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I TRE VOLTI DELLA PAURA: O HORROR, PEDAÇO A PEDAÇO...

 Herdeiros das revolucionárias HQS de horror Tales From The Crypt e Creepy  das editoras E.C. e Warren respectivamente e das seminais séries de tv Além da Imaginação (Twilight Zone) e Galeria do Terror (Night Gallery) do genial Rod Serling, os longas de terror divididos em episódios independentes ou interligados, à décadas, são uma tradição no Cinema Fantástico.
 De Creepshow (EUA/1982): uma união de forças entre George Romero e Stephen King que homenageava os gibis da E.C. e Contos da Escuridão (Tales From the Dark Side, EUA/1990) de John Harrison, que também tem a mão de Romero, pois é baseado em uma série de televisão homônima criada pelo pai dos zumbis modernos na década de 1980, passando pelo oriental Três Extremos (Saam Gaang Yi, Japão/Hong Kong, 2004), que junta três dos maiores realizadores do Cinema Fantástico Asiático: Fruit Chan, Park chan-wook e Takashi Miike, e Grindhouse (EUA/2007) da dupla Rodriguez/Tarantino,  chegando aos recentes ABC da Morte (ABC of Death/EUA, 2012) e VHS 1 e 2 (EUA/2012/2013) que são um verdadeiro quem é quem entre os diretores mais talentosos e sádicos em se tratando de ação, horror e ficção científica do cinema atual.
 Todas essas produções, em maior ou menor grau,  deixaram sua marca na trajetória do Horror Episódico nas telas. Algumas pela sua incontestável qualidade, outras por uma indisfarçável mediocridade.
 Entretanto, o exemplo mais paradigmático dessa irregular estirpe cinematográfica é o italiano As Três Máscaras do Terror (I  Tre Volti Della Paura/1963) dirigido pelo titânico cineasta Mario Bava. Tanto os estudiosos da obra do diretor quanto os aficionados por As Três Máscaras do Terror já estão cansados de ouvirem falar que a versão em inglês do título do filme inspirou os integrantes originais do Black Sabbath a renomearem sua banda, que então se chamava Earth, e a partir de então entrarem para a história do rock pesado. Portanto, não vou me ater muito a este tópico. Até porque I Tre Volti Della Paura é mais do que, "simplesmente", a película que emprestou seu título a primeira, e uma das maiores, bandas de heavy metal de todos os tempos. Muito mais...
 Fragmentado em três funestos e aterradores episódios distintos este quinquagésimo terceiro longa do, já então veteraníssimo Bava, teve como base para todos os seus segmentos obras literárias de diferentes autores.
 Acredito que aqueles que, a exemplo de mim, além de cinema e produções de horror também sejam entusiastas de literatura devem ter ficado arrebatados quando leram nos créditos de As Três Máscaras do Terror os nomes "Tolstói", "Chekov" e do escritor francês proto-lovecraftiano "Guy de Maupassant", autor do incrível conto O Horla.
 Como os créditos não especificavam qual episódio do longa correspondia a obra de qual autor tive que consultar o expert Paulo Blob Teixeira que é crítico e resenhista dos sites Boca do Inferno e Gore Boulevard.
 Segundo Paulo, a coisa está estruturada da seguinte forma: o primeiro episódio, O Telefone (Il Telefono), seria, supostamente, basado em um conto de Maupassant, entretanto algumas fontes o creditam a um caliginoso escritor norte americano chamado F.G. Snyder. Agora atenção fãs de Guerra e Paz e de Literatura Russa: o tal Tolstói, cujo conto A Família do Wedalak serviu de base ao segundo episódio O Wurdulak ( I Wurdulak), não é o Leon e sim Aleksei Tolstói, que era primo do cara.
 Da mesma forma o terceiro, e derradeiro, episódio, A Gota D'Água ( La Goccia D Acqua), não é de autoria de Anton Chekov, mas sim de seu irmão, Ivan Chekov.
 Entretanto, isso não desvia nem por um milímetro sequer I Tre Volti Della Paura do que ele realmente é: uma obra prima da cabeça aos pés.
 O primeiro episódio, O Telefone, que inicia após uma breve introdução do mítico Boris Karloff que apresenta o longa ao espectador no melhor estilo Rod Serling em The Twilight Zone, é um mini giallo que, em cerca de trinta minutos, consegue concentrar todas as principais características do gênero: o assassino absolutamente impiedoso, o amalgama entre perversidade e sensualidade e aquela sofisticadamente maldosa condução do suspense a lá Hitchcock que não tem pena em levar a tensão e o medo do espectador ao limite do insuportável.
 Uma inesperada reviravolta e um implícito, mas excitante, envolvimento homossexual entre as protagonistas fecha O Telefone com chave de ouro.
 No segundo capítulo, O Wurdulak, Mario Bava mergulha no mesmo magnífico ambiente gótico medievalesco de seu La Frusta e il Corpo, lançado logo após As Três Máscaras do Terror.
 É a partir deste episódio que o sobrenatural invade o filme de forma gélida e implacável. Com o diretor trocando o medo do, à época, moderno giallo pelo primitivo arrepio na espinha proporcionado pelo romantismo tétrico de obras como Frankstein e Drácula. A trama gira em torno de uma família assombrada por vampiros, os tais wurdulaks do título, numa cabana perdida, pelos nomes dos personagens em alguma região selvagem e/ou rural da Rússia, em meio a névoas fantasmagóricas, montanhas desoladas, florestas escuras e ruínas de castelos ancestrais. A beleza plástica de O Wurdulak é estonteante e macabra nos mínimos detalhes. Impossível afirmar quais os tipos de cenários deste segmento são os mais horripilantes: as locações naturais ou as cenas gravadas em estúdio.
 A fotografia ultra dark de Ubaldo Terzano e do próprio Mario Bava é tão densamente escura que se torna quase palpável, iluminando apenas os momentos mais aterradores como faces distorcidas pelo medo intenso e os olhares e expressões predatórios dos vampiros.
 Tudo isso faz de O Wurdulak uma daquelas obras de horror niilistas e inclementes, onde nem mesmo crianças pequenas são poupadas, quando já sabemos, desde os primeiros segundos de exibição, que as coisas vão acabar muito, mas muito mal.
  Como a cereja do bolo, o episódio traz novamente Boris Karloff como o vampiro patriarca em uma interpretação que, mesmo nos momentos que beiram a canastrice, nos transmite uma agoniada sensação de perigo iminente e medo perpétuo.
   A Gota D'Água, o segmento que fecha I Tre Volti Della Paura, marca outra guinada estética e temática em relação aos dois episódios anteriores.
   Se o principal aspecto de O Wurdulak era a escuridão quase impenetrável de suas imagens em um cenário rústico e selvagem, A Gota D'Água é um gótico urbano. Com ambientes sombrios sendo rasgados por fachos de luzes enjoativos e multicoloridos que parecem serem projetados por um estroboscópio enlouquecido. Uma chuva incessante, trovões e anúncios de neon que piscam sem parar sob os telhados de prédios soturnos conferem ao curta um look de noir futurista que antecipa o visual de Blade Runner.
  Enquanto que a história de O Telefone parecia ter saído diretamente das sarcasticamente sangrentas páginas das HQS policiais e de crime da E.C. como Shock Suspenstories, agora Bava bebe diretamente da fonte dos títulos de horror sobrenatural da editora, tais como The Haunt of Fear e Tales From The Crypt.
  Todos os três episódios de As Três Máscaras do Terror são fascinantes e envolventes, entretanto este último é absolutamente impecável e de uma precisão egrégia. Aqui a mistura entre horror e suspense, que beirava a perfeição nos capítulos anteriores, atinge a sua exata fusão.
   É assombrosa a forma como, neste segmento, o diretor consegue extrair toneladas de medo e tensão utilizando, praticamente, um único personagem envolvido em situações banais do cotidiano como, por exemplo, a água que pinga de uma torneira mal fechada.
   O epílogo de As Três Máscaras do Terror, assim como seu prólogo, é apresentado por Karloff, que em uma rápida sequência que mostra o making off da produção, nos arranca de supetão do mundo de I Tre Volti Della Paura de forma cínica e debochada. Um mundo feito de um aterrador jogo de luzes e sobras e habitado por assassinos, fantasmas vingativos e monstros infanticidas.
 Como eu já havia mencionado em minha postagem sobre La Frusta e il Corpo, os filmes do cineasta italiano Mario Bava (1914-1980) são verdadeiras aulas de cinema. Infelizmente este magnífico cineasta é ignorado até mesmo entre muitos fãs de horror e Cinema Fantástico. Fãs estes que babam ao elogiarem várias produções recentes de suspense e terror sem saberem que, muitas delas, devem muito a obra de Bava.
  Só mais uma coisa: ao terminar de ler esta resenha, leitor, certifique-se de que as portas e janelas de sua casa estão bem trancadas. E muito cuidado ao passar perto de alguma sombra, pois pode ter um vampiro, ou algo pior, escondido dentro dela. Parafraseando Bóris Karloff no prólogo de As Três Máscaras do Terror: Essas criaturas existem. E adoram sugar o sangue dos vivos... 








