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OS MUNDOS DE MARIO BAVA

 Para a maioria dos cinéfilos, até mesmo para alguns "fãs" de filmes de horror, o cinema fantástico italiano se resume a produções indigestas, toscas, ultra apelativas e visualmente paupérrimas como longas sobre canibalismo, zumbis, nudez e pornografia. Tudo amparado por efeitos especiais de fundo de quintal.
 Em suma, cinema classe Z.
 Porém, aqueles que gostam, entendem e pesquisam a fundo os filmes de terror sabem perfeitamente que as palavras "indigesto", "tosco" e "apelativo" não são exatamente sinônimo de baixa qualidade em produções do gênero, muito pelo contrário. Além disso qualquer cinéfilo adulto e maduro já sabe a séculos que orçamentos milionários e efeitos visuais opulentos nunca foram garantia de qualidade cinematográfica seja em qual gênero que for.
 Entretanto, para calar a boca de cinéfilos caretas, metidos a intelectuais e covardes e para aquela nova modalidade de entusiastas de filmes de "terror" que vem surgindo nos últimos anos, que eu denominei de Fãs do Bem de Filmes de Terror ou Fãs de Filmes de Terror Politicamente Corretos, resolvi fazer uma resenha de uma verdadeira obra-prima do Cinema Fantástico Italiano que não perde em nada para as melhores obras de Alfred Hitchcock, Ridley Scott e Stanley Kubrick que os críticos de cinema sérios e que se acham superiores a nós, meros mortais, gostam tanto de incensar.
 Como geralmente, e infelizmente, acontece com as obras cinematográficas verdadeiramente boas e relevantes, La Frusta e Il Corpo, uma co-produção entre Itália e França lançada em 1963, é um filme obscuro e, excetuando-se os pesquisadores e connoisseurs de Cinema Fantástico, praticamente desconhecido do grande público.
 Dirigido por um dos mais versáteis e talentosos cineastas italianos, Mário Bava, que aqui assina a direção com o pseudônimo John M. Old, La Frusta e Il Corpo é uma filme de horror com um dos visuais mais espetaculares e impressionantes da história. O requinte estético desta obra de Bava a coloca no mesmo nível  de outros marcos do apuro técnico no Cinema de Horror como O Poço e o Pêndulo ( The Pit and The Pendulum/1961), de Roger Corman, Alien, O Oitavo Passageiro (Alien, 1979), de Ridley Scott, O Iluminado ( The Shining/1980), de Stanley Kubrick, Poltergeist, O Fenômeno (Poltergeist/1982), de Tobe Hopper e O Corvo (The Crow/1994), de Alex Proyas.
 No século XIX, em um opressivo castelo à beira mar, constantemente castigado pelas ondas do oceano sombrio e fustigado pelos ventos gélidos oriundos das imensidões do pélago, uma aristocrática família tenta a todo custo manter as aparências e evitar que a decadência moral de alguns de seus membros engolfem a todos em uma espiral de sangue, sexo e perversão.
 Neste cenário hamletiano temperado com toques de parafilia vivem o casal sadomasoquista Nevenka e Kurt Menliff (Daliah Lavi e Christopher Lee, respectivamente), os parentes destes, Count Menliff (Dean Ardow) e Christian Menliff (Tony Kendal), a bela Katia (Islio Oberon), o empregado da família chamado Losat ( Allan Collins) e um sacerdote conhecido, apenas, como Pastor.
 A partir do momento em que Kurt é assassinado em circunstâncias misteriosas, La Frusta e Il Corpo se transforma em uma belíssima homenagem aos clássicos textos macabros de Edgar Allan Poe e Henry James. Com, a exemplo das histórias de Poe, uma mistura angustiante de clima sobrenatural com horror psicológico que envolve o espectador em uma atmosfera gótica densa, pesada e sufocante.
 Embora as interpretações sejam precisas, com destaque paras as atuações de Daliah Lavi e, é óbvio, Christopher Lee, e os personagens nada maniqueístas, a grande estrela do filme é o seu visual e a primorosa técnica cinematográfica utilizada para compô-lo.
 Da mesma forma que Stanley Kubrick fez em 2001, Uma Odisseia No Espaço, Mario Bava não utiliza o virtuosismo das imagens de La Frusta e Il Corpo apenas como um acessório estético usado meramente para embelezar o seu filme, mas sim como uma forma de ajudar a contar a história. Aqui a fotografia trabalha lado a lado com o roteiro e as interpretações para fazer o espectador mergulhar em um pesadelo e partilhar das mesmas, e terríveis, sensações experimentadas pelos personagens do longa.
 E que fotografia!
 Cada fotograma deste clássico de Bava é uma guerra constante entre Cores, sombras e luz. Os ambientes tétricos do castelo da família Menliff são tão espantosos quanto os cômodos do hotel Overlook, de O Iluminado, o castelo de Vlad Draculea, de Drácula, de Francis Ford Coppola ou a fantasmagórica espaçonave Nostromo, de Alien.
 A exemplo desses outros três clássicos da estética gótica cinematográfica, quase todos os ambientes mostrados em La Frusta e Il Corpo estão sempre, em parte, mergulhados na mais absoluta e espessa escuridão. Essa atmosfera radicalmente sombria transmite ao filme uma sensação de perigo, suspense e tensão crônicos como se a qualquer instante algum monstro tentacular dos Mitos de Cthulhu vá saltar das sombras e arrastar os personagens para um buraco negro de horror e loucura.
 Um exemplo magistral deste medo do desconhecido que devassa o filme do início ao fim são as apavorantes sequências em que uma fantasmagórica mão emerge das profundezas das trevas para agarrar os personagem. Em momento algum do filme é explicitado de onde vem esta mão, se ela pertence a alguma pessoa de carne e osso, a um fantasma de outro mundo, ou se a algo ainda pior.
 A forma como Bava compôs essas cenas, com a mão pálida aflorando de um fundo negro e se aproximando vagarosamente da lente da câmera, colocam o espectador na pele dos aterrorizados personagens e são de um completo e magistral suspense do nível de Hitchcock, Brian De Palma, e de outro esteta dos filmes de terror e thrillers sangrentos italianos, Dario Argento. Para fechar com chave de ouro, o filme encerra com um perturbador final ambíguo tipicamente Kubrickiano. Nos deixando com a eterna dúvida se tudo o que acabamos de presenciar são, de fato, fenômenos paranormais ou, somente, fruto de uma mente enlouquecida.
