidade forte.
 "Discurso Do Método" é a prova de que nem todas as grandes obras da literatura precisam ser calhamaços rebuscados e caríssimos.
  Este é um pequeno e insignificante livro (que provavelmente passa despercebido pela maioria dos frequentadores de livrarias e sebos), mas que esconde dentro de suas páginas conhecimentos avassaladores capazes de tranformar tanto um único indivíduo, quanto uma sociedade inteira.
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Homo Vampiricus

 Um dos mais antigos registros do mito do vampiro de que se tem notícia vem da Grécia antiga do ano de 405 A.C. Mas sabe-se lá o quão mais profundo é o abismo do passado remoto de onde tenha realmente surgido esta aterradora lenda.
 Pessoalmente, acredito que este monstro esteja conosco desde o alvorecer das primeiras mitologias que assombraram os antepassados do homem com seus deuses e demônios primitivos e selvagens. Um arquétipo sinistro que está entranhado em nosso sistema nervoso desde os tempos pré-Homo-sapiens de Pitecantropos e Plesiantropos e que vem, desde então, servindo de metáfora para os nossos mais violentos e proibidos estímulos carnais.
  O sadomasoquismo e o sexo sangrento (uma parafilia que muitos tem ou que gostariam de experimentar mas tem medo e vergonha de admitir), talvez esteja ligado ao mito do vampiro e as práticas canibalísticas (que por sua vez é a raíz do vampirismo) que eram rituais comuns em sociedades pré-históricas.
 Práticas e rituais estes que muito provavelmente ficaram gravados até hoje naquilo que Carl Gustav Jung denomina de nosso inconsciente coletivo e que mesmo atualmente em nossa sociedade moderna alguns de nós ainda possuem um desejo doentio de exercê-los de formas disfarçadas, como o prazer  de provocar e sentir dor do sadomasoquismo.
 Infelizmente, como eu já havia comentado em uma postagen anterior neste blog, o medo, os monstros e o horror são coisas que tendem a irem definhando com o tempo (da mesma forma, como sugerem alguns escritores de livros de horror, que o sangue vampírico vai afinando ao passar de uma geração para outra no decorrer dos séculos), se diluindo no interior das entranhas das ramificações mais banais da cultura pop como um lindo pedaço de carne fresca e crua que vai se manufaturando progressivamente até se transformar em um inocente e insípido hambúrguer do McDonalds.
 Contudo se no (infelizmente) quase onipresente cinema hollywoodiano o sangue do cinema fantástico vem se tornando cada vez mais anêmico o mesmo não se pode dizer das hemáceas que correm no interior das veias dos filmes de horror e ficção científica asiáticos.
  E é da Coréia do Sul (país que vem gerando alguns dos filmes mais potentes e turbinados do cinema recente) que veio "Sede de Sangue" (Thirst), produção que devolve o vampiro as suas origens monstruosas e profundamente perturbadoras.
 Comandado com pulso de aço por Park Chan-Wook (um cineasta que a tempos já dispensa apresentações para os cinéfilos mais exigentes), "Thirst" é um verdadeiro banho de sangue tanto físico quanto psíquico.
 Wook já começa a acertar quando manda para o inferno quase todos os clichês habituais que vem poluindo e as vezes até ridicularizando a figura do vampiro em todas as mídias através dos anos.
 De cara o diretor já demole os cânones mais ortodoxos do vampirismo ao transformar o protagonista do filme ,um padre, em um monstro sugador de sangue que mesmo após a sua bizarra mutação não abandona Deus nem as práticas do sacerdócio. A seguir Wook purifica ainda mais o tema enxugando o filme de todo e qualquer resquício de aspectos metafísicos, românticos e míticos, mostrando os vampiros por um prisma muito mais de ficção-científica hardcore (como "Alien" e os filmes de David Cronenberg) do que de horror sobrenatural. Dessa forma o cineasta sul-coreano atinge o coração e as raízes do vampirismo, que afinal de contas sempre serviu de tropo para o lado mais carnal e animalesco da personalidade humana, livre de quaisquer amarra mística, moral, religiosa, etc.
  "Sede De Sangue" faz o que todos os filmes de horror e fantasia deveriam fazer: usa os monstros fantásticos para comentar sobre os monstros reais de nosso cotidiano e nos fazerem pensar.
 Se analisado mais profundamente percebe-se que o vampirismo de "Thirst" também  serve  como pano de fundo para o diretor sul-coreano realizar um mix sublime de vários gêneros cinematográficos: drama, romance (aonde denota os aspectos mais sádicos e carnais do amor), film noir e um suspense hitchcockiano de absoluta destreza técnica e visual de tirar o fôlego.
 Ao mostrar as mais bizarras e tresloucadas fantasias amalgamadas dentro de um contexto, cenários e situações absolutamente realistas e até mesmo banais, Wook aproxima os seus vampiros dos super-heróis do mundo real criados por Allan Moore em HQs como "Miraclemen" e "Watchmen". Tanto as obras de Moore quanto esta de Wook, mostram que nada é apenas um milagre, que até mesmo os dons e poderes mais espetaculares e infinitos podem levar aqueles que os possuem ao sofrimento, a dor, a loucura e a morte. Mostra ,em suma, que o paraíso e o inferno sempre andam de mãos dadas.
 Já as interpretações de todo o elenco são tão fortes e potentes quanto o restante do filme.
. O tormento interno sofrido pelo sacerdote interpretado por Song Hang-Ho ( "Simpathy Mr. Vegeance" "O Hospedeiro"),  dilacerado entre a pureza da alma e as tentações da carne e do sangue, não perde em nada em complexidade para os personagens de Martin  Scorsese, que também são quase sempre seres estilhaçados entre o divino e o profano. O paralelo entre esta obra de Wook e as de Scorsese também se estende ao turbulento e doentio romance entre o personagem de Ho e a vampira sádica interpretada por Kim Ok-Vin.
 Mas o melhor em "Sede De Sangue" é que ele nada violentamente contra a maré da  moda vampírica que vem entupindo os meios de comunicação atualmente. Tem-se a nítida impressão que Park Chan-Wook realizou este filme justamente para poder arrancar os vampiros da condição mainstream e fashion em que estes se encontram hoje e jogá-los novamente no inferno de sangue de onde o mito do nosferatu surgiu, transformando o vampiro outra vez em um personagem de obras que possam ser consumidas por pessoas adultas, inteligentes e de imaginação ousada.