 









 





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Mulheres No Front



 O futuro é guerra!!!
Atari Teenage Riot



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Manhã de 11 de setembro de 2001: sol brilhante, temperatura amena, céu azul límpido, 0% de nuvens. O inverno macabro e escuro começando o retorno à sua catacumba e cedendo espaço para a alegre e luminosa primavera. Eu caminho despreocupado pela rua achando que nada pode estragar aquela afável manhã...
 De repente, começo a perceber um padrão que se repete: várias pessoas ao meu redor comentando, com um misto de surpresa, espanto e incredulidade, sobre um ataque terrorista aéreo nos Estados Unidos.
 Hoje, olhando para atrás, eu acredito que foi naquele exato instante que o Século XXI havia realmente começado para mim e para o resto do Mundo.
 Não dou muita bola para os comentários, afinal, minha geração tinha crescido com noticias sobre guerras e violência dividindo espaço na tv com desenhos animados, seriados e novelas.
 Chego em casa, ligo a televisão: todos os canais mostrando a mesma coisa: uma das gigantescas torres do World Trade Center cospe fogo e fumaça por todos os lados.
 No Plantão de Notícias da Rede Globo o jornalista Carlos Nascimento narra o fato com o mesmo tom de voz tenso e incrédulo da maioria das pessoas que estão vendo aquela imagem simultaneamente pelos quatro cantos do Mundo.
 Parece que estamos vendo um filme...É a fala de Nascimento que fica marcada a ferro e fogo em minha memória.
 De repente, ao vivo, em tempo real, eu vejo a História se desenrolar em frente aos meus olhos: o segundo avião perfura a outra torre do WTC como uma faca, uma lança, um míssil. Uma gigantesca língua de fogo aravessa verticalmente a torre de uma ponta a outra.
 Nascimento, como o resto do Mundo naquele momento, surta: grita, não fala coisa com coisa.
 FIM DO MUNDO! CAOS! TERCEIRA GUERRA MUNDIAL! São os únicos pensamentos que tomam conta da população planetária como se fossem uma pandemia global que se espalha a velocidade da luz.
 Enquanto isso, eu ainda não havia me dado conta de que havia tido o privilégio de assistir ao vivo ao maior ataque terrorista da história. Muito obrigado Mundo moderno.
 Fade out

Fade in
 Uma noite qualquer no início dos anos 1980: as imagens em preto e branco do Jornal Nacional em minha velha televisão Phillips mostram aquelas mesmas notícias de sempre que de tão triviais, mesmo para uma criança abaixo dos dez anos de idade como eu, não impressionam mais: fanáticos do Oriente Médio metem fogo ao próprio corpo, cidades destruídas em meio a desertos infernais, tanques de guerra, rolos de fumaça negra, crianças chorando de fome, mães desesperadas, homens feios de pele escura gritam e apontam metralhadoras para as câmeras dos jornalistas. Guerra Santa. Guerra do Petróleo. O aiatolá Khomeini  é o Bin Laden oitentista.
 Fade out

Fade in
 1991: a jurássica Phillips P&B deu lugar a uma National/Panasonic colorida. A televisão evoluiu, mas as imagens que ela exibe não mudaram muito: ventos e tempestades de areia fazem as chamas de corpos carbonizados dançarem loucamente. Maquinário de guerra pesado trocam os desertos do Irã pelos do Kwait. Soldados americanos armados até os dentes com o mais letal arsenal high-tech se dilaceram com guerrilheiros árabes miseráveis armados até os dentes com o mais letal fanatismo religioso.
 Poços de petróleo vomitam chamas gigantescas como se fossem as bocas do Tártaro.
 O que muda é que agora esta é a guerra das máquinas, dos computadores, da cibernética, da alta tecnologia, das comunicações instantâneas.
 Pela primeira vez um conflito bélico é transmitido em tempo real para todos os lares do Mundo.
 O massacre virou um reality show. A carnificina é um vídeo-game. É a guerra do futuro.
 Fade out                      