 Graças a esse completo domínio de Mario Bava sobre a linguagem cinematográfica é possível ao espectador experimentar uma verdadeira imersão no universo gótico de La Frusta e Il Corpo. Com suas sombras quase palpáveis que parecem estarem vivas e respirando podendo, em um piscar de olhos, saltarem da tela e nos envolverem em um abraço gélido. É cinema total!
 Gosto de ficar especulando os visuais alucinantes que um cineasta tão talentoso como Bava criaria, caso estivesse vivo, com uma tecnologia como o 3-D digital. Certamente os nossos jovens e moderninhos diretores teriam muito o que aprender com esse velho mestre.
 Ao lado de Lucio Fulcie e Dario Argento, Mario Bava, nascido na cidade de Reno em 1914, faz parte do grupo de elite do Cinema Fantástico Italiano. E que, juntamente com esses outros dois gênios, foi o responsável por alguns dos cânones que regem as produções de horror, ficção científica e suspense, não apenas na Itália, mas em todo o Mundo e até os dias de hoje.
 Entre os vários clássicos revolucionários da carreira de Bava estão o episódico As Três Máscaras do Terror ( I tre volti della paura/1963), cujo título em inglês, Black Sabbath, inspirou o nome da primeira banda de heavy metal da história, Seis Mulheres Para o Assassino ( Sei Donne Per l' assassino/1964), considerado o marco-zero do giallo. Sempre radical e visionário Mario Bava seguiu desbravando os mares cinematográficos com a fusão horror/sci-fi Planeta dos Vampiros (Terrore nello spazio/1965), produção que foi uma das principais fontes de referência para os criadores de Alien, o Oitavo Passageiro e que contava com a atriz carioca Norma Bengell em seu elenco, Banho de Sangue ( Reazione a catena/1971), um dos primeiros slashers do cinema e que fez a ponte entre este e o giallo e Rabid Dogs um filmaço policial  muito à frente de seu tempo que antecipou em quase vinte anos o estilo tarantinesco de se filmar.
 Infelizmente, Bava faleceu em 1980 quando contava com a idade de 65 anos e ainda tinha muito gás para queimar.
 Entre o legado deste brilhante homem do cinema estão o seu filho Lamberto Bava, o qual eu tive o prazer de assistir palestrando na edição de 2011 do Fantaspoa e que dirigiu, entre outros, o cult grand guignol Demons (1985), e uma irretocável filmografia que influenciou não apenas cineastas, mas também artistas dos mais variados ramos da cultura pop.










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O LADO PUNK DA MAGIA

 Em 1989/1990 ocorreu aqui no Brasil o chamado boom dos quadrinhos. Impulsionado pelo mastodôntico lançamento do longa-metragem do Batman (1989), de Tim Burton ----a primeira adaptação de um personagem dos comics a fazer sucesso nas telas desde Conan, O Bárbaro (Conan, The Barbarian/EUA 1982), de John Milius---e pelo congelamento dos preços dos produtos de consumo nacionais graças ao milagre, que logo, logo se revelaria uma maldição, do plano econômico do primeiro presidente do Brasil eleito pelo voto direto após décadas de ditadura militar, Fernando Collor de Mello, HQs com qualidade temática e visual mais sofisticadas começaram a pipocar por aqui.
 As obras dos maiores autores e artistas da nona arte mundial podiam ser encontrados em qualquer banca vagabunda de esquina...
 O depreciativo termo gibi foi substituído pelo muito mais intelectualizado e luxuoso graphic novel...
 Frank Miller era citado como um artista de vanguarda em várias publicações nacionais de respeito...
 Não era mais um tabu vergonhoso se gostar de coisas freak como revistas em quadrinhos e super-heróis...
 Era chegada à época de nerds como eu saírem do armário.
 Nessa época eu, e muitos outros fãs de quadrinhos de classe média-baixa, podia me dar ao luxo de colecionar múltiplos títulos de HQs. Portanto todos os meses eu comparecia liturgicamente às bancas e adquiria os quatro sagrados, pelo menos para mim, títulos: Batman, X-Men, O Monstro do Pântano, e o clássico-cult, Superaventuras Marvel. Isso sem contar, quando a grana sobrava, uma ou outra mini-série ou graphic novel.
 Não adianta mentir. Já foi comprovado. Por mais que a maioria dos pais teimem em afirmar para os outros, e para si mesmos, que amam em medidas iguais a todos os seus rebentos sempre vai ter um, por mais cruel que isso possa parecer, entre a prole que vai ser o favorito.
 E assim era comigo e minhas HQs.
 Por mais que eu vibrasse com os quebra-paus entre Matt Murdock e Frank Castle em Superaventuras Marvel, me identificasse com a personalidade sombria e atormentada de Bruce Wayne e intrigasse os meus neurônios com os roteiros chandlerianos que Chris Claremont bolava para os X-Men, meu filho predileto era, em termos de popularidade, o mais tímido e quieto de todos: O Monstro do Pântano.
 Devido as suas medidas convencionais, o execrável formatinho, e a impressão em papel  de baixa qualidade em uma época em que as revistas em quadrinhos começavam a se livrar de seu estigma de Literatura para Crianças e a grande maioria das HQs mais maduras voltadas para o público adulto eram publicadas em formato americano e papel de luxo, O Monstro do Pântano enganou muita gente, inclusive este que vos fala, ao ser confundida com apenas mais uma obra quadrinística convencional sobre super-heróis.
 Tudo isso se deve a uma total falta de conhecimento e domínio sobre o tema por parte das editoras e editores de HQ da época, pois O Monstro do Pântano era mais adulto, sinistro e complexo do que a grande maioria das graphic novels e mini-séries de luxo que saíram neste período.
 Mais do que isso, Swamp Thing foi um verdadeiro divisor de águas nos quadrinhos adultos e de horror.  Uma obra revolucionária cuja força da ruptura que provocou no mundo dos comics se faz sentir até hoje e que abriu as portas para a DC criar o controvertido selo Vertigo que abrigou, e ainda abriga, alguns dos mais lendários, geniais e subversivos roteiristas e desenhistas de HQ de todos os tempos.