  Ok. Os três parágrafos acima servem como uma rápida síntese para mostrar ao leitor um panorama geral do histórico do caldeirão fervente de sangue, suor, facciosismo religioso/político e cobiça assassina que é o Oriente Médio desde a década de 1980, na verdade as tretas com os árabes vem desde a época das cruzadas, mas aí eu eu vou acabar digitando um tratado de História Bélica..., e expor que a jihad terrorista muçulmana, a décadas, já era uma bomba atômica que ameaçava explodir sobre as cabeças de nós, ocidentais, a qualquer instante.
 Entretanto, foi só após o 11 de setembro, quando a bomba atômica, de fato, explodiu, que as mídias e a cultura pop resolveram explorar o problema de maneira mais séria e aprofundada.
 E é claro que um dos meios de Comunicação de Massa e expressão artística mais influentes e cultuados, o cinema, logo ficou ávido por investigar o avesso e o direito do lado negro do Oriente Médio.
 Ao contrário da intervenção militar norte americana no inferno verde vietnamita em que antes da guerra acabar Hollywood já mostrava na telona as entranhas do conflito, mesmo que de forma torta e nacionalista como em Os Boinas Verdes (The Green Berets/EUA, 1968), de John Wayne e Ray Kellogg, e logo após o fim das atrocidades marciais no Sudeste Asiático, quando as chamas do napalm e o cheiro de sangue inocente ainda estavam bem vívidos na memória do povo norte-americano, o cinema esfregava a cara dos espectadores ianques no lodo de desumanidade que os militares americanos haviam provocado e sofrido no Vietnã através de produções brutais, sombrias e ultra realistas como Amargo Regresso (Coming Home/EUA,1978), de Hal Ashby e Apocalipse Now (EUA, 1979), de Francis Ford Copolla, as conflagrações no Irã, Afeganistão, etc eram abordadas escassamente por cineastas e produtores. E quando o faziam era de forma inverossímil como no legal, mas falacioso, blockbuster Rambo 3 (EUA,1988), de Peter MacDonald. Películas mais sérias sobre o assunto, a exemplo de A Fera da Guerra (The Beast/EUA, 1988), de Kevin Reynolds, eram lançados nos cinemas de forma tímida e logo se tornavam filmes obscuros e esquecidos.
 Mesmo quando os Estados Unidos tinham uma participação direta, como na Guerra do Golfo no Kwait no início da década de 1990, Hollywood, praticamente, não tocava no assunto.
 Pois, como diz o ditado: Pimenta nos olhos dos outros, os "outros" no caso, seria a população miserável, e descartável, do Oriente Médio, é colírio.
 Quando o boing 737 da American Airlines pulverizou em segundos centenas de pessoas inocentes no WTC transferindo todo o horror e o radicalismo da jihad para o coração do Império Capitalista do mundo civilizado, fazendo com que os gringos sentissem o gosto de seu próprio veneno, que Washington, e todos os meios de comunicação norte americanos, se tocou do pepino que tinha em mãos...
 A paulada do 11 de setembro foi tão feroz e traumática que, a princípio, nenhuma mídia teve coragem para abordar o assunto. Várias produções cinematográficas que tocavam em tópicos como terrorismo, explosões ou qualquer outro tema muito violento foram imediatamente descartados. Um exemplo foi o longa Efeito Colateral (Collateral Damage/EUA, 2002). Dirigido por Andrew Davis e estrelado por Arnold Schwarzenegger Efeito Colateral não passava de um típico filme de aventura escapista e feijão com arroz, entretanto como sua trama girava em torno de ataques terroristas teve, à época, seu lançamento nos cinemas adiado indefinidamente. Outra amostra do verdadeiro tabu que se tornou mostrar qualquer ângulo, por mais ínfimo que fosse, que lembrasse a fatídica data foi o fato de a Sony Pictures ter retirado todos os trailers e posters de Homem-Aranha (Spider-Man/ EUA, 2002), cuja trama se passava inteiramente em Nova Iorque, de Sam Raimi que mostravam alguma imagem do WTC.
 Foram necessários onze anos para que Hollywood conseguisse digerir o pesadelo do 11 de setembro e depois regurgitá-lo de forma madura, corajosa e realista. E, claro, também foi necessário um cineasta, ou talvez uma cineasta..., com culhões suficientes para escancarar nas telas, sem nenhum tipo de concessão ou frescura, as consequências do maior ataque terrorista da história.
 A consequência dos ataques de 11 de setembro, lógico, foi a guerra.
 Em 20 de março de 2003, tropas militares dos Estados Unidos, Inglaterra e outros países formaram uma aliança chamada Coalizão e foram à desforra, por terra, água e ar, no Oriente Médio.
 Os nazis e Charlies foram substituídos por guerrilheiros árabes, os kamikazes por islâmicos fanáticos com bombas enfiadas até no cu que se jogavam despudoradamente sobre seus inimigos. Hitler e Mussolini "encarnaram" em Osama Bin Laden e Saddan Hussein respectivamente. As ideologias políticas diabólicas que agora ameaçam o Mundo Livre não se chamam mais Nazismo e Comunismo, mas Taliban e Al Qaeda e o Afeganistão e o Iraque se transformam na Europa da década de 1940 e no Sudeste Asiático dos anos 1960.
 Apesar de produções como Soldado Anônimo (Jarhead/EUA, 2005) de Sam Mendes, World Trade Center (EUA/2006) de Oliver Stone e Voo United 93 ( United 93/EUA, 2006) de Paul Greengrass já haverem abordado o inferno do 11 de setembro sob os mais diversos aspectos foi somente em 2009 que veio à luz o primeiro filme a mostrar sem dó nem piedade as entranhas do campo de batalha no Iraque.
 Guerra ao Terror (The Hurt Locker/EUA, 2009) de Kathryn Bigelow de cara desmistifica o conceito de guerra do vídeo-game pelo qual a intervenção gringa ao Oriente Médio ficou conhecida desde 1990 e que conferiu ao conflito uma aura quase de guerra fria. Provando que, mesmo imersa na mais alta tecnologia, uma guerra será sempre uma guerra com toda a dor, morte, genocídios, corpos despedaçados, medo e rios de sangue que sempre a caracterizaram. Pelo contrário, quanto mais dispõe de mecanismos high tech de destruição mais desumanizado e robotizado se torna o soldado em campo de batalha.
 A obra de Bigelow é um puta thriller de ação que retrata em minúcias o dia a dia insano de um grupo de soldados americanos em Bagdá especialistas em desarmar bombas. Os tais hurt lockers do título original.
 A produção se transformou em um clássico instantâneo da cinematografia bélica, venceu seis oscar, incluindo o primeiro prêmio de melhor diretor concedido à uma mulher na trajetória da Academia e foi comparado a filmes de guerra históricos como Apocalipse Now (EUA/1979) de Francis Ford Copolla e Platoon (EUA/1986) de Oliver Stone.
 Três anos após Guerra ao Terror, Bigelow e o seu roteirista Mark Boal mergulham novamente no hades iraquiano ao levarem para as telas o episódio mais importante, tenso e polêmico do envolvimento norte americana no Oriente Médio desde os anos 1980.
 A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty/ EUA, 2012) relata em pormenores perturbadores a obsessão doentia de um grupo de agentes da CIA em destrinchar o intrincado e mortífero labirinto de pistas falsas, contradições, burocracia e terroristas fanáticos que levará a Osama bin Laden, o todo poderoso da Al Qaeda, apontado como o principal responsável pelos ataques de 11 de setembro e, até a sua morte, o homem mais procurado e temido de todo o planeta Terra.
 Com um plot desta natureza era de se esperar uma verdadeira ode ao ufanismo de Tio Sam. Entretanto Katryn Bigelow despe A Hora Mais Escura de qualquer resquício de patriotada e pieguice entregando um filmaço de suspense e espionagem sombrio temperado com cenas de ação cruas e nervosas que descende diretamente dos desglamourizados, realistas e eletrizantes épicos de ação de Sam Peckimpah, William Friedkin e Walter Hill das décadas de 1970/1980.
 Narrado em um árido tom documental, o cerne de A Hora Mais Escura é o amadurecimento e perda da inocência de Maya (Jessica Chastian), uma agente novata da Agência Central de Inteligência norte americana que, a medida que vai se envolvendo de forma cada vez mais profunda na guerra ao terrorismo vai, gradativamente, perdendo a visão altruísta que tinha do Mundo.
 Um dos principais cérebros por trás da caçada a Bin Laden, Maya, que a princípio se sentia assustada e envergonhada ao presenciar uma "simples" sessão de tortura em um suspeito de terrorismo, vai sendo progressivamente possuída pelo truculento mundo de violência, fanatismo e armas pesadas que explode diariamente ao seu redor e, ao final dos vários anos de estressantes e meticulosas operações militares e de espionagem que levaram a execução do líder da Al Qaeda, a agente se torna tão fria, brutal e politicamente incorreta quanto seus colegas torturadores que, no início, a repugnavam.
 Personagem feminino atípico no Cinema Americano, a agente Maya possui muito mais características daqueles anti-heróis ríspidos e solitários protagonizados por Robert De Niro e Pacino em clássicos barra pesada como Táxi Driver, Serpico e Fogo Contra Fogo do que dos tradicionais papéis românticos e engraçadinhos interpretados por Júlia Roberts, Meg Ryan e Sandra Bullock.
 Aqui, novamente, a exemplo de Guerra ao Terror, a diretora Katryn Bigelow trabalha com a assustadora ideia de que a guerra e a carnificina são tão viciantes quanto uma droga pesada.
 A personagem de Chastian vê a sua rotina diária ser inteiramente consumida e preenchida pela adrenalina da guerra e da obsessão em trucidar Bin Laden. Maya não tem mais vida social, tampouco amigos e não consegue se afastar da zona de conflito mesmo sabendo que a qualquer instante ela possa ser feita em pedaços pela bomba de algum fanático.
 A guerra se tornou o seu crack, a sua heroína. Algo que devora seu corpo e espírito, mas que ao mesmo tempo é a única coisa que a faz seguir em frente em sua vida.
 A operação militar para assassinar Osama Bin Laden realizada pelo secretíssimo Seal Team Six, grupo de soldados de elite composto pelos melhores entre os melhores da Marinha dos EUA, é mostrada com uma riqueza de detalhes e realismo assombrosos, lembrando muito mais as táticas amedrontadoras do BOPE nas favelas do Rio em Tropa de Elite do que as epopeias bélicas esfuziantes de Braddock e Rambo. A sequência é filmada de forma ágil e seca, sem trilha sonora épica ou qualquer outro elemento que exalte coragem, heroísmo ou patriotismo.
 Pelo contrário, armados até os dentes e utilizando sofisticadíssimos óculos de visão noturna, que confere aos soldados uma aparência robótica fria e assustadora, os membros do Team Six vão eliminando qualquer homem ou mulher que surja em sua frente enquanto penetram no covil do líder da Al Qaeda mostrando que os soldados que executaram o líder máximo do terrorismo mundial não eram campeões da verdade e da justiça a serviço do mais fraco e oprimido, mas apenas assassinos profissionais competentíssimos e, provavelmente, muito bem pagos.
 A Hora Mais Escura, assim como os demais trabalhos de Bigelow, pertencem, em minha opinião, a um sub-gênero problemático do Cinema de Ação: os filmes de ação para adultos.
 Problemático não no sentido de qualidade, mas no de encontrar o seu público. Esmagados entre os filmes de ação convencionais, aqueles com roteiro repleto de furos gritantes e script que parece ter sido redigido por um débil mental, que tem como seu público alvo adolescentes que ainda acreditam que o Mundo é uma gigantesca Disneylândia e que medem o valor de um filme apenas pela quantidade de tomadas com CGI que são jogadas por minuto na tela e por dramas chatos repletos de lições de moral que os espectadores mais maduros parecem acharem que tem obrigação de assistirem para se sentirem mais intelectuais, os filmes de ação e aventura adultos são ignorados tanto pelo público mais jovem que torce o nariz para a complexidade do roteiro, se assusta com o realismo das cenas de violência e não tem paciência para um longa de aventura onde adrenalina, diálogos inteligentes e assuntos intrincados caminham lado a lado, quanto pelos cinéfilos adultos que, geralmente, pelo trailer e o cartaz os confundem com os filmes de ação tradicionais endereçados à platéia ten.
 Além de Katryn Bigelow os únicos outros cineastas de Hollywood em atividade hoje em dia com coragem para realizar longas de ação culhudos são Michael Mann (Fogo Contra Fogo, Miami Vice), Paul Greengrass ( Ultimato Bourne, Capitão Phillips) e o revolucionário Quentin Tarantino.
 Embora as produções destes cineastas sejam, quase sempre, elogiadas pela crítica dificilmente alguma de suas obras entrará para a lista das Maiores Bilheterias de Todos os Tempos. E resultam, como no caso dos subestimadíssimos filmes de Michael Mann, geralmente, em fracassos financeiros que são rapidamente esquecidos e se tornam obscuros cult movies.
 Quase sempre esse tipo de filme acaba encontrando seu nicho de admiradores entre os entusiastas de produções de horror heavy, filmes alternativos e de arte que estão mais acostumados a experimentalismos cinematográficos, temáticas radicais e cenas fortes.
 Um ponto que me deixou intrigado em relação a crítica "especializadas" sobre Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura  foi o fato desta ter se surpreendido por uma obra tão visceral ter sido dirigida por uma mulher.
 Ora, só um cinéfilo pirralho que nasceu ontem ou alguém que desconheça completamente a trajetória de Katryn Bigelow para se abismar por toda a crueza e truculência de Zero Dark Thirty terem saído de uma mente feminina.
 Desde meados da década de 1980 que essa californiana, hoje uma sessentona enxuta que ainda tem muita adrenalina para queimar, vem mostrando ao mundo que filmes repletos de ação, fúria e músculos não são exclusividade de cineastas machões.
 Aqueles que, em termos cinematográficos, sempre associam o universo feminino a filmes românticos, dramáticos e "com mensagem", o chamado filme de mulherzinha, vai se assustar com toda a raiva, sangue e violência que explodem nas produções de Katryn Bigelow.
 Uma espécie de John Woo/ Peckimpah de saias, Bigelow começou a chamar a atenção de crítica e público com o terror ultra-cult  Quando Chega a Escuridão (Near Dark/EUA, 1987). Um dos mais realistas e perturbadores longas sobre vampiros já realizados. Ficando cabeça a cabeça com outros marcos sobre o assunto no cinema como Martin (EUA/1976) de George Romero, Sede de Sangue (Bakjwi/Thirst/ Coréia do Sul, 2009) de Chan-wook Park e Fome de Viver (The Hunger/EUA, 1983) de Tony Scott.
 Três anos após o sucesso de Near Dark a audaciosa cineasta se une ao feroz e polêmico Oliver Stone, que produz o novo petardo fílmico de Bigelow, e entrega outro filmaço: Jogo Perverso (Blue Steel/EUA, 1990). Um thriller policial feminista e brutal.
 Em 1991 a diretora conquista de vez os corações e mentes dos fãs do Cinema de Ação ao redor do Mundo com o arrebatador Caçadores de Emoções (Point Break/EUA, 1991). Produção policial sangrenta e estilizada mesclada com as mais alucinantes sequências de esportes radicais que se possa imaginar.
 Point Break marcou o início da relação profissional, e pessoal, de Katryn Bigelow com o todo poderoso James Cameron ( Titanic, Avatar).
 Cameron também iria produzir, e roteirizar, o próximo trabalho da cineasta: Estranhos Prazeres (Strange Days). Um cyberpunk sombrio e sinistro que antecipava as ideias de Matrix, mas com um teor bem mais adulto e efetivo que a obra dos Wachowski.
 Com o fracasso comercial de Estranhos Prazeres, algo inexplicável para uma produção tão empolgante, inteligente e tecnicamente impecável como Strange Days, Bigelow ficou no limbo por cinco anos retornando em 2000 com o drama hardcore O Peso Na Água (The Weight of Water/EUA, 2000), em que a cineasta transfere para os filmes dramáticos toda a força e ritmo pulsante dos longas de ação e aventura.
  Infelizmente, seguindo a sina de Strange Days, The Wight of Water também foi ignorado por crítica e público e logo foi esquecido nas prateleiras das vídeo locadoras.
 Dois anos depois a incansável diretora comanda a super produção K-19, The Widowmaker (EUA/2002). Uma aventura submarina a lá Caçada ao Outubro Vermelho ( The Hunt for Red October/EUA, 1990). Ambientado durante a guerra fria, K-19 trazia as marcas registradas de Bigelow: cenas de ação intensas e cruas e personagens verossímeis. O problema dessa vez foi que a estrela de Katryn Bigelow foi ofuscada pela presença do seu elenco famoso. Sendo que, até hoje, K-19 é muito mais lembrado como sendo "um filme" de Harrison Ford e Liam Neeson, protagonistas do longa, do que de Bigelow.
 Finalmente, em 2009, com um orçamento pequeno, portanto com muito mais liberdade criativa e menos pressão de produtores, Bigelow pode realizar outro clássico do mesmo nível de Point Break e Strange Days. Guerra ao Terror, juntamente com seu filme irmão A Hora Mais Escura, é uma primorosa obra-prima da violência, degradação e loucura que, finalmente, trouxe para as telas, sem nenhum tipo de complacência, a verdade e real dimensão sobre a intervenção norte americana no Oriente Médio. De quebra recolocou a carreira desta cineasta genial nos trilhos e, como eu citei anteriormente, deu um murro na cara do conhecido machismo hollywdiano arrancando da Academia o primeiro oscar de melhor diretora em quase oitenta anos de existência da premiação.
 Bem vinda de volta Katryn Bigelow!
 E viva as mulheres!                                                        