 Se tivesse sido editada hoje, esta fase do Monstro do Pântano, que saiu por aqui no início da década de 1990, receberia tratamento de uma obra literária de alto nível: formato americano, capa brochura, papel cuchê, preço exorbitante e seria vendida apenas em comic shops e livrarias luxuosas como a Saraiva.
 Felizmente, a mais de trinta anos atrás Swamp Thing não foi respeitada pelos seus ignóbeis editores brasileiros caso contrário milhares de jovens pobres e desajustados como eu não poderiam ter adquirido uma obra que mudaria as nossas vidas para sempre.

 Passar os olhos, à época eu tinha dezesseis anos de idade, pelos rebuscados textos de O Monstro do Pântano foi um choque para mim: as descrições barrocas dos ambientes, personagens e situações misturados aos diálogos cortantes repletos de referências a política, religião, ciência, filosofia, ocultismo e cultura pop temperadas com palavrões ríspidos era algo que eu nunca havia lido antes em minha vida.
 Eu estava sendo apresentado a literatura para adultos.
 Eu estava sendo apresentado a literatura de verdade.
 O arco de histórias de O Monstro do Pântano que me deixou tão embasbacado era, e é, simplesmente, o mais cultuado de toda a trajetória desta HQ: o épico sobrenatural Gótico Americano.
 Com roteiros do Deus dos quadrinhos, Allan Moore, se você curte HQ já deve ter ouvido falar do cara, se ainda não ouviu, então meu amigo, você NÃO curte HQ, aos não iniciados na nona arte vou tentar lhes resumir a importância do Gigante de Northampton da forma mais sucinta possível: em termos de comparação digamos que Moore é tão revolucionário para os quadrinhos quanto o foram para a literatura em geral e o cinema James Joyce e Stanley Kubrick respectivamente.
 Em Gótico Americano, o roteirista inglês amalgamou da forma mais genial possível horror antigo com moderno, H.P. Lovecraft com Clive Barker e Arthur C.Clarke, o ocultismo mais animalesco com a ciência mais avançada.
 Mas o motivo desta minha resenha não é o personagem-título de Swamp Thing, uma melancólica mutação entre homem e planta criada, na década de 1970, por Len Wein e Berni Wrightson com ecos do clássico Frankenstein e estética calcada nos gibis da E.C. ,que anos mais tarde, Moore transformaria em um monstro contra-cultural e politizado, e sim um mero coadjuvante da coisa toda.
 Para guiar o Monstro do Pântano pelo labirinto macabro e lisérgico com profundas ramificações tanto na astronomia quanto na magia negra ancestral e na cultura pop que foi o arco de histórias que formam Gótico Americano, Allan Moore e seus desenhistas criaram John Constatine.
 Trajando um sobretudo, sempre com um cigarro no canto da boca e um sarcasmo, cinismo e ceticismo crônicos em relação a tudo e a todos que o cercam, Constantine de cara me lembrou os detetives e policiais amorais da literatura noir como Sam Spade, Phillip Marlowe e Loyd Hopkins. Durões que acreditam que a sociedade humana já foi para o brejo a muito tempo e que não alimentam nenhum tipo de esperança em relação a nada.
 A princípio, o sombrio Constantine, que parecia ser tão enigmático e diabólico quanto as tramas para as quais enviava o Monstro do Pântano, surgia apenas no início e no fim das histórias parecendo uma versão mais moderna e intelectualizada do Zelador da Cripta de HQs de horror como Tales From The Crypt.
 A medida que o Monstro do Pântano, e o leitor, vai montando as peças do intrincado quebra-cabeças macabro, que é a saga Gótico Americano, e começa a descobrir que tudo desembocará em uma assustadora conspiração de proporções cósmicas e apocalípticas ele também vai, paralelamente, descobrindo mais sobre si próprio e sobre John Constantine.
 Ficamos sabendo que, a despeito de seu conhecimento erudito em ciências ocultas e feitiçaria moderna, o guia do Monstro do Pântano é uma pessoa absolutamente comum e tão enigmático e diabólico quanto qualquer ser humano cheio de falhas, como todos nós, é capazes de ser.
 Inglês de nascimento, como seu criador Allan Moore, John é uma espécie de operário e rebelde underground no mundo da magia e, devido a isso, está permanentemente em contato com os ambientes e indivíduos mais baixos, vis e barra-pesada que lidam e vivem da feitiçaria.
 Ao final de Gótico Americano, Constantine se torna um personagem tão, ou mais, importante e querido pelos leitores que o próprio protagonista da história, o Monstro do Pântano. Mas qual o segredo do Mago Calhorda (uma das muitas alcunhas carinhosas pela qual John Constantine é conhecido, as outras são malandro, trapaceiro, ladrão, etc)? O que faz com que um personagem que possui o lado negro, vicioso e subversivo de sua personalidade tão acentuado, passe de mero coadjuvante e mestre de cerimônias ao status de protagonista?
 A resposta a essa questão eu já dei três parágrafos acima, entretanto vou me aprofundar um pouco mais nesta indagação.
 Constantine era, até então, um personagem de quadrinhos como eu nunca havia visto ou ouvido falar antes: nada de músculos, nada de boas intenções, nada de heroísmo e muito menos de super-heroísmo. Ele era um cara como eu: imperfeito, mal resolvido, debochado e que não levava nada muito a sério. Ele era um cara que você encontra as dezenas por aí: uma pessoa comum lutando por sua sobrevivência. Esse, para mim, é o grande fator cativante do personagem de Allan Moore: ser um João Ninguém, ser crível. Por mais que se seja fascinado pelo Superman, Wolverine e Homem-Aranha sabemos que eles são uma quase total impossibilidade. As chances de algum dia você encontrar alguém por aí voando ou pendurado em teias de aranha sintéticas são praticamente nulas. Já um cara desagradável, cínico, solitário, com um senso de humor macabro e do qual quase ninguém gosta nós conhecemos quase todos os dias em qualquer tipo de ambiente em que formos. John Constantine agradou tanto porque é um fidelíssimo reflexo da humanidade. Mesmo que a humanidade não o queira admitir.