 
 






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ON OTNIRIBAL

                                                                           

 



  O meu primeiro contato oficial com a obra de James Joyce se deu em minha adolescência no interior das páginas de Skreemer uma densa e estilosa HQ techno-noir da DC Comics. Roteirizada por Peter Milligan e ilustrada por Brett Ewins e Steve Dillon, Skreemer era uma história de gangsters crua e ultraviolenta a lá Scarface que fazia várias citações da obra de Joyce especialmente a O Despertar de Finnegan (Finnegan's Wake). Além de possuir uma diagramação intrincada e inovadora típica dos livros do escritor irlandês.
 Eu disse "oficial" porque, a exemplo de outros deuses-demônios da Literatura Universal como Shakespeare, Homero, Lovecraft, Hemingway, Arthur Conan Doyle, Érico Veríssimo, etc, para mim, e acredito que para a maioria das outras pessoas também, parece que eu sempre soube da existência de James Joyce e dos outros escritores citados acima.
 Acredito que esse estranho fenômeno deva acontecer devido ao fato da obra desses escritores estarem tão amalgamados e de estarem sendo a séculos tão influentes nos mais variados aspectos de nossa sociedade que, da mesma forma como ninguém precisa nos ensinar que devemos usar a boca para nos alimentarmos ou nos mostrar que o sol é quente e a água molhada, parece que já nascemos sabendo quem são Homero, Dante e cia. Parece que esses escritores sempre estiveram conosco mesmo na época em que não sabíamos exatamente quem eram eles.
 E isso acontece independente de você gostar, ou não, de ler. Da mesma forma como não se precisa ser um ávido consumidor de quadrinhos ou ser um beattlemaníaco para saber, antes mesmo de aprendermos a falar, quem é o Super-Homem ou quem são John, George, Ringo e Paul respectivamente.
 É algo instintivo, genético...Acredito que este seja o real motivo dos livros destes autores serem chamados de Literatura Universal.
 Ok. Confesso que estou meio nervoso em resenhar a obra que muitos teóricos da literatura consideram como sendo o romance definitivo de século XX.
 Entretanto, como o lema que eu mais venho utilizando durante toda a minha vida tem sido: "Que se foda"! e seguir em frente, vamos lá. Ah, só mais uma coisinha antes de começar: a pouco mais de um mês atrás eu li em Diário Mínimo (editora Record, 433 pág.), de Umberto Eco, uma fodástica coletânea de crônicas, um texto em que Eco aconselhava o leitor a, ao contrário do que muitos pensam e orientam, ler a intrincadíssima e exaustiva obra do escritor James Joyce sem qualquer tipo de pré-conhecimento ou conselhos de críticos literários, pois, devido ao caráter multi interpretativo da obra do escritor irlandês, o mais importante em se tratando dos livros Joyce seria, em primeiro lugar, tirarmos nossas próprias  conclusões. E assim, livre da interferência de qualquer espécie de influência externa, cada leitor poderá, talvez, ver, acrescentar e descobrir novos ângulos e pontos de vista que estariam, até então, ocultos nos livros do escritor irlandês.
 Bom, sendo assim QUE SE FODAM os acadêmicos, pois, a partir de agora, a análise de Ulysses (Penguin/Companhia das Letras, 1.106 pág.), de James Joyce que você vai ler será feita com o mínimo de base teórica possível. Em que prevalecerá, em primeiro lugar, a minha própria e exclusiva visão sobre a saga de Leopold Bloom.
 Afinal, por mais mundana e medíocre que alguns possam considerar esta resenha ela será, no fim das contas, igual aos personagens de Ulysses. Porque por detrás das toneladas de referências aos assuntos mais complexos e obscuros e das inovações narrativas radicais da obra a principal mensagem de Joyce era enaltecer os aspectos mais comuns do ser humano. Mostrando brilhantemente que mesmo as situações mais triviais do dia a dia podem serem portas para os mais aterradores, complicados e fascinantes mundos e universos.
 Ulysses é uma magnífica paródia da Odisseia, de Homero. Composto, muito provavelmente, no século VIII a. C. Odisseia é um dos maiores patrimônios da imaginação, da cultura e da arte humanas de todos os tempos. Praticamente sinônimo da palavra épico e do termo Alta Literatura, o poema de Homero vem, desde a época de sua criação, influenciando, praticamente, qualquer espécie de manifestação cultural que gire em torno dos temas do herói e do heroísmo ou que esteja ligada a palavra grandiosidade. Literatura, cinema, histórias em quadrinhos, música clássica, heavy metal, vídeo-games...Não importa a mídia...Qualquer coisa da cultura humana que exalte o espírito guerreiro, a nobreza de caráter e a aventura terá o dedo da Odisseia e de Homero. Em suma, como eu comentei alguns parágrafos acima, Odisseia pertence aquela categoria de obras literárias que estão a tanto tempo, e tão profundamente, entranhadas no imaginário de nossa sociedade que acabou se tornando parte daquilo que C.G. Jung denomina como inconsciente coletivo e que o mitólogo Joseph Campebell usa para explicar os mitos arquétipos em seu gigantesco tratado sobre mitologia As Máscaras de Deus.
 E são justamente esses arquétipos sagrados da Odisseia que James Joyce, simultaneamente, usa como base e metáfora, homenageia e destrói em Ulysses.
 Se em sua obra Homero usa o tema da viagem de volta para casa de um homem para exaltar tudo aquilo que o ser humano tem de mais nobre e, até mesmo de sobre-humano, como força, coragem, honra e astúcia exacerbadas, Joyce usa o mesmo tópico para explicitar aquilo que nós temos de mais baixo, vil, mesquinho, nojento e trivial.
 Se a Odisseia pode ser considerada a epopeia definitiva sobre a coragem, a aventura e o super-homem Ulysses é o seu exato oposto, seu reflexo distorcido, seu doppelgänger. Uma epopeia punk feita de niilismo, conduzida pela mais cruel desventura, fedendo a podre e protagonizada por um bando de pobres coitados totalmente perdidos no labirinto que é a vida.
 Entretanto, da mesma forma que o cinema de Martin Scorsese, Joyce narra o seu drama mundano com a mesma opulência, criatividade e sofisticação visual dos grandes épicos. Empurrando a literatura e as técnicas literárias aos seus limites mais extremos, sublimes e perfeitos. Ulysses não é um livro para ser digerido em apenas uma leitura, eu pretendo lê-lo novamente, e, muito provavelmente, terei que fazer outra resenha sobre ele depois disso, pois descobrirei centenas de outras ópticas, ideias e perspectivas que nem sequer imaginei existirem em minha primeira leitura, tampouco é uma obra tranquila, fácil e agradável que lemos para nos distrairmos na beira de alguma praia.
 A saga de Leopold Bloom, o "Odisseu" de Joyce, e de seus ordinários companheiros é narrada por meio de uma estética tão insana e, praticamente, indecifrável quanto genial, lídima e brilhante.
 Em busca da originalidade e da radicalidade literárias absolutas, James Joyce narrou a maior parte de sua magnum opus dentro do caos, da verborragia e da velocidade estonteante do pensamento humano. Em Ulysses o leitor é jogado, literalmente, dentro da intimidade do raciocínio dos personagens. E logo você descobrirá que de racional, no sentido clássico da palavra, a nossa mente tem muito pouco...
 Essa técnica ao mesmo tempo extraordinária e exasperante empregada por Joyce faz de seu livro uma obra enciclopédica em que em apenas uma página dezenas dos mais variados assuntos sejam esmiuçados enquanto o leitor sua os seus neurônios e testa a sua concentração para correr atrás da principal linha narrativa da trama e não se perder em meio ao emaranhado multi temático que explode em cada fragmento de Ulysses.
 Ao adaptar todo o universo da Grécia ancestral, mitológica e fantástica do século XI a. C. de a  Odisseia para a nua e crua realidade da Irlanda do início do século XX o furacão literário de James Joyce não nos apresenta, apenas, uma simples mudança espaço temporal, mas sim um painel completo em seus mínimos pormenores das infinitas e brutais diferenças que ocorrem entre situações semelhantes, entretanto separadas entre si por culturas distintas e por um abismo de aproximadamente 3.000 anos de idade. Não sei até que ponto as situações surreais e delirantes que Homero criou em sua obra serviram, se é que serviram, para o lendário autor tecer alegorias e críticas sociais da sociedade em que vivia. Mas quanto a Joyce, me pareceu que este quis provar que, muitas vezes, e sem nos darmos conta disso, a nossa realidade é bem mais dura, pior, perigosa, traiçoeira, sombria e infinitamente mais complicada do que os mais diabólicos mundos imaginários. Sentimos calafrios na espinha ao pensarmos em bruxas, ciclopes e cenários infernais repletos de mutações demoníacas e respiramos aliviados por vivermos em uma época em que os avanços científicos e tecnológicos nos livraram da Idade das Trevas onde que uma simples gripe poderia se transformar em uma pandemia assassina capaz de varrer um país inteiro. Entretanto, esquecemos que essa mesma doutrina techno/científica salvadora que, teoricamente, empurra a humanidade para um futuro cada vez mais racional e livre de vicissitudes também pode, em um piscar de olhos, nos arremessar no abismo.
  Um mundo cada vez mais globalizado, científico e informatizado não serve, apenas, para unir e distribuir entre nós aquilo que o ser humano tem de melhor, mas também para espalhar a nível planetário, e à velocidade da luz, a porção mais animalesca, insana e repugnante de nossa alma. Civilizações cientificamente mais avançadas conquistando, escravizando e destruindo populações e culturas inteiras, armas de destruição em massa....Bolsas de valores oscilando descontroladamente, países mergulhando no caos devido a gigantescas fraudes financeiras arquitetadas por meia dúzia de banqueiros, a economia mundial, e a civilização, quase que permanentemente, por um triz...As comunicações evoluíram de forma tão maravilhosa que basta um modem para nos deixar perpetuamente em contato com as mentes distorcidas pelos mais doentios distúrbios psicossexuais que se possa imaginar ao mesmo tempo em que, graças aos avanços nos camposa da biotecnologia, da engenharia genética e da informática, a filha adolescente de nosso vizinho pode estar criando em um laboratório improvisado em seu quarto uma nova, e letal, modalidade do vírus do sarampo.
 Bem-vindo ao mundo de verdade. Onde tudo é "racional" e científico e você não precisa se preocupar com bruxas, lobisomens ou deuses malignos, pois aqui existem coisas muito piores do que isso...
 Acho que esse é o cerne de Ulysses: fazer um cotejo entre o real e o imaginário. E nos mostrar que mesmo o ser humano mais medíocre de nosso mundo "lógico" e "coerente" tem que, em um único dia de sua vida e sem se afastar muito de seu lar, enfrentar monstros, perigos, catástrofes e demônios muito piores do que aqueles que o herói máximo da Odisseia encontrou em sua viagem de anos pelos rincões mais afastados e obscuros do mundo.
 Essa é a principal, e horripilante, mensagem que James Joyce quer passar para o leitor: as nossas vidas, a vida de qualquer um, é uma aventura aterradora onde, desde o momento de nosso nascimento, temos que viver com um machado afiado permanentemente sob nossas cabeças e com a morte sempre correndo em nossos calcanhares.
 Um dos notáveis exemplos em Ulysses entre este paralelo e confronto entre a realidade e o fantástico se dá no segmento em que Leopold Bloom visita um prostíbulo e que equivale a passagem da Odisseia em que a nau de Ulisses e seus companheiros aporta na ilha Eéia onde se tornam prisioneiros da sensual e diabólica bruxa Circe. Na epopeia de Homero o embate e perigos que os heróis devem enfrentar nas garras da feiticeira são meramente de ordem física, bem mais simples e, digamos, mais visíveis do que os que Bloom e seus companheiros de farra correm ao penetrarem em um simples bordel.
 Se na passagem de Circe em Odisseia toda a situação é apresentada de forma maniqueísta com o bem e o mal interpretados em termos absolutos e os papéis de heróis e vilões estão claramente definidos ----um grupo de corajosos aventureiros, vítimas de um destino cruel e de divindades vingativas, se tornam prisioneiros de uma celerada bruxa----o equivalente que Joyce nos mostra em sua obra é bem mais complicado e perigoso.
 Em Ulysses, e consequentemente no mundo real, os personagens não são pobres vítimas sujeitas aos caprichos de potestades divinas alheias a nossa carne e espírito. Leopold e Molly Bloom, Stephen Dedalus e cia carregam seus próprios deuses e demônios dentro de si e intrínsecos as sua personalidades. Não são os ventos soprados por Poseidon que arrastam Leopold para as entranhas de um puteiro, mas sim a própria atração que este sente, que todos nós sentimos, pelo pecado, pelo proibido, pelo perigo.
 Quem dera que os personagens de Ulysses que frequentam o bordel precisassem se preocupar apenas com uma bruxa má que pretende transformá-los em porcos. Aqui os riscos são muito mais terríveis do que simples magia negra, e o que é pior, muito mais camuflados e sutis.
 Aqueles que se atrevem a aportar nas Eéias de Joyce e da vida real podem ser, a qualquer momento, possuídos por espíritos malignos invisíveis aos olhos humanos como a sífilis, gonorreia, herpes genital, em uma época em que a descoberta da penicilina ainda estava, mais ou menos, uma década no futuro, e dezenas de outros demônios desta mesma Legião.
 Mas, como eu disse a pouco, as piores ameaças que os personagens de Joyce enfrentam não vem de fora, mas de dentro deles mesmos: o eterno medo que os frequentadores das alcovas de "Circe" tem de que a sociedade descubra os seus pecados e jogue os seus nomes na lama, o sentimento de culpa dilacerante, e que terão de carregar para o resto de suas vidas, por terem traído suas esposas...Os perigos da Eéia de Ulysses vem de todas as direções e são de todos os tipos que se possa imaginar: físico, moral, filosófico, espiritual...Aqui o castigo por não se ter resistido a "sedução da feiticeira" pode vir tanto em formato gigantesco, épico e gritante, como ser esmagado pelo punho implacável da sociedade moralista, quanto por meio de uma roupagem microscópica como ter seu corpo destruído pelos demônios venéreos.
 Essa obsessão/paralelo entre o macro e o micro em Ulysses explode na espetacular e inacreditável passagem da obra em que Joyce usa as mais simples e corriqueiras ações no dia a dia de uma pessoa para explicar todo o funcionamento de uma cidade, de um país, da natureza, dos planetas, da Via Láctea, de tudo...
 Por meio de um gigantesco fluxo de consciência o autor, por mais delirante e inverossímil que isso possa parecer,  nos prova por A + B que o simples passo que qualquer indivíduo dê ou o simples abrir de uma torneira está profunda e precisamente ligado a uma cadeia de eventos cósmicos que influenciará tanto no movimento das águas dos rios e oceanos da Terra quanto na formação de outros planetas, explosões de estrelas e além...
Assim, Joyce cria uma fascinante especie de Fisiologia do Universo que deixa o leitor de boca aberta e sem fôlego e que, visionariamente, antecipa a polêmica Teoria do Caos do matemático e meteorologista Edward Lorenz que através deste seu revolucionário conceito quis nos mostra que: O simples bater de asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um tornado no Texas.
 Toda essa abordagem enlouquecedora de conhecimento desmesurável em Ulysses prova para o leitor o alcance infinito de sapiência absoluta a que pode chegar a literatura.
  E a Fisiologia do Universo na obra de James Joyce vem embutida dentro de uma estética literária igualmente universal em que, emaranhadas no interior do labirinto do pensamento humano, vão se sobrepondo umas sobre as outras, como uma boneca russa ou as camadas de uma cebola, as mais variadas técnicas narrativas: da antecipação do lisérgico estilo beatnik de William S. Burroughs, que derruba as barreiras entre o real e o fantástico, e da linguagem telegráfica que caracterizaria a obra de Ernest Hemingway e se tornaria marca registrada da literatura Hard Boiled, passando pela poesia em formato de prosa e chegando a abranger até mesmo estilos narrativos que não pertencem a literatura como nas passagens de Ulysses em que a estrutura do texto lembra um roteiro de peça de teatro ou de cinema.
 Da mesma forma como aboliu as regras e seguiu os seus próprios instintos na elaboração do atordoante amálgama de técnicas e estilos que é a narrativa de Ulysses, James Joyce cria novos "preceitos" gramaticais e sintáticos tão radicais para a construção de seu texto que, por vezes, parece que o escritor está fabricando uma nova língua.
 Joyce segue a risca a opinião de outro titã da literatura, Monteiro Lobato, sobre a normatividade da língua  no preâmbulo de seu clássico Urupês: "Não há lei humana que dirija uma língua, porque língua é um fenômeno natural, como a oferta e a procura, como o crescimento das crianças, como a senilidade, etc [...] Se uma lei institui a obrigatoriedade dos acentos essa lei vai fazer companhia às leis idiotas" [...]
 Assim, em Ulysses o autor manda o hífen para a puta que o pariu praticamente um século antes de nosso Novo Acordo Ortográfico...e muito mais: palavras escritas de trás para a frente, neologismos, aglutinação de vocábulos que transformam dezenas de termos de uma frase em uma única, e gigantesca, palavra. Joyce também controla até mesmo a velocidade com que quer que o seu leitor avance na narrativa de Ulysses, como no capítulo final que é composto de várias páginas com zero de qualquer tipo de pontuação ou vírgula. Isso faz com que, sem nem percebermos, vamos devorando as palavras uma após a outra até, literalmente, perdermos o fôlego.
 Nascido em Dublin, na Irlanda em 2 de fevereiro de 1882, James Joyce teve uma educação bem diversa da narrativa de sua obra mais famosa: politicamente correta e rígida. Entretanto logo Joyce chuta o balde e se revolta contra os padres jesuítas que foram os responsáveis pela sua educação básica. Vai para a universidade de Dublin onde estuda francês, inglês e italiano além de participar de grupos de literatura e de teatro.
 Mais tarde, em Paris, abandona a faculdade de medicina e começa a vagar pela Europa dando aulas de inglês. Em 1922 publica Ulysses que se torna um verdadeiro laboratório da Literatura Moderna e em 1939 Joyce lança sua obra derradeira: O Despertar de Finnegan, onde o escritor aditiva ainda mais as inovações apresentadas em Ulysses.
 Em 13 de janeiro de 1941, James Joyce, um verdadeiro cientista da literatura, morre em Zurique, na Suíça.
 Bom, esta foi a minha resenha sobre uma das maiores obras da história da Literatura Universal. Procurei, para o bem, ou para o mal, dar o máximo de mim nesta crítica e ser o mais sincero possível em relação a minha opinião sobre a obra de Joyce.
 Independente de você ter adorado este texto ou de tê-lo achado uma bosta completa recomendo que leia Ulysses e tire as suas próprias conclusões.
 Está longe de ser uma leitura fácil, mas lhe garanto que depois de lê-lo, independente de ter gostado ou não, você nunca mais irá encarar a literatura e a própria linguagem escrita como um todo, com os mesmos olhos...
 Pois, parafraseando o que uma professora de literatura me disse certa vez: "Ulysses não é uma obra apenas para se ler, mas também para se estudar e compreender a literatura".