 Com o término espetacular do arco Gótico Americano na revista Monstro do Pântano os leitores ficaram órfãos de uma das maiores e mais seminais sagas de horror, fantasia e ficção científica dos quadrinhos. Mas em compensação ganharam um novo personagem clássico não apenas das HQs, mas de toda a Literatura Fantástica.
 Em 1988, o Mago Calhorda finalmente ganha o seu título próprio nos quadrinhos: Hellbalzer. A partir de então somos apresentados ao mundo de onde veio Constantine e é aí que as coisas começam a ficar realmente fodonas...
 Esqueça Merlin, caldeirões ferventes, bruxas narigudas e wicca. A bruxaria com a qual Constantine lida e convive em seu dia a dia pertence ao universo de Livros de Sangue e Coração Satânico e não ao de Harry Potter e As Crônicas de Nárnia.
 Nada de Reinos Medievais Encantados e dimensões paralelas, o fantástico e o horror que conduzem as tramas de Hellblazer acontecem aqui e agora revelando, além de demônios, vampiros e outros monstros sobrenaturais, os monstros, refugos e demônios de nossa própria sociedade e de nós mesmos que se escondem na escuridão dos becos, na miséria dos guetos de Terceiro Mundo, na loucura das drogas e na violência da depravação.
 Ex-líder e vocalista de uma ácida banda de rock na linha de Sex Pistols, Constantine transita pelo mundo do sobrenatural com a atitude tipicamente niilista  herdada do Movimento Punk como se fosse um Johnny Rotten do ocultismo.
 Anti-herói por excelência, muitas vezes o sangue frio e a crueldade demostradas pelo protagonista de Hellblazer o tornam tão perigoso e assustador quanto os seus próprios e monstruosos inimigos. Fazendo com que o leitor vez por outra se pergunte de que lado Constantine realmente está, se do Céu ou do Inferno?
 Os fãs mais atentos e de mente aberta perceberão que no mundo de Hellblazer, assim como no mundo real, o bem e o mal são duas faces da mesma moeda e de que, por vezes, o demônio mais carniceiro pode ser capaz de praticar atos de bondade e redenção enquanto que alguns anjos são tão ferozes quanto o mais sanguinário dos psicopatas.
 Em seus quase trinta anos de existência, Constantine já enfrentou toneladas de aberrações sobrenaturais e naturais inimagináveis e repugmantes enquanto se equilibra perigosamente sobre uma corda bamba entre sagrado e o profano em tramas, quase sempre, assustadoras e sufocantes e que não perdem em nada para as obras de gênios da fantasia negra como Stephen King e Clive Barker.
 Esse altíssimo nível de qualidade das histórias de Hellblazer se deve ao fato de seus roteiristas serem escolhidos a dedo e de sempre estarem a altura da personalidade insurreta e perversa de John Constantine.
 De Allan Moore a Neill Gaiman, de Grant Morrison a Garth Ennis, de Warren Ellis (que escreveu uma história tão polêmica para Hellblazer que por anos a DC a deixou engavetada) ao romancista China Miéville.
 Os escritores das aventuras de Constatine foram recrutados dos guetos mais sinistros e inovadores do horror, da ficção científica e do policial e todos foram contribuindo no decorrer dos anos para formar a persona controversa do Mago Calhorda.
 Embora os vários "pais" de Constantine o tenham levado aos mais diferentes cenários, fazendo-o enfrentar os mais diverso inimigos e o tornando, ora mais vilanesco, ora mais bondoso, nunca esqueceram do principal: sempre mostrar que, no fundo, John Constatine é apenas um ser humano comum...como todos nós.
                                                                                                                                                 



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O Futuro é Foda!

 Vamos ser sinceros, desde que James Cameron partiu para um cinema mais família, Cronenberg se bandeou para outros gêneros e Paul Verhoeven meio que sumiu do mapa, goste-se ou não, a única esperança para os cinéfilos que curtem uma ficção-científica mais adulta e hardcore se chama Neill Blomkamp.
 Blomkamp possuía mesmo todos os requisitos necessários para se tornar um realizador de filmes que esbugalhassem nas telas o lado mais distópico, negro e fodido da ficção-científica: nascido na África do Sul em 1979, ele sempre foi um aficionado por tecnologia de ponta e cultura geek, mas que viveu em meio a tirania, truculência e miséria proporcionadas pelo regime do Apartheid. Ou seja, Neill Blomkamp cresceu em meio a dicotomia tecnologia alta/vida baixa que é o eterno cerne de qualquer sci-fi desviante, marginal e de esquerda que já existiu.
 Como quase todo o futuro diretor de Cinema Fantástico, Blomkamp iniciou a sua carreira como técnico de EFX produzindo os efeitos especiais de tele-séries cults de ficção científica como Smallville e Stargate SG-1, além de dirigir comerciais de marcas famosas recheados de CGI de última geração.
  Em 2006, ele dirigiu um sinistro curta metragem independente sobre alienígenas intitulado Alive In Joburg que chamou a atenção de um dos mais poderosos e premiados diretores de cinema high-tech da atualidade, Peter Jackson.
  Assim como Neill Blomkamp, Jackson também ficou famoso por misturar em suas produções altas doses de realismo, morbidez e violência mesmo entre as fantasias mais delirantes, ficando fascinado com os alienígenas asquerosos, os cenários sujos, a ambientação techno-decadente e a qualidade dos efeitos visuais de Alive In Joburg. 
  Em 2007, Blomkamp e Peter Jackson uniram forças pela primeira vez por meio dos curta-metragens promocionais para o lançamento do game Halo 3 do console X-Box da Microsoft. O cineasta sul-africano dirigiu enquanto que a Weta, a diabólica empresa de efeitos visuais do diretor de O Senhor dos Anéis, se encarregou dos EFX.
 Apesar da curta duração, esses vídeos de Halo possuíam um visual espetacular, forte e com um realismo singular em produtos relacionados a ficção científica. Os curtas de Blomkamp eram verdadeiras versões espaciais/futuristas de produções de guerra viscerais e intensas como O Resgate do Soldado Ryan e Falcão Negro em Perigo, mostrando soldados humanos e alienígenas assassinos se engalfinhando em combates ainda mais ferozes dos que os elaborados por James Cameron em Aliens.