 Agradecimentos à professora Márcia Lopes Duarte.

                                                                                         
                                                                   
                                                                                                                                                     


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OS MUNDOS DE MARIO BAVA

 Para a maioria dos cinéfilos, até mesmo para alguns "fãs" de filmes de horror, o cinema fantástico italiano se resume a produções indigestas, toscas, ultra apelativas e visualmente paupérrimas como longas sobre canibalismo, zumbis, nudez e pornografia. Tudo amparado por efeitos especiais de fundo de quintal.
 Em suma, cinema classe Z.
 Porém, aqueles que gostam, entendem e pesquisam a fundo os filmes de terror sabem perfeitamente que as palavras "indigesto", "tosco" e "apelativo" não são exatamente sinônimo de baixa qualidade em produções do gênero, muito pelo contrário. Além disso qualquer cinéfilo adulto e maduro já sabe a séculos que orçamentos milionários e efeitos visuais opulentos nunca foram garantia de qualidade cinematográfica seja em qual gênero que for.
 Entretanto, para calar a boca de cinéfilos caretas, metidos a intelectuais e covardes e para aquela nova modalidade de entusiastas de filmes de "terror" que vem surgindo nos últimos anos, que eu denominei de Fãs do Bem de Filmes de Terror ou Fãs de Filmes de Terror Politicamente Corretos, resolvi fazer uma resenha de uma verdadeira obra-prima do Cinema Fantástico Italiano que não perde em nada para as melhores obras de Alfred Hitchcock, Ridley Scott e Stanley Kubrick que os críticos de cinema sérios e que se acham superiores a nós, meros mortais, gostam tanto de incensar.
 Como geralmente, e infelizmente, acontece com as obras cinematográficas verdadeiramente boas e relevantes, La Frusta e Il Corpo, uma co-produção entre Itália e França lançada em 1963, é um filme obscuro e, excetuando-se os pesquisadores e connoisseurs de Cinema Fantástico, praticamente desconhecido do grande público.
 Dirigido por um dos mais versáteis e talentosos cineastas italianos, Mário Bava, que aqui assina a direção com o pseudônimo John M. Old, La Frusta e Il Corpo é uma filme de horror com um dos visuais mais espetaculares e impressionantes da história. O requinte estético desta obra de Bava a coloca no mesmo nível  de outros marcos do apuro técnico no Cinema de Horror como O Poço e o Pêndulo ( The Pit and The Pendulum/1961), de Roger Corman, Alien, O Oitavo Passageiro (Alien, 1979), de Ridley Scott, O Iluminado ( The Shining/1980), de Stanley Kubrick, Poltergeist, O Fenômeno (Poltergeist/1982), de Tobe Hopper e O Corvo (The Crow/1994), de Alex Proyas.
 No século XIX, em um opressivo castelo à beira mar, constantemente castigado pelas ondas do oceano sombrio e fustigado pelos ventos gélidos oriundos das imensidões do pélago, uma aristocrática família tenta a todo custo manter as aparências e evitar que a decadência moral de alguns de seus membros engolfem a todos em uma espiral de sangue, sexo e perversão.
 Neste cenário hamletiano temperado com toques de parafilia vivem o casal sadomasoquista Nevenka e Kurt Menliff (Daliah Lavi e Christopher Lee, respectivamente), os parentes destes, Count Menliff (Dean Ardow) e Christian Menliff (Tony Kendal), a bela Katia (Islio Oberon), o empregado da família chamado Losat ( Allan Collins) e um sacerdote conhecido, apenas, como Pastor.
 A partir do momento em que Kurt é assassinado em circunstâncias misteriosas, La Frusta e Il Corpo se transforma em uma belíssima homenagem aos clássicos textos macabros de Edgar Allan Poe e Henry James. Com, a exemplo das histórias de Poe, uma mistura angustiante de clima sobrenatural com horror psicológico que envolve o espectador em uma atmosfera gótica densa, pesada e sufocante.
 Embora as interpretações sejam precisas, com destaque paras as atuações de Daliah Lavi e, é óbvio, Christopher Lee, e os personagens nada maniqueístas, a grande estrela do filme é o seu visual e a primorosa técnica cinematográfica utilizada para compô-lo.
 Da mesma forma que Stanley Kubrick fez em 2001, Uma Odisseia No Espaço, Mario Bava não utiliza o virtuosismo das imagens de La Frusta e Il Corpo apenas como um acessório estético usado meramente para embelezar o seu filme, mas sim como uma forma de ajudar a contar a história. Aqui a fotografia trabalha lado a lado com o roteiro e as interpretações para fazer o espectador mergulhar em um pesadelo e partilhar das mesmas, e terríveis, sensações experimentadas pelos personagens do longa.
 E que fotografia!
 Cada fotograma deste clássico de Bava é uma guerra constante entre Cores, sombras e luz. Os ambientes tétricos do castelo da família Menliff são tão espantosos quanto os cômodos do hotel Overlook, de O Iluminado, o castelo de Vlad Draculea, de Drácula, de Francis Ford Coppola ou a fantasmagórica espaçonave Nostromo, de Alien.
 A exemplo desses outros três clássicos da estética gótica cinematográfica, quase todos os ambientes mostrados em La Frusta e Il Corpo estão sempre, em parte, mergulhados na mais absoluta e espessa escuridão. Essa atmosfera radicalmente sombria transmite ao filme uma sensação de perigo, suspense e tensão crônicos como se a qualquer instante algum monstro tentacular dos Mitos de Cthulhu vá saltar das sombras e arrastar os personagens para um buraco negro de horror e loucura.
 Um exemplo magistral deste medo do desconhecido que devassa o filme do início ao fim são as apavorantes sequências em que uma fantasmagórica mão emerge das profundezas das trevas para agarrar os personagem. Em momento algum do filme é explicitado de onde vem esta mão, se ela pertence a alguma pessoa de carne e osso, a um fantasma de outro mundo, ou se a algo ainda pior.
 A forma como Bava compôs essas cenas, com a mão pálida aflorando de um fundo negro e se aproximando vagarosamente da lente da câmera, colocam o espectador na pele dos aterrorizados personagens e são de um completo e magistral suspense do nível de Hitchcock, Brian De Palma, e de outro esteta dos filmes de terror e thrillers sangrentos italianos, Dario Argento. Para fechar com chave de ouro, o filme encerra com um perturbador final ambíguo tipicamente Kubrickiano. Nos deixando com a eterna dúvida se tudo o que acabamos de presenciar são, de fato, fenômenos paranormais ou, somente, fruto de uma mente enlouquecida.
 Graças a esse completo domínio de Mario Bava sobre a linguagem cinematográfica é possível ao espectador experimentar uma verdadeira imersão no universo gótico de La Frusta e Il Corpo. Com suas sombras quase palpáveis que parecem estarem vivas e respirando podendo, em um piscar de olhos, saltarem da tela e nos envolverem em um abraço gélido. É cinema total!
 Gosto de ficar especulando os visuais alucinantes que um cineasta tão talentoso como Bava criaria, caso estivesse vivo, com uma tecnologia como o 3-D digital. Certamente os nossos jovens e moderninhos diretores teriam muito o que aprender com esse velho mestre.
 Ao lado de Lucio Fulcie e Dario Argento, Mario Bava, nascido na cidade de Reno em 1914, faz parte do grupo de elite do Cinema Fantástico Italiano. E que, juntamente com esses outros dois gênios, foi o responsável por alguns dos cânones que regem as produções de horror, ficção científica e suspense, não apenas na Itália, mas em todo o Mundo e até os dias de hoje.
 Entre os vários clássicos revolucionários da carreira de Bava estão o episódico As Três Máscaras do Terror ( I tre volti della paura/1963), cujo título em inglês, Black Sabbath, inspirou o nome da primeira banda de heavy metal da história, Seis Mulheres Para o Assassino ( Sei Donne Per l' assassino/1964), considerado o marco-zero do giallo. Sempre radical e visionário Mario Bava seguiu desbravando os mares cinematográficos com a fusão horror/sci-fi Planeta dos Vampiros (Terrore nello spazio/1965), produção que foi uma das principais fontes de referência para os criadores de Alien, o Oitavo Passageiro e que contava com a atriz carioca Norma Bengell em seu elenco, Banho de Sangue ( Reazione a catena/1971), um dos primeiros slashers do cinema e que fez a ponte entre este e o giallo e Rabid Dogs um filmaço policial  muito à frente de seu tempo que antecipou em quase vinte anos o estilo tarantinesco de se filmar.
 Infelizmente, Bava faleceu em 1980 quando contava com a idade de 65 anos e ainda tinha muito gás para queimar.
 Entre o legado deste brilhante homem do cinema estão o seu filho Lamberto Bava, o qual eu tive o prazer de assistir palestrando na edição de 2011 do Fantaspoa e que dirigiu, entre outros, o cult grand guignol Demons (1985), e uma irretocável filmografia que influenciou não apenas cineastas, mas também artistas dos mais variados ramos da cultura pop.










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O LADO PUNK DA MAGIA

 Em 1989/1990 ocorreu aqui no Brasil o chamado boom dos quadrinhos. Impulsionado pelo mastodôntico lançamento do longa-metragem do Batman (1989), de Tim Burton ----a primeira adaptação de um personagem dos comics a fazer sucesso nas telas desde Conan, O Bárbaro (Conan, The Barbarian/EUA 1982), de John Milius---e pelo congelamento dos preços dos produtos de consumo nacionais graças ao milagre, que logo, logo se revelaria uma maldição, do plano econômico do primeiro presidente do Brasil eleito pelo voto direto após décadas de ditadura militar, Fernando Collor de Mello, HQs com qualidade temática e visual mais sofisticadas começaram a pipocar por aqui.
 As obras dos maiores autores e artistas da nona arte mundial podiam ser encontrados em qualquer banca vagabunda de esquina...
 O depreciativo termo gibi foi substituído pelo muito mais intelectualizado e luxuoso graphic novel...
 Frank Miller era citado como um artista de vanguarda em várias publicações nacionais de respeito...
 Não era mais um tabu vergonhoso se gostar de coisas freak como revistas em quadrinhos e super-heróis...
 Era chegada à época de nerds como eu saírem do armário.
 Nessa época eu, e muitos outros fãs de quadrinhos de classe média-baixa, podia me dar ao luxo de colecionar múltiplos títulos de HQs. Portanto todos os meses eu comparecia liturgicamente às bancas e adquiria os quatro sagrados, pelo menos para mim, títulos: Batman, X-Men, O Monstro do Pântano, e o clássico-cult, Superaventuras Marvel. Isso sem contar, quando a grana sobrava, uma ou outra mini-série ou graphic novel.
 Não adianta mentir. Já foi comprovado. Por mais que a maioria dos pais teimem em afirmar para os outros, e para si mesmos, que amam em medidas iguais a todos os seus rebentos sempre vai ter um, por mais cruel que isso possa parecer, entre a prole que vai ser o favorito.
 E assim era comigo e minhas HQs.
 Por mais que eu vibrasse com os quebra-paus entre Matt Murdock e Frank Castle em Superaventuras Marvel, me identificasse com a personalidade sombria e atormentada de Bruce Wayne e intrigasse os meus neurônios com os roteiros chandlerianos que Chris Claremont bolava para os X-Men, meu filho predileto era, em termos de popularidade, o mais tímido e quieto de todos: O Monstro do Pântano.
 Devido as suas medidas convencionais, o execrável formatinho, e a impressão em papel  de baixa qualidade em uma época em que as revistas em quadrinhos começavam a se livrar de seu estigma de Literatura para Crianças e a grande maioria das HQs mais maduras voltadas para o público adulto eram publicadas em formato americano e papel de luxo, O Monstro do Pântano enganou muita gente, inclusive este que vos fala, ao ser confundida com apenas mais uma obra quadrinística convencional sobre super-heróis.
 Tudo isso se deve a uma total falta de conhecimento e domínio sobre o tema por parte das editoras e editores de HQ da época, pois O Monstro do Pântano era mais adulto, sinistro e complexo do que a grande maioria das graphic novels e mini-séries de luxo que saíram neste período.
 Mais do que isso, Swamp Thing foi um verdadeiro divisor de águas nos quadrinhos adultos e de horror.  Uma obra revolucionária cuja força da ruptura que provocou no mundo dos comics se faz sentir até hoje e que abriu as portas para a DC criar o controvertido selo Vertigo que abrigou, e ainda abriga, alguns dos mais lendários, geniais e subversivos roteiristas e desenhistas de HQ de todos os tempos.
 Se tivesse sido editada hoje, esta fase do Monstro do Pântano, que saiu por aqui no início da década de 1990, receberia tratamento de uma obra literária de alto nível: formato americano, capa brochura, papel cuchê, preço exorbitante e seria vendida apenas em comic shops e livrarias luxuosas como a Saraiva.
 Felizmente, a mais de trinta anos atrás Swamp Thing não foi respeitada pelos seus ignóbeis editores brasileiros caso contrário milhares de jovens pobres e desajustados como eu não poderiam ter adquirido uma obra que mudaria as nossas vidas para sempre.