 Dois anos depois Peter Jackson e Neill Blomkamp se aliaram novamente para uma cartada decisiva que iria convulsionar a ficção científica.
 Distrito 9 (District 9, EUA, 2009) produzido por Jackson e dirigido e escrito por Blomkamp, mostrava o encontro entre seres humanos e criaturas alienígenas sob um prisma nunca visto nas telas até então. Simultaneamente violento, triste, eletrizante, perturbador e com uma marcante influência da fase gore de David Cronenberg, Distrito 9 foi a surpresa ímpar do cinema em 2009. Também foi uma das raríssimas ocasiões em que uma produção de ficção científica foi indicada ao principal oscar da academia. Desde os tempos de O Enigma de Outro Mundo, Aliens e Robocop que uma major de Hollywood não utilizava efeitos visuais e câmeras de última geração para produzir uma sci-fi que não possuía visual bonitinho e que não fosse endereçada para toda a família, muito pelo contrário...A estréia de Neill Blomkamp em longas-metragens era uma daqueles saudáveis aberrações que surgem nos cinemas de vez em quando: uma produção de espírito radical e independente, mas bancada por um grande estúdio.
 Com o acachapante sucesso de público e crítica que foi Distrito 9 era óbvio que o próximo projeto do diretor sul-africano fosse esperado com ansiedade e que todos os passos deste fosse, a partir de então, observado com olhos de microscópio eletrônico pelos fãs de ficção científica e pela comunidade geek.
 Quatro anos depois de sua estréia Blomkamp finalmente retorna as telas com uma outra sci-fi, intitulada Elysium ( EUA, 2013). Mas Elysium possuía algumas diferenças em relação a Distrito 9: era ainda mais pesado, provocativo e sombrio do que este. Beleza!
 Outro contraste entre Distrito 9 e Elysium é que o primeiro, apesar de toda a sua parafernália eletrônica e tecnológica, se passava em nossos dias, o que foi, de certa forma, uma barreira para a criatividade dark de Blomkamp, enquanto que o mundo do segundo está situado cerca de 150 anos no futuro.
 Agora Blomkamp possuía um universo infinitamente maior, e mais cruel, para poder dissecar todas as suas obsessões com relação a política, injustiças sociais e o lado escuro do ser humano.
 Portanto, apesar de se passar em um futuro longínquo com direito a uma estação espacial e repleto de naves estelares, não espere nada de space ópera, robôs engraçadinhos, cenários lindos e valores morais em Elysium. Aqui o negócio é cyberpunk em estado bruto!
 Elysium é uma ficção científica em que o vilão que deseja destruir a humanidade não é uma inteligência artificial mega-poderosa, algum monstro alienígena ou um exército de androides assassinos, mas uma ameaça muito mais global e que já vem sugando nosso sangue desde a Idade Média: o capitalismo.
 Assim como em sua obra anterior, em Elysium Blomkamp ataca o problema de frente, sem concessões, frescuras ou muitas metáforas.
 É o ano de 2154, e se você leitor tem um pouco de neurônios nesse seu cérebro e costuma olhar, pelo menos as vezes, para o mundo ao seu redor já deve imaginar que, se nossa sociedade continuar seguindo à risca a cartilha escrita por bancários multimilionários e mega corporações, o século XXII não vai ser algo  muito agradável de se ver...É isso aí, a Terra daqui em torno de 150 anos será um imensurável gueto global. Uma favela da Rocinha planetária habitada e controlada pela escória da humanidade: traficantes, ladrões, viciados, assassinos, hackers, mercenários, doentes e miséria, muita miséria se espalhando, sem fim, para todos os lados.
 Depois de sugarem como vampiros todas as reservas naturais de nosso planeta, os yuppies e milionários se mudaram para uma grandiosa e luxuosíssima estação espacial localizada na órbita, e portanto acima de toda a imundície, terrestre chamada Elysium.
 Lá, poucos privilegiados, leia-se endinheirados, desfrutam de tudo aquilo que eles destruíram na Terra: ar puro, natureza límpida, tratamentos médicos de ponta e uma vida tranquila e organizada.
 Aqui embaixo, no inferno, aqueles que não sucumbiram a marginalidade se tornaram operários chão de fábrica que trabalham para os ricos com o intuito de melhorar ainda mais o padrão de vida destes em Elysium.
 Como vocês podem ver pouca coisa mudou em 150 anos, apenas pioraram um pouco mais...
 De resto, Elysium parece ter saltado diretamente das eletrizantes páginas tanto de romances cyberpunk barra-pesada como Piratas de Dados e Tempo Fechado, de Bruce Sterling e Count Zero, de William Gibson, quanto de HQs de ficção científica e ação violentíssimas e sinistras como Gunnm, de Yukito Kishiro e Elektra Assassina, de Frank Miller e Bill Sienkiewicz: um herói marginal e decadente, mercenários torpes, psicopatas ultra-pervertidos, executivos frios como a lâmina de uma navalha, toneladas de armamento high-tech pesado, fusão agressiva entre carne/máquina que rouba a humanidade de seres humanos e os transforma, praticamente, em ciborgues e muita, muita ação noir repleta de selvageria, violência escatológica e um realismo perturbador.
 A adrenalina nos filmes de Blomkamp não tem nada da estilização digitalizada dos longas da série Matrix.
 Aqui, o visual futurista e os efeitos computadorizados de ponta estão sempre mesclados a sangue, suor, lágrimas, dor e carne crua. Com cenas de ação instintivas estilo Cinema-Corpo, a lá William Friedkin e Paul Gengrass, sempre filmadas em velocidade máxima e o mais de perto possível para mostrar ao espectador que não se está tentando enganá-lo, que a coisa é para valer.
  É devido a isso que esse novo Enfant terrible do Cinema de Ficção Científica detesta gravar suas cenas dentro do ambiente artificial de um estúdio em meio a telas de fundo verde. Tanto Distrito 9 quanto Elysium tiveram a maior parte de suas tomadas gravadas em favelas de verdade, o primeiro em um gueto sul-africano, o segundo nas ruas imundas de um miserável bairro mexicano, mixando, de forma absolutamente impecável e verossímil, o CGI e os elementos fantásticos com toda a sordidez e a sujeira do mundo real.
 Outra característica notável na obra de Neill Blomkamp é que, da mesma forma que James Cameron, a descrição que o diretor faz de armas, veículos, robôs e equipamentos de alta tecnologia é tão vívida e detalhada que se tornam quase personagens de seus filmes. Em Elysium as câmeras penetram no interior das entranhas do hardware expondo de forma palpável o funcionamento de máquinas futuristas que ainda não existem. Naves espaciais são sujas e pingam óleo, exo-esqueletos cibernéticos de guerra estão enferrujados e repletos de "cicatrizes" de antigas batalhas, metralhadoras e lança-mísseis são riscados e arranhados como devem ser qualquer tipo de equipamento usado em combates. Além disso, todos os equipamentos e produtos mostrados em Elysium possuem marcas do mundo real, como Kawasaki, Bugatti, Nissan, etc.
 Enfim, tudo no filme foi feito e construído para, ao olharmos para uma nave espacial na tela do cinema, sentirmos estarmos vendo algo tão tangível quanto um automóvel estacionado na esquina de nossa casa.
 Todo o realismo e detalhamento do sinistro mundo de Elysium foi feito com o único propósito de tornar o roteiro deste ainda mais provocativo, perturbador e polêmico. Pois, a exemplo de Metrópolis, de Fritz Lang, THX-1138, de George Lucas, Blade Runner, de Ridley Scott e outro marcos do Cinema de Ficção Científica Distópico, o segundo longa de Neill Blomkamp, assim como o seu primeiro, é uma obra que convida ao debate. Um filme que não quer agradar a ninguém e sim incomodar a todos...
 Quanto a nós, espectadores de cinema do Terceiro Mundo, a primeira, e mais forte, sensação que este longa nos provoca em seus primeiros minutos de exibição não é tanto a de nos sentirmos incomodados e assustados, mas sim uma desalentadora sensação de identificação. Pois para nós o futuro de daqui a 150 anos de Elysium já chegou faz tempo...



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Porquinhos da Índia

 Não sei exatamente quando que o Mundo Ocidental se tocou de que o Cinema Asiático é tão foda e visionário em produções de horror e fantasia quanto o é em matéria de filmes de ação e artes marciais, mas eu descobri isso em uma viagem de metrô ligando minha cidade, São Leopoldo, à Porto Alegre em algum ponto entre os anos de 1999-2000.
 Na ocasião eu estava no trensurb com um amigo geek/headbanger que compartilha comigo a paixão pelo lado mais animalesco da cultura pop: Cinema de Horror, cyberpunk, HQs sádicas, death metal, Robert E. Howard, Clive Barker, etc. Essas coisas que podem queimar o filme de sua vida social e profissional.
 Este meu amigo sacou, de uma pasta que estava carregando, um punhado de folhas com textos que ele havia imprimido dos mais obscuros sites das profundezas do Inferno Digital, enquanto me perguntava: "Tu já ouviste falar em filmes de terror japoneses"?
 À época este subgênero cinematográfico me era tão desconhecido quanto o é para um sem-teto uma banheira com hidromassagem, mas como sou uma criatura eternamente ávida por tudo que contenha as palavras terror, horror, sangue e carnificina arranquei as páginas das mãos de meu amigo e comecei a devorá-las em meio ao chacoalhar dos vagões dos trens e as ladainhas depressivas de passageiros aidéticos e cancerosos miseráveis implorando alguns tostões aos demais viajantes para comprarem os medicamentos paliativos de suas doenças sem volta.
 Aquelas produções de horror nipônicas eram tudo que eu sempre mais amei no gênero: brutais, nojentas, exageradas, absolutamente monstruosas, totalmente malignas, inteiramente devassas, zero de boas intenções.
 Dentre os vários aspectos inovadores, em comparação com os bons-modos das burocráticas produções de horror do Cinema do Ocidente, naqueles aterradores filmes japoneses estava a crueza da maioria dos temas abordados, quase sempre pertencentes ao polêmico universo das películas Mundo Cão (Faces da Morte, Traços da Morte, vídeos reais de necropsia, etc) e dos míticos filmes snuff.
 Para qualquer aficionado, como eu, que se preze de filmes de horror os snuff são a fronteira final do gênero. Aquele tesouro que o connoisseur do gore, geralmente, irá procurar incansavelmente durante toda a sua existência mesmo que a única recompensa, caso um dia venha a encontrá-lo, sejam suores frios e pesadelos noturnos pelo resto de sua vida. A diferença entre os vídeos da série Faces da Morte e congêneres, encontrados em qualquer vídeo-locadora da vida, e os snuff é que os primeiros não passam de documentários, por vezes fake, mostrando as mais variadas atrocidades, sem nenhuma ligação entre si, ao redor do Globo como matanças de gado em frigoríficos, execuções em cadeiras elétricas, acidentes fatais, etc. Apesar de pesadíssimos, esses filmes mostram matanças que são fruto de desgraças como, por exemplo, as causadas pela força da natureza ou fazem parte de uma violência institucionalizada como as praticadas por matadouros, execuções de criminosos condenados a pena de morte, etc. Quer dizer, por mais nauseante e truculento que sejam as imagens está tudo dentro da lei.
 Já com as produções snuff o buraco seria bem mais embaixo...Aqui todo mundo envolvido no filme, menos alguns atores, sabem, desde o início, que o negócio vai ser para valer, sendo que são, na maioria das vezes, os próprios intérpretes da produção os perpetradores dos massacres. Além disso existe um roteiro, repleto de carnificinas, mortes, torturas e estupros, com começo meio e fim que é seguido a risca.
 É, supostamente, assassinato frio e real praticado em tempo real em frente as câmeras. Maldade pura.
 O termo snuff foi inventado no início da década de 1970 pelo roqueiro e escritor beat Ed Sanders que divulgou que a seita de psicopatas, liderada pelo notório assassino Charles Manson, havia filmado algumas das mortes que tinha cometido na década anterior.
 A natureza grotesca e singular de tal atrocidade assustou a população e chamou a atenção das autoridades que deram início a uma meticulosa investigação federal nos Estados Unidos, que contou com a ajuda de experts em efeitos especiais, para analisarem a fundo a veracidade dessas produções malditas que, a partir da polêmica declaração de Sanders, começaram a se espalhar nas grindhouses pelo Mundo a fora.