 Passar os olhos, à época eu tinha dezesseis anos de idade, pelos rebuscados textos de O Monstro do Pântano foi um choque para mim: as descrições barrocas dos ambientes, personagens e situações misturados aos diálogos cortantes repletos de referências a política, religião, ciência, filosofia, ocultismo e cultura pop temperadas com palavrões ríspidos era algo que eu nunca havia lido antes em minha vida.
 Eu estava sendo apresentado a literatura para adultos.
 Eu estava sendo apresentado a literatura de verdade.
 O arco de histórias de O Monstro do Pântano que me deixou tão embasbacado era, e é, simplesmente, o mais cultuado de toda a trajetória desta HQ: o épico sobrenatural Gótico Americano.
 Com roteiros do Deus dos quadrinhos, Allan Moore, se você curte HQ já deve ter ouvido falar do cara, se ainda não ouviu, então meu amigo, você NÃO curte HQ, aos não iniciados na nona arte vou tentar lhes resumir a importância do Gigante de Northampton da forma mais sucinta possível: em termos de comparação digamos que Moore é tão revolucionário para os quadrinhos quanto o foram para a literatura em geral e o cinema James Joyce e Stanley Kubrick respectivamente.
 Em Gótico Americano, o roteirista inglês amalgamou da forma mais genial possível horror antigo com moderno, H.P. Lovecraft com Clive Barker e Arthur C.Clarke, o ocultismo mais animalesco com a ciência mais avançada.
 Mas o motivo desta minha resenha não é o personagem-título de Swamp Thing, uma melancólica mutação entre homem e planta criada, na década de 1970, por Len Wein e Berni Wrightson com ecos do clássico Frankenstein e estética calcada nos gibis da E.C. ,que anos mais tarde, Moore transformaria em um monstro contra-cultural e politizado, e sim um mero coadjuvante da coisa toda.
 Para guiar o Monstro do Pântano pelo labirinto macabro e lisérgico com profundas ramificações tanto na astronomia quanto na magia negra ancestral e na cultura pop que foi o arco de histórias que formam Gótico Americano, Allan Moore e seus desenhistas criaram John Constatine.
 Trajando um sobretudo, sempre com um cigarro no canto da boca e um sarcasmo, cinismo e ceticismo crônicos em relação a tudo e a todos que o cercam, Constantine de cara me lembrou os detetives e policiais amorais da literatura noir como Sam Spade, Phillip Marlowe e Loyd Hopkins. Durões que acreditam que a sociedade humana já foi para o brejo a muito tempo e que não alimentam nenhum tipo de esperança em relação a nada.
 A princípio, o sombrio Constantine, que parecia ser tão enigmático e diabólico quanto as tramas para as quais enviava o Monstro do Pântano, surgia apenas no início e no fim das histórias parecendo uma versão mais moderna e intelectualizada do Zelador da Cripta de HQs de horror como Tales From The Crypt.
 A medida que o Monstro do Pântano, e o leitor, vai montando as peças do intrincado quebra-cabeças macabro, que é a saga Gótico Americano, e começa a descobrir que tudo desembocará em uma assustadora conspiração de proporções cósmicas e apocalípticas ele também vai, paralelamente, descobrindo mais sobre si próprio e sobre John Constantine.
 Ficamos sabendo que, a despeito de seu conhecimento erudito em ciências ocultas e feitiçaria moderna, o guia do Monstro do Pântano é uma pessoa absolutamente comum e tão enigmático e diabólico quanto qualquer ser humano cheio de falhas, como todos nós, é capazes de ser.
 Inglês de nascimento, como seu criador Allan Moore, John é uma espécie de operário e rebelde underground no mundo da magia e, devido a isso, está permanentemente em contato com os ambientes e indivíduos mais baixos, vis e barra-pesada que lidam e vivem da feitiçaria.
 Ao final de Gótico Americano, Constantine se torna um personagem tão, ou mais, importante e querido pelos leitores que o próprio protagonista da história, o Monstro do Pântano. Mas qual o segredo do Mago Calhorda (uma das muitas alcunhas carinhosas pela qual John Constantine é conhecido, as outras são malandro, trapaceiro, ladrão, etc)? O que faz com que um personagem que possui o lado negro, vicioso e subversivo de sua personalidade tão acentuado, passe de mero coadjuvante e mestre de cerimônias ao status de protagonista?
 A resposta a essa questão eu já dei três parágrafos acima, entretanto vou me aprofundar um pouco mais nesta indagação.
 Constantine era, até então, um personagem de quadrinhos como eu nunca havia visto ou ouvido falar antes: nada de músculos, nada de boas intenções, nada de heroísmo e muito menos de super-heroísmo. Ele era um cara como eu: imperfeito, mal resolvido, debochado e que não levava nada muito a sério. Ele era um cara que você encontra as dezenas por aí: uma pessoa comum lutando por sua sobrevivência. Esse, para mim, é o grande fator cativante do personagem de Allan Moore: ser um João Ninguém, ser crível. Por mais que se seja fascinado pelo Superman, Wolverine e Homem-Aranha sabemos que eles são uma quase total impossibilidade. As chances de algum dia você encontrar alguém por aí voando ou pendurado em teias de aranha sintéticas são praticamente nulas. Já um cara desagradável, cínico, solitário, com um senso de humor macabro e do qual quase ninguém gosta nós conhecemos quase todos os dias em qualquer tipo de ambiente em que formos. John Constantine agradou tanto porque é um fidelíssimo reflexo da humanidade. Mesmo que a humanidade não o queira admitir.
 Com o término espetacular do arco Gótico Americano na revista Monstro do Pântano os leitores ficaram órfãos de uma das maiores e mais seminais sagas de horror, fantasia e ficção científica dos quadrinhos. Mas em compensação ganharam um novo personagem clássico não apenas das HQs, mas de toda a Literatura Fantástica.
 Em 1988, o Mago Calhorda finalmente ganha o seu título próprio nos quadrinhos: Hellbalzer. A partir de então somos apresentados ao mundo de onde veio Constantine e é aí que as coisas começam a ficar realmente fodonas...
 Esqueça Merlin, caldeirões ferventes, bruxas narigudas e wicca. A bruxaria com a qual Constantine lida e convive em seu dia a dia pertence ao universo de Livros de Sangue e Coração Satânico e não ao de Harry Potter e As Crônicas de Nárnia.
 Nada de Reinos Medievais Encantados e dimensões paralelas, o fantástico e o horror que conduzem as tramas de Hellblazer acontecem aqui e agora revelando, além de demônios, vampiros e outros monstros sobrenaturais, os monstros, refugos e demônios de nossa própria sociedade e de nós mesmos que se escondem na escuridão dos becos, na miséria dos guetos de Terceiro Mundo, na loucura das drogas e na violência da depravação.
 Ex-líder e vocalista de uma ácida banda de rock na linha de Sex Pistols, Constantine transita pelo mundo do sobrenatural com a atitude tipicamente niilista  herdada do Movimento Punk como se fosse um Johnny Rotten do ocultismo.
 Anti-herói por excelência, muitas vezes o sangue frio e a crueldade demostradas pelo protagonista de Hellblazer o tornam tão perigoso e assustador quanto os seus próprios e monstruosos inimigos. Fazendo com que o leitor vez por outra se pergunte de que lado Constantine realmente está, se do Céu ou do Inferno?
 Os fãs mais atentos e de mente aberta perceberão que no mundo de Hellblazer, assim como no mundo real, o bem e o mal são duas faces da mesma moeda e de que, por vezes, o demônio mais carniceiro pode ser capaz de praticar atos de bondade e redenção enquanto que alguns anjos são tão ferozes quanto o mais sanguinário dos psicopatas.
 Em seus quase trinta anos de existência, Constantine já enfrentou toneladas de aberrações sobrenaturais e naturais inimagináveis e repugmantes enquanto se equilibra perigosamente sobre uma corda bamba entre sagrado e o profano em tramas, quase sempre, assustadoras e sufocantes e que não perdem em nada para as obras de gênios da fantasia negra como Stephen King e Clive Barker.
 Esse altíssimo nível de qualidade das histórias de Hellblazer se deve ao fato de seus roteiristas serem escolhidos a dedo e de sempre estarem a altura da personalidade insurreta e perversa de John Constantine.
 De Allan Moore a Neill Gaiman, de Grant Morrison a Garth Ennis, de Warren Ellis (que escreveu uma história tão polêmica para Hellblazer que por anos a DC a deixou engavetada) ao romancista China Miéville.
 Os escritores das aventuras de Constatine foram recrutados dos guetos mais sinistros e inovadores do horror, da ficção científica e do policial e todos foram contribuindo no decorrer dos anos para formar a persona controversa do Mago Calhorda.
 Embora os vários "pais" de Constantine o tenham levado aos mais diferentes cenários, fazendo-o enfrentar os mais diverso inimigos e o tornando, ora mais vilanesco, ora mais bondoso, nunca esqueceram do principal: sempre mostrar que, no fundo, John Constatine é apenas um ser humano comum...como todos nós.