 Após 20 anos esmiuçando os supostos "filmes que matam" o FBI chegou a conclusão de que tudo não passava de efeitos visuais, alguns assustadoramente realistas, outros, nem tanto...
 Entretanto o mal já estava feito e a semente dos snuff foi plantada no imaginário popular tornando-se uma lenda urbana, assim como o Velho do Saco, A Gangue do Palhaço, e os Traficantes de Orgãos Humanos.
 Além disso os "filmes que matam" envenenaram a cultura pop turbinando as imaginações de escritores, cineastas, etc. Sendo citados, em maior ou menor grau, tanto em obras literárias, como o clássico da FC Neuromancer, de William Gibson, quanto em longas como Videodrome, de David Cronenberg, Emanuelle In America, de Joe D' Amato e Strange Days, de Kathryn Bigelow.
 Com todo esse macabro currículo em suas costas não foi a toa que, dentre todas as sadicamente inventivas produções de horror que haviam naquelas páginas impressas pelo meu amigo, a que mais me tinha impressionado e mexido com a minha imaginação era um snuff. Um como eu nunca havia ouvido falar antes...
 O filme japonês Flowers of Fleisch and Blood é, ao lado do italiano Canibal Holocaust, uma das produções mais polêmicas de todos os tempos e uma das que mais conseguiram enganar e chocar os espectadores ao fazê-los acreditar que, finalmente, estavam diante de um autêntico "filme que mata".
 Um dos fatores que mais contribuíram para toda a controvérsia em torno de Flowers of Fleisch and Blood foi, sem dúvida, o envolvimento do conhecido ator hollywdiano Charlie Sheen que viu uma cópia do filme na casa de uns amigos e, horrorizado com o realismo da obra, a denunciou para o FBI afirmando para as autoridades que se tratava de um snuff fidedigno.
 Após uma extensa investigação, em que os realizadores do filme tiveram que mostrar aos policiais, por meio de um making of, como foram, passo-a-passo, realizados os incríveis efeitos visuais da produção, chegou-se a conclusão de que, mais uma vez, tudo não passava de pura ficção.
 Bom, a partir deste dia no metrô eu comecei a adquirir qualquer tipo de publicação impressa que pudesse me passar algum tipo de conhecimento sobre este diabólico e lendário clássico gore. Algo que, diga-se de passagem, devido a natureza ultra-tétrica da obra, sempre foi muito difícil de encontrar.
 Foi só quando tive mais acesso a internet, que é uma verdadeira porta escancarada para dentro do lado mais negro do Homem, que eu pude mergulhar de cabeça em minha pesquisa sobre Flowers of Fleisch and Blood. Logo descobri que se tratava de um curta-metragem, o segundo, pertencente a uma série composta de onze episódios e com o sugestivo título Guinea Pig. A série foi idealizada pelo mestre dos mangás de terror, Hideshi Hino e pelo produtor Satora Ogura.
 O título é uma alusão aos porquinhos-da-índia (guinea pig, em inglês) e aos ratos de laboratório que são torturados e dissecados sem piedade por pesquisadores e especialistas das mais variadas áreas em prol do avanço científico.
 Mas na série Guinea Pig a única função das experiências com os "porquinhos da índia" é testar os limites do sadismo humano...
 A pouco mais de um ano atrás eu finalmente consegui adquirir dois exemplares da obra de Hino e Ogura.
 Bem, agora o que eu posso dizer é que a espera de treze anos, desde aquele dia no metrô, valeu cada segundo...
 Guinea Pig 2: Flowers of Fleisch and Blood (Za ginipiggu 2: Chiniku no Hana, Japão, 1985), dirigido e escrito por Hideshi Hino é, simplesmente, empolgante tanto para os aficionados do grand guignol, quanto para técnicos e estudiosos de efeitos especiais. Um impecável exemplar de Cinema Extremo que arrasta o espectador para dentro de um verdadeiro inferno gore. Um filme que, definitivamente, não é para qualquer um.
 Apesar de, por um certo tempo, Flowers of Fleisch and Blood ter causado tanta controvérsia quanto A Bruxa de Blair e Canibal Holocaust, o curta de Hideshi Hino não foi realizado nos clássicos moldes found footage das obras de Deodato e da dupla Eduardo Sánchez/Daniel Myrick.
 Na verdade, um olhar mais atento em Za ginipiggu 2 perceberá que o filme possui uma gravação de imagens fluída e edição profissional. Distante das imagens tremidas e câmeras nervosas manipuladas pelos próprios atores como ocorre na maioria dos candidatos a snuff. E apesar da narrativa iniciar com um letreiro informando o espectador que o filme foi realizado em formato 8 mm e entregue em um pacote por um doador anônimo na casa do desenhista Hideshi Hibino ( uma mal-disfarçada referência ao próprio diretor/roteirista/produtor da série Guinea Pig) em nenhum momento do curta se vê alguém manipulando alguma câmera, como é comum neste tipo de produção.
 Flowers os Fleisch and Blood praticamente não possui roteiro. É apenas um psicopata asqueroso estraçalhando o corpo de uma mulher até o seu último pedaço da forma mais realista, explicita e orgânica possível. É o ancestral de todos os torture porn que foi até aonde nenhum de seus descendentes, até hoje, tiveram o sangue-frio de irem.
 O assassino vai narrando de forma íntima e detalhada, para o espectador, todos os aspectos e pormenores das técnicas de tortura crescentemente inimagináveis que vai aplicando em seu "porquinho da índia". Tudo envolto por uma subliminar atmosfera de erotismo mórbido que parece dominar tanto o algoz, quanto a vítima.
 A mágica, ou seria melhor dizer magia negra, que dá vida ao filme de Hino são os efeitos especiais de maquiagem e próteses humanas que fariam, mesmo hoje, vinte e oito anos depois, o pessoal da Legacy, Creature Shop e KNB ferverem de inveja.
 Entre as dezenas de desgraceiras gore/splatter fodásticas que espirram na tela a cada segundo durante a exibição de Za ginipiggu 2 destacam-se a evisceração do sistema digestório,--- quem possui algum conhecimento em anatomia sabe que nosso estômago, intestinos, etc, formam um grande bolo que, se desenrolado, pode atingir até doze metros de comprimento. Um detalhe anatômico e fisiológico que foi rigorosamente respeitado pela equipe de efeitos especiais do filme,--- e os cotos amputados dos braços da vítima que se movimentam em espasmos arrepiantes capazes de deixar de boca aberta até o mais veterano fã de Cinema Extremo.
 Enfim, nesses tempos em que o cinema moderno tem  a seu dispor toneladas de hardware e software de última geração e mesmo assim parece sofrer de uma aguda crise de falta de criatividade e ousadia é quase inacreditável ver tudo o que os realizadores de Flowers of Fleisch and Blood fizeram a quase trinta anos atrás com, praticamente, um boneco e alguns litros de sangue falso.
 O curta fecha com o torturador proferindo um longo, denso, profundo e aterrador monólogo que serve como pano de fundo para a exibição das mais apavorantes, grotescas, macabras e surreais imagens, não apenas do próprio Za ginipiggu 2, mas, provavelmente, da própria cinematografia de terror de todos os tempos.
 Guinea Pig: Devil's Experiment (Za ginipiggu: Akuma no jikken, Japão, 1985), foi dirigido pelo outro hemisfério cerebral por detrás da série, o produtor Satoru Ogura, e é o filme que inaugurou a franquia.  Entretanto, assim como aconteceu com os demais exemplares de Guinea Pig, ele foi ofuscado por toda a polêmica que cercou Flowers of Fleisch an Blood. 
 Porém, isso não faz com que Devil's Experiment não seja uma experiência quase tão arrebatadora e tecnicamente primorosa quanto o seu sucessor.
 Seguindo a mesma linha que o segundo exemplar da série, Akuma no jikken também deseja confundir e perturbar o espectador ao tentar se passar por um snuff real. Entrementes, o filme, que assim como todos os demais da série também é um curta metragem, possui imagens e movimentos de câmera tecnicamente superiores aos da obra de Hino, rompendo de vez com o estilo, tão caro ao gênero snuff, found footage.
 Mas esse aspecto, que tira um pouco da crueza da obra, é compensado pelos dados informativos que aparecem nos cantos da tela, explanando que tipo de experimento está sendo realizado naquele momento com a cobaia. Isso dá um ar maior de experimento científico frio e racional a Devil's Experiment, realizado pelos "cientistas" de forma distante e indiferente, fazendo mais jus ao título da série e acentuando o sadismo.
 Akuma no jikken é mais contido em seu lado propriamente gore do que Chiniku no Hana, em compensação a violência e horror psicológicos sofridos pela vitima é mais intenso do que no curta de Hino.
 Mas não vá pensando que Satora Ogura realizou algum slasher imbecil para adolescentes do ensino médio ou alguma obra de terror subliminar como O Silêncio dos Inocentes e Seven. Embora não sejam tão constantes quanto em Flowers of Fleisch and Blood, o sangue e as tripas quando surgem em Devil's Experience reviram o estômago e estraçalham os nervos de muito machão que tem por aí. Da mesma forma que Chiniku no Hana, Akuma no jikken também é para poucos.
 Infelizmente, Ogura não teve a mesma mão forte que Hino no quesito interpretação de atores. Isso fez com que, quase até a metade do filme, as interpretações, tanto dos algozes quanto da vítima, soem irritantemente artificiais e cheguem as raias do cômico.
 Mas isso não estraga a obra que do meio até o seu final pega realmente pesado, culminando na antológica cena do close-up da perfuração ocular que deixa até ao mais cético dos cinéfilos em dúvida se o que ele está vendo é, ou não, real, ou se, ao menos, não utilizaram um cadáver humano para realizar a tal cena.
 Como acontece com a maioria de fenômenos pop japoneses, as raízes da série Guinea Pig estão nos cultuados mangás ( histórias em quadrinhos nipônicas). Hideschi Hino criador, produtor (ao lado de Satora Ogura), e diretor/roteirista de dois episódios da série ( Flowers of  Fleisch and Blood e Mermaid in the Manhole) é um dos mais famosos mangakás do Japão. Hino é expert em mangás de horror radical repletos de cadáveres putrefatos, criaturas monstruosas e assassinos sanguinários.
 Antes que alguém aí comece a pensar que os japoneses são os seres mais doentios do universo, devemos entender de que se trata de um povo com valores e tradições completamente diferentes da maioria dos países ocidentais.
 O Japão nunca aceitou o cristianismo, tampouco as ideias de Freud. Devido a isso eles vêem o sexo e a violência de um ponto de vista bem mais livre e sem encucações.
 Para os japoneses pouco importa se você é sadomasoquista, homossexual ou pervertido. O que vale para eles é se sentir a vontade com suas taras e preferências sexuais.
 E nem por isso a sociedade japonesa é um poço de violência, muito pelo contrário, trata-se de um dos povos mais educados e gentis entre si do planeta. Enquanto que no Brasil, um dos países mais cristãos do mundo, impera a barbárie e a truculência.
 Mas não vamos nos aprofundar em questões sociológicas e filosóficas...O que importa é que Guinea Pig é uma das séries de filmes de terror mais fortes e polêmicas de todos os tempos e uma das que mais contribuíram para perpetuar e espalhar o mito dos snuff . Também são os exemplares de Cinema Extremo mais revolucionários em termos de confecção de efeitos especiais dos últimos tempos. E que, muito provavelmente, deve ter servido de escola para alguns dos maiores experts de efeitos visuais de Hollywood e do Mundo. Experts esses que, é quase certo, nunca revelarão que se basearam em uma doentia série de horror japonesa para elaborarem os inovadores efeitos de suas produções milionárias. Assim como é pouquíssimo divulgado que a edição de som de O Exorcista, premiada com o oscar da categoria, foi produzida por um técnico de som oriundo das produções malditas do obscuro cineasta chileno Alexandro Jodorowski, ou que os programadores dos supercomputadores da Weta Digital que criaram o Mundo de Avatar de James Cameron devem muito de seu aprendizado aos banhos de sangue e vísceras que fizeram a fama da empresa de efeitos especiais de Peter Jackson, lá em seus primórdios.
 Bom, enquanto isso o verdadeiro snuff aguarda por nós nos porões de alguma vídeo-locadora decadente ou escondido nos fundos de uma sex-shop sadomasoquista...

 Agradecimentos a Carlos Thomaz "Canibal" Albornoz.